A energia e força nem sempre vêm do descanso, ou pelo menos o físico. Por vezes vamos recarregar baterias a algo que nos rouba sono mas que preenche tanto a alma que nos enche de força quer física quer psicologicamente. Isto porque ir a um concerto no Cais do Sodré significa quase sempre deitarmo-nos tarde no sentido de dia de semana e de trabalho. No entanto há noites em que essas horas a menos de cama compensam cada minuto de prazer auditivo.
O meu discurso remonta à passada terça-feira, dia
05 de Novembro, no Sabotage Rock Club com a companhia dos explosivos Gator, The Alligator e The Mystery Lights

A escolha fora acertada para anteceder os The Mystery Lights aquecendo bem o corpo e os ouvidos. Desde cedo que apelidei os Gator, The Alligator de King Gizzard portugueses em fase de crescimento. Aos poucos vejo que se vão tentando afastar disso e ainda bem. Embora a génese se mantenha, estes quatro amigos de Barcelos não deixam ninguém indiferente. A descarga energética que têm em palco e a comunhão evidente de garra capta a atenção de todos e abana-nos. Distorção, ansiedade, fuzz, saltos e traços de psych acompanham-os onde quer que vão. Apesar de Tiago estar rouco, a sua prestação manteve-se exemplar, sem transparecer o esforço que fazia. Os riffs são estrondosos e quase que asfixiantes no sentido de tirarem o fôlego. O single de apresentação de Life Is Boring – “Spider” – serviu de abertura de noite, sendo que o álbum fora apresentado na íntegra. Entre isso, as versões de “Funny” de Black Lips e de “My Sharona” de The Knack muito bem esgalhadas e metidas. Continuem a crescer, meus rapazes! 

O regresso dos The Mystery Lights era algo aguardado e ansiado. Too Much Tension! é um álbum aprimorado que consolida a essência destes cinco americanos, um grupo de cowboys forasteiros com unhas e dentes com uma capa esvoaçante de elegância apurada. Apesar de ser o penúltimo concerto de uma extensa tour e de os rostos acusarem cansaço, o poder que lhes circula nas veias manteve-se quente e a viagem de explosões sonoras fez-se com o maior dos entusiasmos, fazendo com que água escorresse pelas paredes do Sabotage e pelos rostos dos que saltavam e dançavam aficionadamente.
Passo a passo, o leque de seguidores vai aumentando e uma sala que os viu a primeira vez em Portugal estava cheia e alegremente inquieta. Os The Mystery Lights conseguem fazer a mistura entre a atitude punk Nova Iorquina dos anos 70 e as ondas quentes de um surf psych das estradas e deserto da Califórnia, não deixando de nos apertar em calorosos braços de riffs empolgantes, acolhedores e vibrantes adocicados com umas teclas flutuantes que nos mostram o caminho das cores. A introdução das teclas que conheci no ano de 2018 em Paredes de Coura traz uma nova e melhor construção musical e Lily tem dedos mágicos! Mike vai buscar forças ao canto mais profundo do seu ser e salta como sempre repetida e elevadamente, referindo que é bom estar de regresso aquela casa. A sua voz, excêntrica e peculiar é algo que se entranha em nós.
Too Much Tension! deu logo caras às primeiras faixas com “I’m So Tired (Of Living In This City)” e “Can’t Get Through My Head” revelando já seguidores atentos com a letra na ponta da língua. O homónimo trouxe mais êxtase com “Too Many Girls” e “What Happens When You Turn The Devil Down?” que virou emocionalmente o Sabotage de pernas para o ar. Aqueles riffs deixam qualquer um atordoado! 

Os The Mystery Lights são uma das melhores bandas de rock’n’roll da actualidade. Dotados de uma energia visceral possuem o groove e o talento certos para deixar qualquer amante de música rendido a seus pés! Esperamos que a visita a Portugal continue a ser feita anualmente.

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