O segundo dia de festival começou no palco secundário com os suecos Tomode. O duo fez-se acompanhar de mais 3 músicos e de uma grande festa. Apesar de ser uma banda recente, são mestres nos instrumentos, criando arranjos sofisticados e ambiências orgânicas. A sonoridade pode ser caracterizada por melodias electrónicas construídas com sensibilidade. Os beats são sensuais com tonalidades suaves e tropicais. Se ouvirmos e sentirmos bem, absorvemos funk, experimental, soft rock e algum psicadelismo. Foi uma bela abertura de festival, com uma alegria e boa disposição em cima do palco que contagiaram o público.
O concerto seguinte veio deixar alguma inquietação. Primeiro por não se perceber se Aldous Harding se encontrava sobre efeitos de droga ou se estava com uma doença do foro psicológico já algo avançada. Poderia ser uma coisa ou outra, mas ainda que tentássemos focar-nos apenas na música, estava a ser bastante difícil.
A voz dela mantém-se igual, com aquela força, profundidade e identidade camaleónica que tão bem a caracteriza e não havia pregos, o que dificultava mais a compreensão do momento que se vivia.
Apesar de alguma inquietação, a sua música suavizou o entardecer e enterneceu-nos com ela. Apresentou-nos o novo disco Train on The Island, terminado com “Coats”, afirmando ser uma música sobre ela.
Os Friko vinham a seguir no palco Coura sem Paredes. Eram miúdos com pouco mais de 20 anos e traziam amor e alguma distorção em pequenas quantidades.
Nota-se que ainda não encontraram uma identidade e que misturam uma série de sonoridades que, no final, podem formar uma bolha meio disforme e estranha. Misturam indie rock com noise pop, desviando-se ligeiramente pelo caminho. Niko passa o concerto a dar beijos ao microfone e causa algum desconforto auditivo. Não diria que foi um mau concerto, mas também não foi bom!
O excelente compositor e cantor Kurt Vile trouxe os seus Violators a Portugal para apresentar o seu mais recente trabalho Philadelphia’s Been Good to Me (nota-se perfeitamente o seu amor por Philadélphia). Kurt Vile é aquele artista que parece um génio louco lo-fi. Não muda o tom de voz nem a tonalidade dos acordes, parecendo que o concerto é uma música apenas. Mas em bom! Para além de mestre da guitarra, é também um letrista magnífico e faz-se acompanhar de músicos, igualmente, exímios. O seu indie rock e folk é sempre um bálsamo refrescante ao mesmo tempo que tem algo de nostalgia consigo, tal como podemos sentir na sua letra “You got a chance to bleed now/With that old-time lo-fi DIY rock and roll nights”. Kurt é um verdadeiro contador de histórias banhadas em melodia que nos leva a lugares bonitos e cheios de tranquilidade. Tocou bastante do seu mais recente trabalho, deixando espaço para a “Pretty Pimpin” que fez a delícia dos presentes.
Uma das melhores sensações que se tem na vida é ser surpreendido. Melhor se torna o momento quando a surpresa nos dá um bilhete para uma viagem profunda e hipnótica pelo deserto americano. Talvez tenha vivido várias vidas no deserto no passado. Sei que, no presente, já vivi várias e muitas delas com o misticismo de uma harmonia quente que, por vezes, me deixa por lá algum tempo.
O concerto da noite vinha com os Hermanos Gutierrez e que concerto! Os irmãos, apesar de terem nascido na Suíça, têm muito vincadas as raízes equatorianas e transportam isso para a música que fazem. Isso e um amor gigante pelo western! Com duas guitarras, lap steel e percussão suave guiaram-nos pelas ondas de calor do deserto por entre dunas brilhantes, águias e alguns coyotes. No meio do deserto encontramos cowboys e velhos saloons a cheirar a velho oeste. Sentimos tudo! Nesta viagem os sentidos são apurados e podemos sentir o sol na pele, a brisa que a águia deixa a voar, o cheiro da madeira das portas dos sallons e uma sensação plena de estar em casa. Passaram pela discografia quase toda e por muitas dedicatórias. Afirmaram que o deserto é o sítio onde mais gostam de estar e por isso fazem música de deserto. Espero que a façam sempre, pois o deserto também é o sítio onde mais gosto de estar e que me inspira mais.
Neste concerto, foi-nos oferecida uma viagem para saborear com tempo e poder mastigá-lo como se fosse uma chew bag. Não havia perigos nem pressas, apenas a natureza e o tempo a darem-nos um bocado de si.
Obrigada por isso, meus queridos irmãos Gutierrez!
Não tenho por hábito descrever os piores concertos do festival, normalmente aquilo que me desagrada não consta na lista de vontades, mas neste ano tive dois concertos que foram, sem a menor dúvida, os piores concertos daquilo que vi no Festival.
O primeiro foi, neste segundo dia, com a banda WU LYF. Claramente a energia de Ellery Roberts não estava sincronizada com a da banda e, muito menos, com a do festival. Para além de se ter tornado um concerto aborrecido, Ellery parecia, na maior parte das vezes, uma cabra a berrar num balido de aflição. Salvo melhor opinião, seria mais interessante se não tivessem voltado ao activo!
Já tinha visto Underworld em 2018 e gostei! Talvez o enquadramento pudesse não ter sido o melhor nesta noite de Agosto: uma viagem hipnótica, seguida de um mau concerto e um techno de fim de noite.
Os Underworld têm uma forma especial de fazer techno, misturando melodias e ambient de forma mágica. Fizeram as delícias do público e acredito que poderiam ter feito as minhas, se não tivesse noutro lugar espacial.
Outra banda que aguardava muito eram os Show Me The Body e ainda bem que esperei até às 02:45 para os ver. O trio nova iorquino mistura post hardcore, com noise e art punk. Contém a distorção, densidade e potência suficientes para nos deixar completamente desconcertados e no meio de um caos saboroso, onde explodimos com eles. Não tardou a vir o circle pit, o mosh e o crowd surfing! Um fim de noite cheio de adrenalina que perdurou algum tempo no ritmo do coração!
Fotografias dos restantes concertos do dia cobertos pela nossa equipa
Ambiente
Pale Jay











































































































































































































































































































































































