Howe, cabelo branco, casaco castanho e o olhar fundo, de quem vê o mundo em permanente interrogação. Já no final do concerto, com o telemóvel na mão vira-se para a plateia – Agora começa a parte do desssseeenrrrrasar tour. A princípio sugeria-se palavra dinamarquesa, mas com a afinação da prenuncia e maior atenção dos ouvintes – ah, desenrascar! O uso do dicionário será desaconselhável porque todos e, mais de que uma vez, tivemos que passar por situações de desenrascanço mais ou menos profundas. Desenrascar de fazer com relativa facilidade, de livrar-se de.

Quarta-feira, 10 de Fevereiro, no Musicbox foi muito livrar-se de. Livrar-se das formas tradicionais como se assumem os concertos, de como se constroem as músicas, de como se aproveita um espaço difícil para este propósito e se torna mais acolhedor. Howe Gelb assumiu esta Tour como um momento de construção e de afinação dos temas que vem tocando nos últimos tempos e que servirão de base para o seu próximo trabalho. Temas assumidamente inacabados, a suplicarem constantes afinações, com 43 000 perguntas pelo meio até, quem sabe, chegar a uma canção editada e não necessariamente acabada. Haverá alguma que se encontre verdadeiramente terminada? Não corresponderão a um chamamento do acaso? Não é a partir dele que se lança nova nota?

Neste híbrido que se transformou o espaço do Cais do Sodré, uma espécie de Café-Concerto e de sala de estar, com mesas e cadeiras nas primeiras filas e piano vertical no palco, uma peça de mobiliário como ele o define, com a mesma desenvoltura soltam-se histórias e canções – A Thousand Kisses Deep, Bottom Line Man, Refusin’ to Be Loosin, A Book you’ve Read Before entrecortadas pela aventura da compra de um casaco castanho no Ás de Espadas e como o que se diz pode ter efeito boomerang e voltar-se contra nós – nunca dizer mal da Hugo Boss; de como esta mudança de visual implica a separação momentânea de um fato italiano de pele de lagarto, que só o voltará a acompanhar no final da digressão. Mais do que um universo surrealista estamos perante um excelente compositor, mesmo que faça do seu ouvido duro justificação para uma forma tão particular de tocar. Estamos perante um autor; alguém que procura o seu caminho: da desértica Tucson à atlântica Lisboa, entre standards de Julie London ou future standards como ele os apelida, que se recusa a fazer música para elevador, embora veja nela um método para enriquecimento à la Relvas, que sabe que as canções andam sempre entre dois polos – o amor ou a falta dele, e que tem a companhia de dois microfones para conferir as tonalidades ajustadas. Com desenvoltura abandona o banco, de pé e com a guitarra na mão e a pedido do público desfia temas e recusa outros – Blue marble girl.

No final uma versão peculiar de Moon River, que se vai trauteando ao longo da rua cor-de-rosa, a fazer lembrar que os dias são incomensuravelmente melhores sem setlists e abertos a todas as formas de desenrascanço – tenhamos nós coração para o que a vida tem para nos contar.

P.S.: Na primeira parte Sallim. Guitarra azul, ela e o palco, os acordes e a voz. Uma vontade louvável por parte de quem programa em associa-la a nome incontornável dos últimos 30 anos. Todos estávamos por Howe Gelb.

Texto – João Castro
Fotografia – Luis Sousa