O calor mantinha-se na vila encantada, um clima que, em 10 anos de festival, nunca tinha sentido. De notar que, infelizmente, não conseguimos chegar a tempo de saborear o rock dos Bed Legs e dos Linda Martini.
A acompanhar o dia solarengo, nada melhor do que começar com o calor ternurento de Terno Rei. A banda com 15 anos veio para dar um mote relaxado a este dia com o seu indie rock bonito. O início do concerto fez-se notar com uma sequência de músicas mais ritmadas, mas depois a linha manteve-se ténue e serviu de embalo para podermos absorver este início de dia lentamente.
Esta era a quarta vez que assistia a um concerto de Perfume Genius e, pela quarta vez, foi uma surpresa boa. Não que faça sempre concertos diferentes, mas porque Mike nunca desilude nem tem concertos maus (que eu veja).
Não sei se tem um bom perfume, mas sinto-o como um pequeno génio cheio de talento, sensibilidade, elegância, delicadeza e com uma capacidade intrínseca de nos envolver na sua performance e, também, no seu sentir.
Com ele, músicos de qualidade distinta que lhe dão a almofada certa para poder brilhar no seu indie algo negro e introspetivo que mistura com pop barroca. Nem parece que vem da cidade que vem, apesar da melancolia ser uma constante nas melodias. Perfume Genius fez a transição do dia para noite naquele anfiteatro natural com uma sensualidade despida de preconceitos, um instrumental intimista e intimidador e uma força estrondosa. Cada concerto é uma experiência não só auditiva como visual e sensorial, indo sempre em crescendo para um ritmo mais electrónico terminando num transe de sensualidade com “Queen”.
De seguida vinha a primeira grande surpresa da noite. Os Fat Dog são uma banda recente (da pandemia) de electro punk que provou que não está aqui para brincar. Defronte de uma plateia extensa, os Fat Dog conseguiram oferecer um concerto caótico e energético cheio de ritmo e densidade com combinações que variam entre o punk e o techno com um saxofone a apaziguar os ânimos, oferecendo uma boa diversidade sonora com combinações incríveis que nos poderiam criar espasmos corporais. Apesar da falta da máscara no baterista, foi um concerto de 1h cuja energia se transformou em coletivo de dança e cuja emoção se estendeu à cara dos que presenciaram este momento. Escutei muitas pessoas dizer que tinha sido o concerto da noite e, caso não viessem uns Soft Play a seguir, também poderia ser para mim!
Lola Young era esperada por muitos. Eu não sabia ao que ia pois nunca a tinha ouvido, nem mesmo à música que a tornou popular. No entanto, não consegui ficar indiferente à sua voz e presença em palco. Lola Young dedica-se à música indie com desenhos de pop, tendo uma voz que poderia aproveitar para algo mais soul e, até, mais trabalhado. Acompanham-na muito bons músicos que ajudaram em muito ao momento bonito e feliz que foi vivido e partilhado naquele palco. Lola emocionou-se com o público várias vezes e até afirmou que queria mudar-se para Portugal (conheço bem os encantos de Coura, mas às vezes já me é difícil perceber a genuinidade de coisas do género, pois a conversa repete-se de banda para banda, de palco para palco, de ano para ano), a verdade é que o público se entregou a ela e à sua pop, abraçando-a carinhosamente e dançando com ela. Houve ainda tempo para dedicar uma música ao seu dealer e afirmar a sua dependência. Foi um concerto sentido e genuíno que, caso não o fosse, poderia não ter grande interesse.
De regresso ao palco secundário esperava-nos a segunda surpresa da noite e aquele que seria o melhor concerto do dia. Os Soft Play são um duo de Inglaterra e tocam punk abrasivo e muito bem tocado, ao contrário do que este estilo pede. Estes rapazes são adrenalina, revolta, raiva, explosão, manifestação e muito talento. O baterista, também frontman da banda, tem uma força e coordenação de louvar, sendo capaz de, só com as baquetas, pegar em nós e andar connosco no ar a uma velocidade tal que nos faz quase desmaiar, mas sem perder o prazer. Os Soft Play são donos de uma energia contagiante e transpuseram para o público toda a garra que trazem consigo, saltando para junto de nós, pedindo circle pit só de mulheres, interpretando músicas para quem está com a saúde mental num mau sítio, entoando gritos de revolução, tudo sem perder o ritmo nem nos perder a nós. Este duo é a verdadeira antítese do seu nome, outrora Slaves. Não faltaram hits como “Fuck The Hi-Hat”, “Punk’s Dead” e “Girl Fight” (música que serviu de banda sonora ao mosh feminino) e muitas outras malhas do seu mais recente trabalho Heavy Jelly. Diria que poderiam ser uns The Clash da era moderna com uma sonoridade mais pesada e, por vezes, mais acelerada. Fizeram uma verdadeira revolução, no palco, fora dele e dentro de nós! Depois deste concerto, confesso que nem sabia bem onde estava, só que estava feliz.
É uma tarefa difícil para uma banda, num festival generalista, vir a seguir a Soft Play. Primeiro porque será difícil manter o ritmo e, pior que tudo, será muito difícil manter as pessoas.
Quando vi Portugal, The Man em 2018 no mesmo local, a encerrar, de igual modo, o palco principal, não consegui ficar até ao fim. Apesar de serem todos músicos bons, o concerto apresenta-se demasiado despido e deslavado em comparação com as músicas de estúdio. No entanto, ao investigar a banda novamente, percebi que estavam com um registo ligeiramente diferente, o que fez com que me apetecesse dar-lhes uma nova oportunidade. Apesar da panóplia de instrumentos que compunham o palco e das paisagens sonoras que criavam em conjunto com os coros, percebi que não conseguia na mesma. Não conseguia ficar, não conseguia ouvir, não conseguia sentir. Talvez tenha ficado quase metade do concerto, o que não foi mau, dado o estado de êxtase em que o meu corpo se encontrava, no entanto e, apesar da música estar ligeiramente menos pop e mais rock, e de estar a fazer um esforço, nada foi suficiente. Não consigo avaliar se tiveram uma boa prestação ou não, mas tampouco estava em condições de o fazer, só queria saborear tudo o que ainda me restava no corpo e na lembrança do momento que vivi anteriormente. No entanto, ressalvo as mensagens que foram passando no ecrã que tinham como intuito ter graça, mas não resultaram muito bem. Não precisamos de piadas secas, apenas precisamos de sentir a música.
Este segundo dia foi um dia menos cheio, mas muito intenso e, sem dar conta, já caminhávamos para a recta final do festival.

































































































































































































































































































