Chris Eckman trouxe-nos a Portugal momentos mágicos de uma simplicidade de arrepiar. A opção das cidades médias, como Coimbra, Arcos de Valdevez e Alcobaça, demonstra que há “mais vida” para além de Lisboa e Porto! Salas acolhedoras, com públicos direccionados, “Harney County” é precisamente isto, um álbum de estórias georeferenciadas de uma cidade pequena com um ambiente fechado e hostil, mas marcadamente complexo.

João Rui e Jorri, a dupla de A Jigsaw acompanhou Chris Eckman e Ziga Golob (contrabaixista) nos 3 concertos, e nós tivemos o privilégio de os ouvir no último dos três, no Teatro João d’Oliva em Alcobaça. Gostava de poder fazer uma reportagem de um simples concerto, em que vou falando sobre as músicas do alinhamento e dos comentários dos músicos. Da reacção do público, dos efeitos de luz, das projecções de imagens no palco. Mas felizmente não vou poder fazê-lo. Vou vos falar do João Rui e do Jorri, que com a responsabilidade “às costas” de acompanharem o guru norte americano Chris Eckman (músico e letrista de uma das melhores bandas dos estados unidos), estiveram numa presença inteira, e nos presentearam com um punhado de músicas do novo álbum “No True Magic”, e que não ficam (nem ficaram) aquém do músico de Walkabouts. Mesmo o tema “ Black Jewelled Moon” onde a voz segura de Carla Torgerson (voz feminina de Walkabouts) só se ouve no CD que trouxemos autografado, foi belíssima na voz do João Rui.

[A Jigsaw]

Um intervalo para esticar as pernas e meia dúzia de minutos de conversa com o director do Teatro João d’Oliva e da Academia de Música de Alcobaça, Rui Morais (já passaram mais de 20 anos, Rui? “bolas estamos a ficar velhos”!).Regressámos à média luz para quase duas horas de cumplicidade entre uma guitarra, um contrabaixo e uma voz, com espaço para respirar, para envolver e levitar. Quase duas horas caminhadas nos socalcos cinzentos de Harney County e no percurso cinematográfico dos Walkabouts.

Sem cadeiras, sem jogos de luzes, sem grandes engenharias de som, ficámos colados à cadeira (na plateia) enfeitiçados com aquela fusão de acordes, com aquele diálogo de cordas que nos contou estórias de “ladrões”. De vidas que emigram e não regressam (quantos já somos em Londres?), de amores e desamores, de mortes vingadas pelo desacreditar da auto-estima. Uns desabafos entre este e aquele tema, entre os quais soubemos que os Estados Unidos foram substituídos pela Europa mais ao centro (ou ao mais ao Leste), Eslovénia. Que afinal os portugueses são mesmo loucos, pois quando terminam a faculdade andam nus pela rua! Do “veneno” dos doces conventuais, que foi consumido no meio de um jogo do Benfica.

[Chris Eckman]

E no final tivemos tempo para tudo, de fumar cigarros à porta do Teatro, com o Chris, o João, o Jorri e o Pedro. De falar sobre o concerto dos Walkabouts em Paredes de Coura (2001), em que só ficaram uma noite e não conheceram quase nada, ficando apenas recordação do anfiteatro natural do Tabuão. De rabiscos autografados nos CD’s, nos antigos e nos recentes, que não deixam de ser marcas dos próprios (génios) criadores! De desejos de longos e intensos dias de…felicidade!

Texto – Carla Sancho
Fotografia – Luis Sousa