Os Shima são uma banda de Lisboa formada por David Spínola na guitarra, Diogo Valsassina no baixo e Pedro Romão na bateria. O seu disco de estreia, Vol. 01, saiu em 2017, mas o seu sucessor já se encontra numa fase adiantada. No próximo dia 1 de março tocam no Bar Popular, em Alvalade, ainda com o primeiro disco a servir de base, mas onde poderão acontecer surpresas. Fomos até à sua sala de ensaios, nos Nirvana Studios, falar do projeto, do seu passado, presente e futuro.

Música em DX (MDX) – Como nasceram os Shima?

David Spínola – Shima surgiram, basicamente, comigo a fazer música em casa para mim. Música que eu quisesse tocar e que eu gostasse. Basicamente, gravei várias músicas para chegar ao meu estilo, ao meu som. Tinha várias influências e queria fazer uma música para mim e que eu gostasse de ouvir e de tocar. Depois de umas gravações que eu fiz, voltei a estar com o Diogo e mostrei-lhe as músicas e surgiu a ideia de fazer uma banda com essas músicas. A minha ideia no início era só fazer umas músicas e meter online para os meus amigos ouvirem. Depois voltámos a falar com o Pedro, já tínhamos tocado antes os três, o Pedro para a bateria, o Diogo para o baixo, eu para a guitarra e começámos a tocar e as coisas fluíram bem. Nós filtrámos as músicas para cinco, que fazem parte do primeiro álbum.

20190221 - Entrevista - Shima @ Nirvana Studios

MDX – Como funciona o vosso processo de composição?

Diogo Valsassina – O processo de composição é muito simples, o David faz. A parte gira aqui… é que o David tem sempre uma ideia inicial e quando nos aparece com as músicas elas já estão praticamente completas. Na verdade, eu não sou baixista, o meu instrumento principal não é o baixo, eu toco guitarra mais do que baixo. Eu e o David já nos conhecemos há 25 300 anos e tocamos juntos há muito tempo e o David sabe que eu toco baixo porque na outra coisa que tivemos eu tocava baixo. Ele aparece com as músicas praticamente feitas. Eu não sou capaz de compor isto, eu não sou o gajo do psicadélico e do stoner, gosto de ouvir, mas gosto de música mais pesada.

MDX – David Spínola, já aconteceu trazeres uma música e depois perderes o controlo, fruto das influências deles, e ela seguir um caminho totalmente diferente?

David Spínola – Eu quando faço as músicas em casa é só uma versão muito crua, não tem muito arranjo, para nós os três ouvirmos. Mesmo os efeitos… O Diogo para além de tocar baixo, faz também muitas ambiências. As músicas ganham outra dinâmica.

Diogo Valsassina – Mas ele basicamente traz a estrutura toda.

MDX – Sendo o Diogo também guitarrista, não tentas influenciar o som da guitarra?

Diogo Valsassina – Não. Shima vive muito desta simbiose muito fixe entre a guitarra e o baixo, na medida em que há partes em que tocamos os dois a mesma coisa, mas depois como não temos voz quem canta é a guitarra com os solos. Eu não me meto nisso porque não sei solar na guitarra, é mais riffs e coisas do género. Esta coisa do baixo e da bateria fazerem a cama para a guitarra poder brilhar é o que torna isto numa cena diferente e interessante. Não me meto na guitarra.

David Spínola – Mas todos têm a sua parte. A bateria tem a sua parte. Está sempre por cima do baixo, a dar a linha. A guitarra vai fazendo as melodias por cima daquilo.

(clicar na imagem para ouvir o álbum Vol.01)

MDX – Onde foram buscar o nome da banda e das canções?

David Spínola – O nome da banda veio mais tarde do que alguns temas. Vem de eu andar a ver umas coisas sobre as tribos dos índios dos Estados Unidos e andar a ver o alfabeto deles e as palavras e os significados, mas sem andar à procura de um nome para a banda. Andava a ver aquilo, mesmo por me interessar pela cultura e pelos deuses, e basicamente depois vi Shima, que queria dizer criador, Deus, mas com uma referência feminina, mãe também. Sempre como algo que gera a vida. Quando eu vi, pensei que era aquele o nome, é isto que vai criar as músicas. Depois, as músicas, a “Le Coup de Grâce” foi feita para ser mais direta, embora tenha outras partes, é um golpe de misericórdia.

Diogo Valsassina – São documentários que ele vê. A nossa última música do álbum chama-se “Antikythera”, ele viu um documentário sobre o mecanismo antikythera e chegou cá e diz que a música chama-se “Antikythera” e eu porquê?, e ele diz que viu um documentário sobre o mecanismo e o mecanismo é muito fixe… e esta chama-se “Apsis”, e o que é apsis?, porque é o ponto mais distante do que estás…

David Spínola – Eu adoro espaço. Coisas relativamente ao universo e a civilizações ancestrais.

MDX – O facto de as vossas músicas serem instrumentais também vos dá essa liberdade em relação aos nomes das canções, como não há uma letra?

Diogo Valsassina – As pessoas pensam aquilo que quiserem. Não precisamos de dizer a nada. Se soar a espaço, a deserto e a mar, fixe.

MDX – Quando começaram a trabalhar em conjunto com este projeto, havia algumas influências em comum em que se tenham baseado?

David Spínola – Nós gostamos de bandas em comum, mas para este projeto, nós os três não ouvimos a mesma coisa. Acho que até temos os Tool, nós os três gostamos de Tool. Talvez essa seja a única.

Diogo Valsassina – Nós podemos não ter pontos em comum no que toca a influências para Shima, mas o que eu acho interessante é que nós apesar de termos estilos diferentes de tocar, quando nós os três tocamos as coisas funcionam muito bem, podia não acontecer. Quando ele me mostrou isto e me começa a falar do stoner e do psicadélico, eu não conhecia nada. Não é o tipo de música que eu oiço, era, e continuo a ser, um ignorante no que toca a esse tipo de música. Influências para aqui… se soar bem, toca.

David Spínola – A base do nosso som é rock e nós os três percebemos bem o rock, quer seja mais psicadélico, mais progressivo, mais pesado.

20190221 - Entrevista - Shima @ Nirvana Studios

MDX – O projeto resulta de vocês os três, se houvesse uma mudança na formação isso iria alterar o som da banda?

Pedro Romão – Essa coesão também existe porque nós já tínhamos tocado antes num outro projeto, completamente diferente deste. Mais pesado, mais punk, com letra em que o David cantava em português.

Diogo Valsassina – E lindamente.

David Spínola – Gritava, não cantava.

Pedro Romão – O nome da banda era Tropas da Sombra. Ensaiámos durante bastante tempo e estávamos sempre à procura de baixista, que eles os dois tocavam guitarra, que nunca encontrámos e também nunca atuámos. Esta química vem desde aí, há dez anos que nos juntámos e tocámos pela primeira vez.

MDX – Em que estado se encontra o vosso segundo álbum? Terá como título Vol. 02?

Diogo Valsassina – Feito. As músicas já existem todas.

David Spínola – O álbum está composto 100%. Será o Vol. 02, tem todo o artwork desenhado e feito. É também composto por cinco malhas. Neste momento já estamos a ensaiar praticamente três músicas.

Diogo Valsassina – Como nós quando lançámos o álbum não conseguimos marcar logo concertos, ou seja, o álbum ainda tem muita vida, ainda há muito sítio para nós o mostrarmos e não há essa pressa. Quando sentirmos que está a chegar ao fim de vida o Vol. 01, aí começa-se a tratar de gravar o Vol. 02.

MDX – Em relação a este local onde estamos (Nirvana Studios), como vieram aqui parar e o que têm a dizer sobre ele?

Diogo Valsassina – Nós viemos aqui parar porque eu vim tirar fotografias para a Caras. Nós já todos conhecíamos os Nirvana Studios. Estávamos a ensaiar num sítio, que por acaso era muito engraçado, onde foi o antigo Passerelle 2, ao pé do Jardim Constantino. Estávamos enfiados lá em baixo nas catacumbas, podíamos fazer o barulho que quiséssemos até às horas que quiséssemos, mas aquilo não era uma sala de ensaios, não era um sítio seguro. Nós já tínhamos falado de salas e eu por acaso vim cá e quando estava aqui perguntei se tinham salas disponíveis e eles tinham duas e eu liguei logo ao David, queres vir cá amanhã ver a sala?, e viemos cá e escolhemos esta sala.

Pedro Romão – No dia seguinte estava o David a acartar as coisas.

David Spínola – Foi para termos um sítio para ensaiar à vontade, até às horas que quiséssemos, as horas que quiséssemos, onde pudéssemos deixar as coisas.

20190221 - Entrevista - Shima @ Nirvana Studios

MDX – Como veem a forma como o Roger Waters aborda as questões políticas?

Pedro Romão – Eu vi uma das datas da última vez. Preferia ter visto os Pink Floyd, mas não sendo possível, fui ver Roger Waters e gostei bastante. Em alguns concertos é mais evidente, porque pode estar a passar-se alguma situação, como se está a passar agora na Venezuela. Na altura ele foi muito ativo em falar sempre do Donald Trump e de uma série de outras situações. Eu acho bem que pessoas que tenham uma voz que consiga chegar a mais pessoas, que a usem para algo com significado.

Diogo Valsassina – A música tem sempre supostamente uma mensagem e a música dele para além da mensagem que tem, aproveita, como o Pedro está a dizer, o palco literalmente para dizer aquilo que acha e aquilo que sente e ele como artista, aliás, todos os artistas têm o direito de se expressar na forma que acham mais correta. Concordando ou não com aquilo em que ele acredita, eu neste caso concordo com a maior parte das coisas que ele diz. O Roger Waters anda aqui há muito tempo e não me faz confusão nenhuma que ele suba para cima de um palco e diga aquilo que lhe apetece, porque já tem esse direito. As pessoas que gostam da música dele têm de saber lidar com isso.

MDX – Em relação ao vosso concerto do dia 1 de março no Popular em Alvalade, o que podem avançar já sobre ele?

David Spínola – Vai ser um bom concerto, cheio de rock psicadélico e progressivo. Vamos tocar provavelmente todas as malhas do nosso álbum Vol. 01, talvez a “Iguana”, que estreou no Sabotage, e vamos ver…

Os Shima tocam no próximo dia 1 de março no Bar Popular, em Alvalade (Lisboa).

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