Os Dapunksportif escolheram o Sabotage Club – catedral do rock de Lisboa e por isso a escolha mais óbvia – para procederem ao lançamento oficial de Soundz of Squeeze’o’Phrenia, o seu quarto disco de originais. Seis, longos, anos depois de Fast Changing World, a banda liderada por João Guincho e Paulo Franco decidiu regressar ao projeto por si criado, já lá vão quase 14 anos. Para esta nova aventura, convidaram o baterista Fred Ferreira – que participa, ou participou, em projetos musicais tão distintos como Orelha Negra, Buraka Som Sistema, 5-30 ou Banda do Mar – para a eles se juntar e assim acrescentar ainda mais força e densidade à sonoridade da banda.

20180218 - Concerto - Dapunksportif - Apresentação de Soundz of Squeeze’o’Phrenia @ Sabotage Club

No sábado passado, dia 17 de fevereiro, quando entrámos no Sabotage Club, desde logo nos deparámos com todas aquelas que são as características típicas de um clube de rock com música ao vivo. Paredes “vestidas” de negro, com poucos ou nenhuns artigos decorativos que pudessem distrair do que é importante, e toda uma identidade centrada na música que sai das colunas de som, ora proveniente de um DJ ora de uma banda que esteja em palco a tocar com recurso a baterias acústicas e a amplificadores de forte calibre.

Numa altura em que se questiona a saúde de um género musical tão marcante como o rock, o Sabotage Club ruma sem dúvida contra a maré, sendo dos poucos exemplos de clubes dedicados a este género musical existentes tanto em Lisboa como no resto do país. Outros estilos musicais têm vindo a conquistar uma maior relevância, estando ainda por perceber, e por provar, se isso corresponde de facto à realidade ou se será algo empolado por quem gosta de “mandar” nos gostos alheios.

20180218 - Concerto - Dapunksportif - Apresentação de Soundz of Squeeze’o’Phrenia @ Sabotage Club

Neste sábado à noite, pudemos assistir a algo que sem dúvida contraria por completo todos os atestados de óbito de que o rock tem sido alvo. Ao convite lançado pelos Dapunksportif, para que aqueles que gostem de rock puro e duro viessem até ao Sabotage Club para com eles comemorar o lançamento de mais um longa-duração, os rockeiros de Lisboa, e não só, responderam de forma massiva, enchendo por completo o clube do Cais do Sodré. Por vezes, neste tipo de eventos festivos, muitos são aqueles que só lá vão por uma questão de amizade ou de ligação familiar com algum dos membros da banda, mas neste caso, independentemente de haver quem tivesse esse tipo de relação para com algum deles, a verdade é que durante a mais de uma hora de concerto, os presentes revelaram-se como estando totalmente entrosados e em sintonia com o que se passava e com o som potente que saia do palco. Havia até quem, mais próximo da banda, levasse essa devoção mais longe, encarando este concerto como algo que já há muito desejavam. Acima de tudo, havia um interesse genuíno dos presentes em relação à música dos Dapunksportif, e não é ao acaso que a genuidade é sem dúvida uma das características mais presentes em todo o universo rock.

Era quase meia-noite quando os quatro membros – João Guincho (guitarra), Paulo Franco (voz e guitarra), João Leitão (baixo) e Fred Ferreira (Bateria) – da banda oriunda de Peniche, subiram ao palco para apresentar um misto de temas mais antigos com alguns que compõem o disco entretanto lançado. Desde logo se percebeu que iríamos experienciar algo do mais puro e genuíno rock, sem qualquer espécie de disfarce ou de artifícios. Quatro músicos em palco, duas guitarras elétricas, um baixo e uma bateria. Fred Ferreira revela-se como sendo um baterista dos mais completos que existem por aí, tanto se integra da melhor forma em projectos que pouco, ou nada, têm a ver com o rock, como brilha ao mais alto nível tocando em conjunto com os Dapunksportif, no qual tem que fazer uso de toda a força que tem dentro de si e atirá-la de encontro às peles e aos pratos. E quem disse que o rock tem de ser tocado com uma daquelas baterias enormes, com vários timbalões e pratos, Fred Ferreira demonstrou que só com um bombo, um timbalão, um timbalão de chão, um pratos-de-choque, um crash e um ride consegue encher de força e de ritmo tudo o que é música dos Dapunksportif.

20180218 - Concerto - Dapunksportif - Apresentação de Soundz of Squeeze’o’Phrenia @ Sabotage Club

Olhando para os quatro membros e para o que foi o concerto, fica por demais evidente que tudo aquilo é do mais rock que possa haver, desde a música que tocam, até mesmo às vestimentas – a t-shirt de Jimi Hendrix usada por Paulo Franco não estaria ali por acaso – aos gestos, aos movimentos, enfim, à atitude… e não há quem diga que o rock é, acima de tudo, uma questão de atitude?! E é também de trabalho físico intenso, o rock sai-lhes do pelo e quando a atuação termina, sobressaindo a camisola transpirada de Fred, mais parece que estamos a ver quatro trabalhadores de uma qualquer fábrica a sair da mesma depois de mais um dia de trabalho duro e intenso. Tocar rock não é como quem está em cima de um palco atrás de um computador ou de uma mesa de mistura, é sim dar o corpo ao manifesto, perdendo calorias na mesma proporção de decibéis que saem dos potentes amplificadores.

Ouvindo o concerto deste sábado, fica-se com a ideia de que não foi objetivo da banda fazer com o novo trabalho um corte profundo em relação ao seu passado. Soundz of Squeeze’o’Phrenia segue a mesma linha dos seus antecessores, sendo fortemente marcado por potentes riffs de guitarra e ritmos musculados. Mas realça-se também o facto de ter ficado por demais evidente que estes senhores não nasceram ontem para a música, revelando uma enorme experiência e conhecimento de causa, continuando, e isso é o mais importante, a denotar um enorme prazer em fazer aquilo que fazem.

20180218 - Concerto - Dapunksportif - Apresentação de Soundz of Squeeze’o’Phrenia @ Sabotage Club

“Friends (come and go)” foi dedicada ao amigo da banda Zé Pedro – falecido no final de 2017 e que desde sempre, e numa atitude nada egoísta, fez tudo o que pôde pelo rock feito em Portugal – e “Ghost Town”, o segundo single do novo disco, foi tocada, a pedido do vocalista, com a ajuda da bola de espelhos. No final, tivemos primeiro um encore “fingido” e depois um a sério, em que o público praticamente exigiu a interpretação de mais um tema.

Os muitos que encheram o Sabotage Club não saíram desiludidos no final do concerto, os Dapunksportif foram exatamente aquilo que se esperava deles, oferecendo rock e dando tudo o que têm em cima do palco. Mas o mais importante é referir que os que lá marcaram presença nesta noite fria de fevereiro, saíram com a ideia clara de que o rock continua bem vivo e com uma enorme vitalidade. Mas, como em tudo na vida, também ele tem que ser defendido e acarinhado por todos aqueles que por ele foram fortemente marcados.

Os Dapunksportif seguem agora em digressão pelo país, sendo a sua próxima atuação no dia 24 deste mês, no Danau Baleal Bar, em Peniche, terra natal da banda.

Texto – João Catarino
Fotografia – Luis Sousa