O terceiro dia de concertos do Primavera Sound Porto 2025 chegou com uma energia contagiante e eclética, reafirmando a identidade diversa do festival. Sábado, 14 de junho, marcou o encerramento das atuações ao vivo no Parque da Cidade, mas não o fim da festa — ainda há mais por explorar no alinhamento de domingo, dedicado à eletrónica. Ontem, contudo, o protagonismo foi partilhado entre guitarras estridentes, ambientes dançáveis e um público que mostrou estar presente de corpo e alma até ao último riff.
Se houve um nome que se impôs com autoridade no cartaz de sábado, esse nome foi Turnstile. A banda de Baltimore ofereceu um espetáculo explosivo e catártico, fazendo tremer o palco com uma atuação intensa e emocionalmente carregada. Com um público rendido desde o primeiro minuto, a mistura de hardcore, melodia e groove fez-se sentir com uma força rara — foi uma daquelas atuações em que tudo se alinha: a entrega da banda, a resposta do público e a envolvência do cenário natural do festival.
Cap’n Jazz trouxe um momento particularmente especial e nostálgico ao cartaz. A banda de culto liderada por Tim Kinsella mergulhou os presentes num espírito lo-fi e descomprometido, relembrando a era dourada do emo e do indie rock noventista com um toque de humor e caos controlado. A atitude irreverente e a desconstrução do palco tradicional deram à atuação um sabor quase performático, onde o improviso era parte do encanto.
Mais contido mas não menos envolvente, Destroyer construiu o seu concerto em camadas subtis de ironia e melancolia. Dan Bejar, fiel à sua figura enigmática, levou-nos por um percurso de atmosferas sonoras ricas e letras crípticas, oferecendo um dos momentos mais contemplativos do dia. Foi uma pausa necessária num cartaz que, de forma geral, puxava mais pelo corpo do que pela introspeção.
Squid, por outro lado, provaram novamente porque são uma das propostas mais entusiasmantes da nova vaga britânica. A fusão de krautrock, post-punk e experimentalismo matemático teve um efeito quase hipnótico sobre a plateia, com ritmos quebrados e dinâmicas imprevisíveis que desafiam a categorização. Tecnicamente irrepreensíveis, mantiveram a tensão e o interesse ao longo de todo o concerto — uma das atuações mais cerebralmente estimulantes do dia.
Num registo completamente diferente, os Parcels transformaram o recinto num verdadeiro palco de celebração. O seu groove ensolarado, entre o funk, o disco e o soft rock, serviu de banda sonora perfeita para o final de tarde. O ambiente foi de festa total, com o público a dançar, sorrir e aproveitar o calor suave do pôr do sol. Em contraste com a agressividade de outras atuações, os Parcels foram sinónimo de harmonia, leveza e comunhão.
Já Carolina Durante, com o seu rock de garagem direto e sincero, trouxeram uma boa dose de energia rebelde e, curiosamente, um cenário inesperado: um palco decorado como um escritório, com secretárias, mobiliário, e até uma máquina pronta a tirar café. A atuação destacou-se não só pela teatralidade mas também pelo entusiasmo contagiante dos muitos fãs espanhóis que se fizeram ouvir alto e bom som. Mesmo apresentando-se Diego Ibáñez (vocalista) de muletas em palco e a recuperar de lesão, a banda retribuiu com garra, num concerto que, se não foi o mais refinado, foi sem dúvida um dos mais vibrantes.
Também marcaram presença ao longo do dia nomes como Horsegirl, que trouxeram ao palco o seu indie rock de contornos lo-fi e juvenis, cheio de potencial e atitude, mesmo ainda em fase de afirmação artística. Kim Deal, lenda viva e presença incontornável na história do rock alternativo, brindou-nos com um set discreto mas carregado de simbolismo e reverência. E Wet Leg, já habituadas à atenção dos holofotes, mantiveram a sua postura descontraída e bem-humorada, entregando um concerto eficaz, ainda que sem o mesmo impacto de atuações passadas.
Com o fecho dos concertos no Parque da Cidade, o Primavera Sound Porto 2025 prepara agora a sua última dança. Este domingo, o foco desloca-se para a eletrónica, com atuações de Catarina Silva, HAAi, Mura Masa (DJ set) e Paul Kalkbrenner, que prometem transformar o recinto numa pista de dança a céu aberto. Após três dias intensos de música, suor e emoção, ainda há espaço para mais uma celebração — a que fecha com chave de ouro esta edição memorável do festival.





























































































































































































































































































































































