O terceiro dia do Jameson Urban Routes trouxe consigo duas bandas cuja língua mãe é o português: os portugueses You Can’t Win Charlie Brown e os brasileiros O Terno. Talvez por isso, complementando a simpatia natural dos dois projectos, se fizesse sentir um calor e familiaridade de quem anseia matar saudades de amigos queridos. A sala esgotou e os convidados justificaram com excelência a aclamação recebida.

Passava pouco das 21h30 quando os You Can’t Win Charlie Brown subiram ao palco. O Musicbox, e o próprio festival, é-lhes familiar. Já haviam tocado no festival quando apresentaram o seu primeiro EP e, para os fãs mais antigos, muitos se hão-de lembrar da temporada de três dias que a banda fez naquele palco, há mais de três anos atrás. Uma coisa é certa, do EP ao terceiro disco de longa-duração o percurso tem sido longo, determinado e artisticamente admirável. A estética tem evoluído e os espaços sonoros trilhados têm sido tão diversos quanto admiráveis. O que se manterá sempre, enquanto sexteto em palco, é o quão pequeno o palco do Musicbox parece para uma banda que, para além da quantidade considerável de instrumentos que usa, mal começa a tocar cria universos quase palpáveis.

Nesta Quinta-feira tivemos então o prazer de ouvir boa parte de Marrow, o mais recente trabalho da banda, com outros temas anteriores pelo meio. Na bateria faltava o Tomás, que se lesionou poucos dias antes, mas o seu substituto, o João Pinheiro dos Diabo na Cruz, que teve apenas dois dias para ensaiar, esteve perfeitamente à altura. O concerto começou com o já familiar tema, com vídeo a fazer lembrar os primeiros jogos de computador, “Above the Wall”, seguido de “Joined by the Head”. Também tivemos “After December”, seguido de “Fall For You”, numa ligação já tão familiar do disco Diffraction/Refraction. Mais tarde revisitaríamos novamente este trabalho com “Natural Habitat.” A surpresa boa, para mim, veio quando as primeiras notas do piano de “An Ending”, após uma “Mute” arrepiante, se fizeram ecoar. Confesso, é dos meus temas preferidos da banda e ao vivo funciona de uma maneira bonita e poderosa. Depois da comoção entrámos no trio final do concerto com um ritmo dançante. A sequência “In the Light there is no Sun”, seguida de “If I know You Like You Know I Do”, terminando com “Pro Procrastinator” fechou um concerto em que a banda portuguesa mostrou, mais uma vez, o porquê de ser uma das mais aclamadas na nova música portuguesa. Talento, simpatia e empatia são características que emanam naturalmente, tornando-se muito fácil criar uma ligação com eles. Resumindo, foi bonita a festa!

20171026 - You Can't Win Charlie Brown @ Musicbox Lisboa

fotos na galeria Jameson Urban Routes’17 Dia 26 You Can’t Win, Charlie Brown

Seguiu-se uma pausa, talvez um pouco mais longa do que o previsto – afinal tirar todo aquele material de palco não é tão fácil quanto possa parecer. Com uma maior simplicidade instrumental – apenas guitarra, baixo e bateria – O Terno, o power trio brasileiro, subiu ao palco. O impacto foi imediato: vestuário característico e um vocalista/guitarrista bem mais alto que o comum mortal, pelo menos em Portugal.

O reconhecimento do público foi logo maior do que estava à espera, talvez por ter sido o meu primeiro contacto com a banda. O concerto começou de forma animada e não foram necessárias mais de duas ou três músicas para descobrirmos que boa parte do público era “irmão” da banda, isto é, brasileiro. Fervilhava no ar um anseio tanto de descoberta como de concretização. Muitos sabiam as letras de uma ponta à outra, outros tantos exigiam temas específicos. Uma coisa é certa, foi dançar do início ao fim. Entre um pop-rock com letras de chegar ao coração e um psicadelismo a servir como condutor à catarse, o vocalista mostrou bem como é que se domina a guitarra e o público, sempre de sorriso no rosto, sempre com uma energia invejável e um carisma muito próprio.

As interações com o público tinham sempre algum tipo de humor, principalmente pelos diferentes significados que uma mesma palavra pode ter. Para quem não sabia, ficou a saber que “porreiro” no Brasil tem um significado diferente de em Portugal e que “camiseta” em Portugal também significa algo diferente de no Brasil! Ou seja, gargalhadas, bom humor, alguma euforia e coros audíveis pontuaram uma noite que brilhou não só pela qualidade performativa como pela doçura dos seus intervenientes. Estando em destaque o último trabalho da banda – Melhor do Que Parece – não faltaram êxitos como o tema homónimo, “Culpa”, “Volta”, “Não Espero Mais”, “Minas Gerais”, entre outros, e ainda deu para saudar o cartão de visita do disco anterior “Ai Ai, Como Eu Me iludo”. Terminado o alinhamento, o público não se fez de rogado e pedia mais, mas as restrições dos horários, dado que havia mais projectos para tocar a seguir, não o permitiram. Ficou prometido o encontro mais tarde, na “lojinha” da banda, para umas compras e dois dedos de conversa. Foi uma bela noite.

20171026 - O Terno @ Musicbox Lisboa

fotos na galeria Jameson Urban Routes’17 Dia 26 O Terno

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Texto – Sofia Teixeira
Fotografia – Luis Sousa
Evento – Jameson Urban Routes