Lavoisier “É Teu”, uma necessidade interior desinibida

Na contra corrente da imigração, Patrícia Relvas e Roberto Afonso deixaram Berlim e retornaram a Portugal com uma musculatura firme. Uma técnica vocal extraordinariamente lusitana, com a base elástica do fado e a excentricidade recôndita da música ligeira. Um pacto de sangue entre a composição instrumental e a voz que se solta num jazz comprometido com uma identidade portuguesa. Compromisso melódico que desestruturar os cânones da música. Música experimental, minimalista, tecida numa pauta de folha de cálculo milimetricamente anotada.

“É Teu” é o novo trabalho discográfico dos Lavoisier. Esse foi o mote para um par de horas de palavras sinceras. Confidência, deles e nossa, um acumular de cumplicidades criadas num momento empático, em que deixámos de lado a inibição e fomos quem somos. No próximo sábado dia 30 de Setembro, voltaremos a estar juntos no Festival Silêncio no Cais Do Sodré.

MDX – Como se definem os Lavoisier?

LV – Um projecto que ambiciona um espírito critico, mais do que caber num “estilo”. O nosso percurso passa pela escola de artes, pela ESAD. Nas diferentes áreas das artes definimos o caminho de Lavoisier, que não é a parte académica da música. No fundo foi a necessidade interior que todos têm, mas que a inibem. Essa necessidade de estar ligado ao ambiente artístico podia ser teatro ou pintura. Influências que são partilhadas, tendo a guitarra como referência. Na procura de uma definição, pode-se perder o nível artístico. O Projecto 665 foi um conjunto de temas da música tradicional portuguesa. No fundo quisemos arrumar o capítulo de Berlim. Não foi o reinventar a música tradicional, mas sim momentos em que tens alguma coisa para dizer. Se daqui a uns anos houver um estilo Lavoisier, óptimo (risos)!

20170920 - Entrevista - Lavoisier @ Fábrica MUSA

MDX – O Joaquim Quadros escreveu sobre os Lavoisier “(…) terapia musical, para tratar uma crise de identidade lusitana.”

LV Sim foi por ai. Fomos para Berlim com uma mochila às costas. Acho que foi aí que nos apercebemos dessa crise de identidade. Fizemos um primeiro trabalho que foi o tributo a Nina Simone e, essa saudade fez com que fossemos ouvir autores portugueses, como Fernando Lopes-Graça e Giacometti. Por exemplo conhecíamos muito mais música brasileira, tropicalismo, bossa nova, etc. Foi um sentimento de totalidade, de utilidade artística. Em Berlim cantámos inicialmente em inglês, mas o sentimento português levou-nos a começar a cantar em português. O tropicalismo deu-nos uma função de “canibalismo cultural”, como o assumir uma coisa que tenha valor por si própria. (…) não tivemos preconceitos à música que se fazia e não deixámos de ser portugueses. Como a MPB nos primeiros festivais da música popular brasileira, em que o Caetano aparece com uma camisa laranja radical! Quisemos tocar músicas tradicionais com uma guitarra eléctrica, não tivemos que aprender a tocar adufe (risos). Explorámos muito a riqueza da música tradicional, identificámo-nos com o “Povo que canta” do Giacometti. Toda a parte dramatúrgica, no contacto com essa cultura. Se calhar toda esta redescoberta e interesse, não tinha surgido se não tivéssemos ido para Berlim.

MDX – “É Teu” conta uma história ou é um conjunto de fracções de histórias inacabadas?

LV – É um conjunto de histórias inacabadas, sim. Este álbum tem músicas de uma elite temporal, 2012,2014 e 2016, são 4 anos de músicas. Músicas que não ficaram no primeiro disco e que agora estão neste. Música tradicional e poesia, como José Mário Branco. O take também é directo, quisemos ser mais apurados, ter um ritmo diferente ao vivo. Os arranjos foram feitos na mesma altura e têm alguma coisa em comum, a capacidade técnica. O “Laranja” surge em Berlim em 2012 e a “Fauna” nas Azenhas do Mar em 2013, a olhar para o mar (risos). Queremos que haja diferença entre o álbum e o que tocamos ao vivo.

20170920 - Entrevista - Lavoisier @ Fábrica MUSA

MDX – Há uma preparação para tocá-lo ao vivo?

LV – Os temas são muito definidos. Como somos dois, a sincronização sonora tem que ser trabalhada. O alinhamento muda conforme o concerto. O concerto vive sempre de energia, é muito diferente de quando estás a trabalhar entre quatro paredes. Por exemplo um atleta de alta competição está sempre exposto às adversidades externas, como a chuva ou o sol, mas no entanto está preparado para a competição. Mas nós não arriscamos o improviso, dá muito trabalho (risos). O facto de não sermos músicos, exige-nos um compromisso maior, não dá para improvisar (risos), esquecer-me da letra (risos). A experiência de musicar para teatro, fez com que ganhássemos essa estaleca e trabalhássemos muito com o improviso. Foi bom perceber isso. Mas num concerto de Lavoisier, a improvisação não se coloca.

MDX – Cada tema é desdobrado em vários sub – temas. Como foi o processo de composição?

LV – Teve a ver com o lado progressivo, ou seja tentámo-nos afastar. A base é sempre a guitarra e a voz, tendo um esqueleto central. Depois disto, fomos para casa e trabalhámos na educação de ouvido. Por exemplo, a Nina Simone é muito teatral. Umas vezes canta muito alto, e outras vezes vem cantar baixinho conta-nos uma história ao ouvido como a sussurrar. Surpreende. O processo passa muito por tocar, tocar. Como somos iletrados, a experiência compõem isso. Ainda agora fizemos um projecto com uma banda filarmónica, há uma variação de uma nota que não faz sentido. Não, tu queres uma nota que te dê comichão no ombro (risos)! O lado artístico permite a liberdade. Há um convidado o José Valente, e o percurso dele é oposto ao nosso, foi para Viana estudar música clássica e quis trabalhar connosco. O “Romance do Cego”, em que de repente alterámos a célula rítmica, era um ternário e de repente ficou binário. Ele estava assustadíssimo (risos), mas de repente deu uma gargalhada sincera! A tal liberdade de não encaixar o formato clássico era uma coisa que, aparentemente não estava a funcionar. Mas é muito pela sinceridade.

MDX – A música dos Lavoisier irá passar na rádio?

LV – Não estamos à espera de passar na rádio, mas ficamos muito tristes por isso. O objectivo não é esse, mas há um desconforto. Mas as pessoas vão nos ouvir nos concertos!

MDX – A sequência na escolha dos poetas foi aleatória?

LV – Sim, foi aleatória porque tocámos (experienciámos). Tivemos que pedir autorização à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), para tocar José Mário Branco, Fausto e Zeca Afonso. Estivemos 9 meses à espera da resposta… e conseguimos autorização do José Mário e do Fausto, mas não tivemos autorização da Zélia Afonso. Fizemos uma nova composição e retirámos a letra, pegámos na voz e em reverse colocámo-la. Não houve tempo, porque o álbum estava na fábrica e teve que ser assim. Enviámos o trabalho à Zélia Afonso, mas como era um excerto de um tema não tivemos autorização. Não deixou que fosse um excerto, teria que ser o tema inteiro. Ficámos tristes e profundamente irritados, mas não queremos ver isto como uma luta. Entristece-nos que a Zélia Afonso não tenha deixado, e o termos ficado 9 meses à espera… Mas nós ao vivo vamos continuar a cantar o Zeca (risos)! Quando saímos da SPA, chegámos à carrinha do José Fortes, colocámos a música e chorámos… pois o Zeca foi uma pessoa que nos deu tanto em tantas áreas, na arte…nunca nos passou pela cabeça.

20170920 - Entrevista - Lavoisier @ Fábrica MUSA

MDX – Como foi o caminho dos Lavoisier?

LV – Conhecemo-nos desde os 13 anos, andámos juntos na escola até aos 15. Separámo-nos e voltámos a encontrar-nos aos 19/20 anos e fomos estudar para a ESAD nas Caldas da Rainha. A música surge com um amigo nosso que tocava guitarra. E, vivendo em Odivelas, a música foi um escape (risos). Vivendo nos subúrbios a música pode salvar muitas almas! Até aos 20 anos queria ser jogador da bola (gargalhadas)! A música apareceu depois da bola e depois de a Patrícia estar mais presente em Odivelas. E quando ela foi para a ESAD e eu fui atrás dela e começámos a namorar. De repente, a Patrícia em Cerâmica e eu em Som e Imagem, e como trabalho final de curso fizemos um tributo a Nina Simone. Quisemos contar a história dela, e com um projector de frente com o documentário e atrás, intercalávamos com a música. Foi a primeira vez que a Patrícia subiu ao palco (risos). E de repente estávamos a tocar ao vivo! Ninguém nos conhecia como músicos (nós também encaixamos nesse comentário!), ensaiámos muito. Correu bem, mas ainda fizemos muitos concertos. O baixista era o Lula´s, dos Cachupa Psicadélica, e ainda éramos uns 7 músicos!

Antes de irmos para Berlim, fomos descer a Costa Vicentina e a ideia era parar primeiro em Sines no Festival Músicas do Mundo (FMM). De repente tínhamos um amplificador e a guitarra (…) ainda me chateie com Patrícia “Lá estás tu!”, agora vamos tocar por aí. Mas um sítio aceitou, outro também e foi assim. Descemos a Costa Vicentina a tocar em bares (risos).

Fomos para Berlim no final de 2009 e estava muito difícil de arranjar trabalho. Depois de termos passado o pior inverno…deu para ficar. Na questão musical, os primeiros 6 meses foram difíceis. Mas fez-nos enriquecer e fez-nos mais fortes! Inicialmente tocava-mos Bossa Nova, Tropicalistas, Nina Simone. Depois começaram a aparecer os músicos portugueses tradicionais. Nessa altura trabalhávamos numa espécie de fábrica em part-time e isso consumia-nos. Propusemo-nos a tocar música, mesmo correndo o risco do insucesso. Foi o primeiro passo dos Lavoisier. Ao início em inglês e muita música brasileira, mas nunca tocávamos covers, voltando à questão dos sub-temas (risos).

Em 2013 voltámos em contracorrente porque, estava muita gente e ir e nós a regressar para Portugal. Mas a nossa música em português foi muito receptiva em Berlim. Havia muita música electrónica, eles não percebiam a língua, mas era muito pela emoção que chegávamos às pessoas. Nessa altura houve um contacto com o Tiago Pereira ( A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria), que conheceu o projecto e foi um entusiasta de Lavoisier. Uma das razões do nosso regresso, foi o começarmos a trabalhar com o José Fortes. Houve uma realidade bonita nessa altura, o José Fortes dizia-nos para não desistirmos. Mas também existiram outras realidades feias, como agentes a dizerem “vocês são um casal, epá isso…”. Mas esta fase má foi muito necessária porque pensámos, “ou temos força e acreditamos realmente nisto ou não vale a pena”. Uma das pessoas que nos apoiou sempre, e é nosso amigo é o José Fortes. E como ele diz, “o caminho tem sempre uma crença, a dignidade vai ganhar”.

20170920 - Entrevista - Lavoisier @ Fábrica MUSA

Entrevista – Carla Sancho
Fotografia – Luis Sousa