Human Tetris no Sabotage. Um festival de canções, da Rússia com amor

Noite de quinta-feira no Sabotage Club para ver Human Tetris, uma banda de russos com muita garra, de poucas palavras e praticantes de um post-punk ensolarado e melancólico.

 

À chegada, e porque estamos ainda no quase final da semana e com o vislumbre da madrugada a entrar pela sexta-feira adentro com o som do despertador a tocar para mais um dia de trabalho, ainda assim, a sala vai-se compondo de uma forma mais lenta do que o habitual ritual de outras noites de fim de semana. Mas esta banda tem feito as escolhas sonoras certas a passo firme, isto se contarmos até com o hiato de silêncio a que se forçaram em 2013, pausando a sua curta carreira com um final dramático e regressando depois em 2016 com o EP River Pt.1, trabalhando o seu som no sentido de o tornarem mais vincado, coisa que até se nota na forma cada vez mais descontraída do vocalista abordar as canções.

O novo disco Memorabilia com canções como “Another day”, “Ugly Night” ou “Melancholly”, foi pretexto então suficiente para que na altura em que entram em palco a sala já albergar uma audiência condigna para os receber. Não desiludiram nem um pouco. Também os apanhámos num bom momento com quase um mês de estrada uma vez que Lisboa foi enquadrada na parte final da digressão europeia da banda, faltando só depois Madrid e um salto a Moscovo.

Já traziam 14 datas às costas e como atletas, entraram em cena esticando o corpo em palco discretamente. A um canto estrategicamente escolhido e a salvo dos seus endiabrados colegas de banda, a teclista Tonia Minaeva com a sua mesa que também albergava uns quantos pedais para colorir os sons das suas teclas e da sua guitarra. E no resto do palco, três rapazes com ar de quem foi à praia ao abrigo de um qualquer programa Erasmus.

Maxim Zaytsev é um baixista hiperactivo, e todas as músicas começam ao toque de: um, dois, três, quatro nas baquetas de Ramil Mubinov. Este, armado de uma bateria despida de timbalões, foi frenético e imparável ao longo de toda a actuação, parando somente para a jeito de tique, consultar o alinhamento no seu smartphone entre canções. Estes dois formam uma dupla muito boa, são uma secção rítmica genial, de modo que é difícil parar de vislumbrar tanto o baixista como o baterista em jogos rítmicos e alguns, de difícil execução.

Tal como um Peter Hook juvenil mas até mais virtuoso, Maxim só parou de deslumbrar a audiência com a sua mestria no baixo, quando a pouco mais de meio do set o entregou a Arvid Kriger que continuando a cantar se ocupou das quatro cordas durante um par de canções, abandonando a guitarra ,enquanto o nosso baixista hiperactivo e energético se ocupava das teclas de Tonia e a certa altura até dançava por detrás das mesmas.

De realçar o papel de Tonia Minaeva, que desde o seu ingresso nesta nova vida da banda, veio trazer uma diversidade que não existia. Exemplo disso foi a sua voz no fantástico “Shadows”, com um registo quente, muito suave e bem trabalhado para o embalar da canção, ou até mesmo quando abandonava as teclas para se dedicar à guitarra.

Antes, o concerto já havia começado energético com predominância para ritmos fortes em canções onde a voz de Kriger me fez perguntar porque é que os russos soam assim a cantar inglês… aquele tom parecido com Motorama… , outros russos encantadores. E as soluções aqui são semelhantes, basta uma guitarra com aquele arpegiar característico com os pedais certos ligados para se fazer a festa, enquanto se canta e toda a banda faz o resto.

Ritmo forte dizia, em sublimes canções como “Runaway” ou “Blind” e a nova e fantástica “Another Day”, um clássico instantâneo de refrão simples, as guitarras com um riff a fazer lembrar qualquer coisa que podia ter sido escrita pelos The Cure. Por esta altura todos já teriam reparado que estes Human Tetris gostam nos dias que correm de viajar leves. Trouxeram um baixo de escala curta e umas guitarras que de tão pequenas, quase pareciam bandolins e, passe o exagero, semelhantes a instrumentos de brincar, em especial no caso das guitarras de seis cordas.

Já havia aqui referido que não houve um bis ou o popular encore, mas também o concerto foi longo o suficiente para uma quinta-feira à noite. Os amigos russos estiveram depois disponíveis para conversar com os fans enquanto promoviam o habitual merchandise, e nem que fosse para rabiscar assinaturas nas set-lists, por ali ficaram. Para mim os melhores temas do concerto foram “Ugly Night”, mais para o final, e a velhinha “Things I Dont Need”, esta última, levava-me já pessoalmente a voltar a vê-los daqui a uns dias. Voltem para apanhar Sol nas nossas lindas praias e apresentem mais um concerto.

 

Texto – Pedro Corte Real
Fotografia – Luis Sousa