Entre festivais, e depois de levar com uma autêntica injecção de adrenalina chamada Iron Maiden, decidimos acalmar os nervos e ir no passado dia 13 de Julho até ao Coliseu dos Recreios para ver o concerto do irlandês Damien Rice.

Parece um contra-senso. 3 dias de NOS Alive, concerto de Iron Maiden, concerto de Damien Rice, e de novo 3 dias de Super Bock Super Rock. Damien Rice aparece-nos aqui de alguma forma a desequilibrar o ritmo desta semana.

O motivo que nos levava até este irlandês era a curiosidade de ver ao vivo um dos artistas que provavelmente se afigura na lista dos top 10 dos “guilty-pleasures” na música em Portugal. Não será alheio a este facto o filme Closer (2004), com o qual contribuía com um dos temas mais emblemáticos da sua carreira, “The Blower’s Daughter”, filme que terá marcado muitas das pessoas que estiveram na passada 4ªfeira no Coliseu de Lisboa, e honestamente, a nós também. Recordamos-nos que foi na altura o clique para descobrir este simpático artista, irlandês de corpo inteiro sem qualquer dúvida.

Estará também para explicar cientificamente a química que temos com este povo, os da República da Irlanda, mas não temos tempo para o fazer agora. Tal como eles, somos afáveis, acolhedores, e gostamos de um bom copo, de wisky ou cerveja, e, a par da influência do povo celta em ambos os “reinos”, talvez sejam esses os motivos que nos aproximam tanto. Afinidades à parte, a primeira parte do concerto coube à islandesa Gyda Valtysdottir, que tem acompanhado a tour de Damien Rice, e que ao som de cordas e a sua voz doce e suave, nos embalou para uma noite especial. Seis temas e cerca de 40 minutos de concerto foi o suficiente para sabermos que esta noite seria diferente.

Passado um longo intervalo em que o público já ansiava (e assobiava) pela entrada de Damien Rice em palco, o inicio do concerto é arrebatador e arruma com qualquer dúvida sobre se seria apenas uma noite de baladas. Sem qualquer iluminação em toda a sala, o irlandês começa com uma versão mais elétrica de “My Favourite Fadded Fantasy” – o tema que dá nome ao último trabalho do artista – e termina este primeiro tema em grande apoteose, com potentes luzes strob a sair do fundo do palco. Estava feita “a cama” para um grande concerto.

Entre toadas mais calmas, iluminadas com apenas um foco de luz sobre si, ou explosões de luz com riffs de guitarra como se tratasse de um concerto de hardcore, Damien Rice confessa-nos pequenas técnicas que ajudam um homem a “acalmar” perante uma mulher por quem se sente muito atraído, e percorre vários temas antigos bem conhecidos dos fãs (que o comprovavam cantando com o artista) como “9 Crimes”, “Delicate”, “I Remember” ou “Amie”, passando também por mais um dos temas do novo álbum, “The Greatest Bastard”, até chegar ao maior momento da noite.

20160713 - Concerto - Damien Rice @ Coliseu dos Recreios

“Colour In Me”, um dos novos temas, é aclamado por um jovem do público a quem Damien vai desafiando até que o convidar a cantar no palco com ele. Nós diríamos que se necessário fosse uma segunda voz para este concerto, não seria melhor que o jovem Bernardo que vinha direto da bancada do Coliseu dos Recreios. No final do tema, um abraço sentido entre os dois, todo o público em pé a aplaudir, e convite de Damien Rice ao Bernardo para se juntar a ele no final e beber um copo no backstage. “A minha irmã não vai acreditar”, dizia o jovem em alta voz para todos ouvirmos.

Até ao encore são tocados mais dois temas do novo álbum, “Long Long Away” e “It Takes a Lot to Know a Man”, e dos temas anteriores, “Cannonball” que é cantado “à capela”, numa sala sem luz, e na frente de palco por Damien Rice. Épico.

Para o encore, “I Don’t Want to Change You”, um dos temas de “My Favourite Fadded Fantasy”, e o inevitável “The Blower’s Daughter”. Foi sem dúvida um concerto destinado apenas para fãs, e daqueles que se juntam de vez em quando para partilhar algumas vergonhas que são só suas.

Texto – Carla Santos
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Everything Is New