Muito há a dizer acerca da noite de sábado, 17 de Março de 2018 no Sabotage Club. Primeiro, mais uma noite fria de Inverno e nem sequer das piores da semana. Mas fiquei com a sensação de que mesmo que uma nova tempestade com nome de mulher viesse em força total, o resultado seria o mesmo, e a casa estaria cheia. Para ver um furacão chamado Lydia? Sem dúvida que sim. Mas não resisto em começar por falar dos heróis da noite: Putan Club. Um sopro de ar fresco e catalisadores, quanto a mim, do sucesso que foi essa noite.

Antes e depois dos concertos tivemos um set de música a cargo de David Polido, antigo DJ residente do Sabotage Club que assim fazia uma das suas actuações em jeito de regresso à capital e à casa onde sempre foi feliz, complemento ideal para uma noite que se adivinhava louca e inesperada.

O cartaz tão apelativo para um sábado à noite, encheu a sala e nem tinha eu duvidas disso. Coloquei no entanto algumas reservas ao que iríamos assistir no que diz respeito à cabeça de cartaz, a própria Lydia Lunch, sendo que as minhas dúvidas não foram de todo infundadas. Para além do óbvio reconhecimento de que metade dos artistas com quem gravou ou colaborou foram realmente responsáveis em grande parte pela construção do mito, e que a artista ganhou o seu apelido reza a lenda que diz que foi “por roubar o almoço de outros músicos…”, são as canções que gravou com gente ilustre como Rowland S. Howard e Nick Cave, apenas para referir alguns, que realmente me fizeram sair de casa. Já imaginaram roubarem o almoço ao Nick Cave? Brincadeira. São coisas que fazem parte do imaginário do rock, dos contos e dos mitos absurdos, mas antes de sair de casa, fiz o meu trabalho e informei-me sobre o que anda Lydia Lunch a fazer nos últimos anos. Dito isto, vou à página da senhora, página de facebook, entenda-se, porque hoje não se arranja informação tão bem actualizada, e em sites nem vale a pena perder muito tempo.

Ora portanto, shows com não sei quem, são muitos e variados e nesse sábado ao que me pareceu, seria um spoken word, notei ainda uns concertos com banda completa no ano passado ou há uns dois anos e ainda me detenho durante meia hora a ver um vídeo de Lydia Lunch com Weasel Walter a interpretarem ao vivo canções de Teenage Jesus and the Jerks, algures na internet. Também parece que será Weaser Walter o companheiro nesta noite de Lydia no Sabotage. Ah, esqueci-me de referir que os Teenage Jesus and the Jerks eram uma banda do movimento norte-americano no wave no final dos anos setenta, movimento musical de alguma expressão na sua génese um pouco contra a new wave punk emergente, ou, se preferirem, contra músicos que sabiam tocar acordes e faziam arranjos convencionais segundo as modas da época. Duraram muito pouco tempo estes Jerks e é possível que não tenham sido muito marcantes ou não tanto quanto se quis fazer crer. Por exemplo, os Sonic Youth também gostavam desse movimento que foi o no wave. Enfim, para mim basta tomar consciência de que nunca tive o prazer de a ver e que lá estaria para a receber de coração aberto indo já preparado e mentalizado que o espectáculo iria funcionar um pouco como um spoken word musicado, não sabia exactamente com que instrumentos, mas até presumi que fosse pela bateria de Weaser Walter. Não me enganei.

Antes, tivemos Putan Club. E agora vamos falar do momento mesmo bom da noite: casa cheia a arrebentar pelas costuras, vamos a ver, eu não sei quem é este casal para além da óbvia atitude art rock, também sei que no passado recente tocaram com a própria Lydia Lunch como banda e não só em primeiras partes mas partilhando também o mesmo palco, portanto e possivelmente, teriam por vezes visto o almoço desaparecer. Nada de estranho neste mundo sónico ademais com muitas colaborações. Agora, imaginem o cenário: o guitarrista não está no palco, toca e canta numa extremidade da sala à direita de quem entra, mesmo ao lado da mesa de som e está rodeado pelo público, na outra extremidade, também rodeada pelo público mas do lado esquerdo, fora do palco ou quase à beira dele encontramos a baixista e também cantora deste projecto. Enfim, uma surpresa pela energia imediata que transmitem.

Isto tudo até poderia parecer estranho, mas com a sala tão cheia parecia efectivamente que estávamos a assistir a algo único. As pessoas dançavam de um modo tribal, não como se estivessem numa rave mas por vezes, os ritmos samplados eram quase como isso. Só não me perguntem bem de qual rave, porque eu não frequento esses sítios. As guitarradas (desculpem o termo) que o frontman sacava à sua telecaster, o baixo que a frontwoman tocou ao longo de todo o concerto, os corpos a ondularem e o público a ouvir, rendido, as vozes roucas e endiabradas dos dois, em francês e a curtir (muito). Há uma característica quase diabólica na música dos Putan Club. E eis que terminam. Anunciam que a seguir é a vez de uma convidada especial e nas palavras do vocalista “a seguir é a vez de uma convidada especial: Lydia Lunch!”.

E em resumo, nota dez para estes Putan Club. Não me perguntem por canções, não é música para eu ouvir em casa. Mas da próxima vez que vierem cá tocar o mais provável é que eu queira mais. Especialmente se for a um sábado à noite. Esta banda é uma festa, fazem a festa e foram pelo menos nesta noite geniais na minha opinião.

Mas esperem lá… rewind p.f. – convidada especial? Poderia já acabar por aqui esta crónica. E em resumo, a noite foi mesmo isto: um concerto de Putan Club e de seguida, um curto spoken word de Lydia Lunch. Concerto, sessão de Spoken word… quanto a mim, vamos dizer sessão de spoken word (acrescentada com umas folhas de papel à mão a servirem de cábula). Diz Lydia Lunch: “Sometimes I feel I´m the laziest bitch”… são coisas soltas que vou ouvindo enquanto no balcão do bar um amigo me diz o óbvio, mas que por vezes é tão óbvio que nos escapa: “Ela tem um registo provocatório improvisado como o Jim Morrisson”. E é verdade, mas… quem é que queria ouvir o Jim mais de meia hora a exprimir os seus desabafos poéticos enquanto um baterista ia desenhando uns passeios pela tarola e pelos timbalões? Pois o problema é esse. A realidade é que milhões queriam e haviam de querer, que importam The Doors e as canções? Especialmente agora que ele morreu. Agora, quero dizer… na realidade já passaram umas valentes décadas e esta coisa toda já devia estar ultrapassada. Esta coisa do devaneio artístico simplesmente por ser artístico: “I´m still searching for the drug” – mais frases que ficam e que são repetidas por Lydia Lunch. Mas não, não durou muito e até fiquei um pouco surpreso quando ela ao fim de quarenta minutos deu por finalizada a tortura psicológica que me estava a infligir. Tortura para mim, convenhamos, porque o Sabotage todo ouviu os seus versos as suas, sei lá, divagações poéticas? Não foi bem um lunch, foi mais um punch, trocadilho óbvio com direitos de autor que não são meus.

Penso que quase toda a gente saiu satisfeita, afinal são poucas as noites assim que não fazem parte do sistema e que são verdadeiramente alternativas. Um bom concerto esquece-se, bizarrias assim, já não. Desagradou-me a maneira complacente como tomou o palco recitou as coisas e disse adeus. Mas também eu já sabia ao que ia. E se calhar até repito a dose, dada a oportunidade. Suspeito que tenho uma costela masoquista e não sabia. Abençoados Putan Club, nem por isso tão abençoada Lydia, se calhar és mesmo “preguiçosa” como dizes. No entanto a ti tudo se perdoa porque és um mito, como o Jim, o Rei Lagarto esse deus vociferador de opiniões e pensamentos que também ainda andava à procura de algo. “Still searching”… Até à próxima Lydia e por favor traz canções.

Texto – Pedro Corte Real
Fotografia – Ana Pereira