É terça-feira e a Galeria Zé dos Bois abre neste dia as suas portas para uma viagem ao passado, comandada pelos Endless Boogie – banda de culto do rock underground nova-iorquino, formada em 1997 e liderada por Paul Major. Vibe Killer, lançado este ano, é o seu mais recente registo e a base para os concertos que a banda anda a dar por esse mundo fora.

Os Endless Boogie não apresentam propriamente um som original ou inovador – guitarras tipicamente rock acompanhadas por uma voz que mais parece discursar do que cantar, por vezes a fazer lembrar certos trabalhos dos The Doors –, mas a convicção e, até mesmo, o amor que colocam na execução das suas canções faz com que tudo acabe por soar contemporâneo. Afinal de contas, o que interessa é o que cada um sente em cada momento. Se nos faz vibrar agora é porque continua atual.

Quatro anos depois da sua última atuação na ZDB, os Endless Boogie regressam ao Bairro Alto com o mesmo espírito de sempre. Ainda cá fora, os membros da banda desfrutam, sempre acompanhados da cerveja e do cigarro, da excelente noite lisboeta, como se esta fosse igual a tantas outras. A descontração é total, o importante é curtir a vida, cada um à sua maneira, e os Endless Boogie têm a sua maneira muito especial de encarar a vida, transportando-a para o que fazem em concerto.

Passam poucos minutos das 22h quando os quatro membros da banda – Jesper Eklow (aka “The Governor”) na guitarra, Paul Major (aka “Top Dollar”) na guitarra e voz, Mark Ohe (aka “Memories from Reno”) no baixo e Harry Druzd na bateria – sobem ao palco, devidamente carregados de copos de cerveja. O concerto arranca e desde logo apercebemo-nos que aquele não é um espetáculo normal e convencional, para o comprovar basta dizer que só tivemos três momentos musicais, cada com uma duração de pelo menos vinte minutos. A lógica de um espetáculo dos Endless Boogie centra-se muito nisso mesmo, as músicas arrancam e não se sabe quando é que vão acabar. Os riffs da guitarra são tocados em modo repeat – e soam por vezes muito à Rolling Stones, fazendo, num dos momentos, lembrar o tema “Midnight Rambler” –, o improviso e o espírito de jam session está muito presente e os solos de guitarra de Paul Major são longos, muito longos, no fundo duram o tempo que ele quer, naquele momento, que eles durem.

As músicas revelam-se enormes, mas os que enchem a sala lisboeta não se ralam minimamente com isso, sabiam bem ao que iam e mesmo aqueles que estão menos habituados a este tipo de abordagem, acabam por se deixar envolver por tudo o que se passa em cima do palco. Paul Major transpira que é uma coisa impressionante. As gotas de suor caiem em quantidades industriais do seu corpo para o chão, deixando até marcas bem evidentes na guitarra que utiliza. Os quatro músicos dão tudo, notando-se por vezes alguma dificuldade em aguentar aquela forma de apresentar um espetáculo. A dado momento, o baixista senta-se no banco do piano que lá se encontra, neste caso só como elemento de decoração. Os próprios instrumentos também se ressentem, que o diga Harry Druzd que na parte final “perdeu” o pedal do seu bombo. Mas a estrela maior é Paul Major e é para ele que tudo funciona e que tudo está virado, os outros três estão lá para o servir e para tornar realizável tudo aquilo que ele deseja fazer em palco.

Depois de dois longos momentos musicais, surge uma pausa que, em função das circunstâncias, não se percebe se trata de um intervalo ou de um encore. A verdade é que para alegria dos presentes, a banda voltou para mais um momento, ou por outras palavras, para mais vinte e tal minutos do mais puro rock and roll.

Os Endless Boogie no fundo acabam por ser um projeto de uma estrela só, que decide pegar em três amigos e com eles divertir-se fazendo o que realmente o torna feliz: andar a tocar da maneira que lhe dá mais prazer, ao mesmo tempo que viaja por aí com amigos e na companhia do copo e do cigarro. Cada um é feliz à sua maneira!

Texto – João Catarino
Fotografia – Marta Louro