Qualquer mudança assusta. Não pelo medo de mudar mas sim pelo medo das consequências da mudança. O duo Galo Cant’Às Duas decidiu arriscar numa mudança grande e provou-nos na passada sexta-feira, dia 8 de Fevereiro, que o risco tem de ser vivido e nos ajuda a crescer.

Confesso que escutar a mudança em estúdio não me convenceu. Mas é sempre difícil uma banda conseguir meter tudo o que é num pequeno disco. É por isso que os concertos nos alimentam e existem para mostrar tudo o que não alcançamos com uns phones. O Sabotage Rock Club foi o palco escolhido para a apresentação do Cabo da Boa Esperança, lançado no passado dia 18 de Janeiro, e a viagem por este Cabo não poderia ser mais intensa.

20190208 - Concerto - Galo Cant'Às Duas @ Sabotage Club

Quem os acompanha desde o seu nascimento recorda-se da intensidade e alma que colocam nos instrumentos e em cada nota que nos alcança. Naquela sexta-feira, a maquinaria não afastou essa intensidade e trouxe cerca de uma hora de paisagens densas a cada passo que davam e dávamos. O concerto começou com uma intro forte e perturbadora que deu início à apresentação do álbum por ordem e na íntegra. Os sintetizadores e as distorções conexas servem para nos criar vontade de nos abanarmos mas, principalmente para nos abraçarem numa ambiência densa e bastante carregada de uma força sobrenatural que se sentia a cada grave que nos entrava pelos ouvidos. As duas vozes em simultâneo trazem um contorno mais bem definido, acentuado e apurado e a bateria faz com que o coração palpite descontrolado e sem ritmo certo, criando arritmias e ansiedades. A montanha russa de “Processo Entre Viagens” veio romper a sequência do Cabo da Boa Esperança e fazer-nos deitar a cabeça para trás e balouçar num instrumental com muitas cordas e melodias díspares e, simultaneamente, harmoniosas, tendo como resultado efectivo uma transição entre viagens.

Retomam o alinhamento do disco com o single “Sobre Um Tanto Medo” que tão bem soou e nos aconchegou. Há uma aura mística de sensações e sentimentos que os liga à terra e os faz a eles e a nós despertar as forças da natureza.
A viagem pelo Cabo da Boa Esperança foi demasiado curta e rápida, mas densa e intensa, tendo provado que desde que haja esperança e medo, somos sempre capazes.

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