Há noites que pela sua intensidade interior, nos limpam parte das maleitas que vamos acumulando ao longo do tempo. Na 6ª feira passada foi uma dessas noites. Dois guitarristas irrepreensíveis, em registos tão distintos quanto profundos. Afonso Dorido regressou ao Sabotage Club desta vez com o seu projecto a solo (guitarrista da banda Indignu) Homem em Catarse. Já a caminho do seu terceiro trabalho editado, Afonso trouxe algumas músicas novas e outras do seu último álbum, “Viagem Interior”. O músico compositor barcelense acompanhou o escocês Gareth Dickson na actual digressão em Portugal, cuja organização teve o carimbo da Pinuts Music Agency. Gareth Dickson esteve a solo em Portugal em 2017 (Festival Gaia Todo Um Mundo) e tem colaborado com artistas como Juana Molina e Vasthi Bunyan. Com nove trabalhos editados desde 2005, Gareth Dickson esteve por cá para uma série de quatro concertos e um show-case na Fnac de Santa Catarina.

“Viagem Interior” é um álbum extenso que percorre todo o interior do país, e foi com “Beja Mulata” que Afonso iniciou a catarse da noite. Com o recurso a uns quantos pedais (4?) e os dedos a percorrerem as cordas, as quais intercalaram ora em embalos mais clássicos, ora em riffs mais progressistas que nos faziam levitar e caminhar pela imensidão do cosmos! “Lembro-me de ti mesmo quando não me lembro”, um tema novo que está editado no mais recente LP “Ao Vivo Na Porta 253” (que estavam à venda) e “Aokigahara (Mar de Árvores)”. O tema “Tomar” foi inspirado em Umberto Eco e no “Eco do Mundo”. “Alqueva Beat” um tema com muitos sons sobrepostos, em que a evidência marcante da guitarra ficou um pouco esbatida. Ainda “Teremos Sempre Paris” e, para remate final “Guarda (me)”, uma canção avassaladora que fez disparar aqueles sentidos mais entorpecidos.

Sem grandes demoras, Gareth Dickson substituiu Afonso e fez-nos mergulhar num mar de emoções intimistas carregadas de uma névoa cinzenta e bela. Gareth canta a respirar, uma estrofe é um sopro arrastado numa espécie de murmúrio. Quase sempre com os olhos fechados, fazia dançar as falanges dos dedos com uma subtileza quase hipnótica. Sempre com um humor genuíno, contou pequenos episódios entre as músicas num sotaque escocês carregado (o próprio brincou com isso). Dentro de um negrume introspectivo que caracteriza o seu reportório (“Spruce Goose” 2005), Gareth é um músico que desafia as sonoridades electrónicas e experimentalistas. Depois de um alinhamento suficientemente profundo, Gareth diz com um sorriso que a música com que iria terminar era para dançar.

Uma noite de uma tranquilidade introspectiva, em que até os mais distraídos que estavam no balcão conseguiram respeitar.

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