Surma chamou a comunicação social para esta estar presente num concerto privado, e secreto, no Musicbox, na última terça-feira. O objetivo de tal chamada era o de apresentar em primeira mão aquele que é o seu primeiro álbum, Antwerpen.

Apesar de só agora lançar o seu primeiro disco, Surma é alguém de quem se fala já há algum tempo dentro do universo musical português. Deu-se a conhecer em 2016 com o tema “Maasai”, tendo este sido acompanhado por um vídeo realizado por Eduardo Brito e que entrou diretamente para a lista dos melhores já alguma vez feitos para um músico português. Com esse primeiro avanço, vieram uma série de concertos em salas e festivais consagrados em Portugal, e não só, com destaque para o Super Bock Super Rock 2016 e o Bons Sons 2017. Já este ano, recebemos de braços abertos o single de avanço do seu primeiro álbum, “Hemma” segue a mesma linha de “Maasai” e também ele é acompanhado por um lindíssimo vídeo, desta feita realizado pela CASOTA Collective. Assim, é com uma enorme curiosidade, e alguma ansiedade, que seguimos para a apresentação de Antwerpen, o primeiro álbum de Débora Umbelino, mais conhecida por Surma.

Vinda da mesma terra dos Silence 4 – Leiria – Surma está nos antípodas do som praticado pela banda de David Fonseca. É interessante fazer este paralelo entre os dois, já que ele revela-nos as mudanças que entretanto foram ocorrendo e de como por vezes as coisas não são bem como as ouvimos. Os Silence 4 vingaram nos finais dos anos 90 por via de músicas simples, agradáveis e essencialmente acústicas – não havendo grande recurso aos chamados efeitos. Por seu lado, Surma oferece-nos uma sonoridade mais densa, trabalhada e, também, agradável. Em comum, temos a sonoridade agradável de ambos os projetos, apesar de tão diferentes um do outro. Se ouvíssemos as canções de cada um deles sem saber mais nada acerca de cada um dos projetos, ficaríamos com a ideia de que os Silence 4 subiriam ao palco com dois ou três músicos e Surma seria uma espécie de orquestra a ocupar a totalidade do estrado. Estaríamos sem dúvida bem equivocados. Por cá, o primeiro caso de sucesso de um one-man/woman-band foi The Legendary Tigerman – projeto de Paulo Furtado –, mas até ele já chamou mais gente para se juntar a si em estúdio e em palco. Surma é diferente, é só ela no meio de um emaranhado de instrumentos e de cabos a fabricar um som que enche por completo os espaços por onde vai tocando e, porque não dizê-lo, a alma de quem está presente.

Às 18h, do dia 26 de setembro, abriram-se as portas do Musicbox. Lá dentro, apercebemo-nos da presença de muitos outros músicos portugueses, que fizeram questão de não faltar e assim dar força à estrela maior daquele fim de tarde. A sala está bem composta. Em cima do palco, temos a tal parafernália de instrumentos e de cabos, ou seja, o universo por onde levita Surma e a sua música. Ao fundo, está projetada a capa, lindíssima, de Antwerpen – a fazer lembrar um pouco a de A Rush of Blood to The Head dos Coldplay.

Antes do arranque do concerto, a jovem leiriense encontra-se na plateia, à conversa com alguns dos convidados. Por volta das 18h30, começa-se a ouvir a intro do espetáculo, ou talvez de uma espécie de showcase, mas Surma não parece entrar em stress por causa disso. Mantém-se, aparentemente, calma e serena. Chegado o momento de subir ao palco, segue diretamente da conversa com conhecidos e amigos para o seu universo de instrumentos. Momentos de concentração antes do concerto é coisa de que não precisa.

A atuação arranca e os primeiros sons que se ouvem fazem-nos lembrar o início de “Tired Of Sleeping” de Suzanne Vega. Surma, que pode ser considerada uma espécie de little big genius, revela-se ainda algo perdida com a interpretação dos novos temas. Digamos que está à procura da melhor forma de os transportar para o formato ao vivo e, também por isso, acabou por só tocar uma parte do seu primeiro disco. Baseou-se, acima de tudo, nos sintetizadores e no digital, a guitarra esteve lá, mas nela não chegou a tocar. Era notório o pouco à vontade com que estava em relação à interpretação das novas canções – com exceção do primeiro single, todas as outras nunca tinham sido tocadas ao vivo.

Durante o concerto, questionámo-nos do porquê da utilização de tantos efeitos na voz. Surma é dona de uma voz encantadora, até mesmo amorosa, e ficamos com a ideia de que está a desaproveitar uma ferramenta de qualidade que tem ao seu dispor. Apercebemo-nos também que em cima do palco está alguém que tem um comportamento algo dúbio, se as músicas são algo ambientais e melancólicas, quando as mesmas chegam ao fim Surma surge divertida e brinda-nos com a sua simpatia e o seu belo sorriso. É uma miúda bem-disposta aquela que está ali, que depois não se reflete na música que cria.

O concerto/showcase durou cerca de 30 minutos, o suficiente para se entender o rumo que o disco segue. É sem dúvida música do agora, dos tempos atuais, que pode muito bem ser utilizada em qualquer local que se dedique à arte contemporânea. Tem alguns momentos que nos transportam para uma daquelas esplanadas com um vista maravilhosa para o tejo. Tem outros mais densos e intimistas. E tem também canções que nos fazem dançar.

Surma é uma das maiores promessas da música nacional. Lança, aos 22 anos, o seu primeiro álbum, tendo a coragem de subir a um palco sozinha e de tocar uma série de instrumentos que domina com total conhecimento de causa. O seu primeiro álbum precisa de ser escutado uma e outra vez até se atingir o ponto de maturidade dentro de cada um de nós. Agora, será também importante perceber qual a melhor forma de o levar para cima de um palco e, talvez, tentar dar algum toque humano a uma música que ao vivo peca por ser demasiado digital e programada.

Foi sem dúvida um belo momento de celebração de algo que há muito se aguardava. Surma não desiludiu, mostrou-se competente e com seriedade… até mesmo por não ter atuado de meias e não ter abusado dos panos de cozinha.

Afinal de contas, estamos perante uma little big genius, como há poucas por aí. Surma tem tudo para ir longe e conquistar os seus desejos e os nossos corações.

Texto – João Catarino
Fotografia – Nuno Cruz