Em ocasiões muito raras, as paredes de uma sala de espectáculos deixam de ser feitas de cimento e passam a ser feitas de pele, de várias camadas de tecido externo e interno que se expandem, contraem e reagem de diversas formas consoante a carga eléctrica que paira no ar. Foi esta a forma figurativa que arranjámos para descrever, em poucas linhas, o que vivemos na Sala Mouco, no Porto, com a actuação dos Maruja. Numa das paragens mais importantes de toda a Pain to Power Tour – tanto ou tão pouco, aliás, que “forçou” os britânicos a marcarem mais uma data na mesma sala no dia seguinte, esgotando ambas as datas – esta banda de culto emergente regressou a Portugal para confirmar o estatuto de uma das forças mais físicas e diretas da música alternativa atual.
A abrir a noite, os lisboetas Bad Tomato acenderam o rastilho perfeito para o público que encheu o espaço. A noite arrancou sem avisos ou introduções longas e os Bad Tomato subiram ao palco com a atitude que se adivinhava. O quarteto de Lisboa foca-se num post-punk frenético e rápido, muito alicerçado numa estética low-fi que recusa qualquer tipo de polimento técnico. Com uma abordagem crua e assumidamente in your face, a banda manteve uma velocidade constante que não deu descanso à plateia. As linhas de baixo, autênticas bestas que ajudaram a ondular a referida pele nas paredes da sala, misturavam-se com elementos eletrónicos dispersos, mas inteligentes, o que ainda deu um tom quase rock industrial à actuação. Em pouco mais de trinta minutos, os Bad Tomato transformaram a Sala Mouco num espaço dominado pelo suor (muito devido à sala esgotada) e pela agitação física, provando a eficácia do punk direto e sem rodeios.
Já antes da entrada em palco dos Maruja, o elemento mais presente foi o da bandeira palestiniana, centrada, imóvel, lembrando a cordilheira das Montanhas da Judeia. Esta cordilheira já existia milhões de anos antes de o primeiro humanoide ter descido os ramos de uma árvore e tocado o chão, erecto, e a mesma continuará a existir muito depois de o último homem dar o seu último suspiro. Dito isto, muita força para todas as vítimas de injustiça e ignomínia. No entanto, quando o vocalista Harry Wilkinson surge em palco ostentando uma tarja do Futebol Clube do Porto, em alusão à victória do clube no campeonato nacional, a bandeira quase passou para segundo-plano e o ardor que se sentiu foi outro. O quarteto de Manchester, conhecido pela fusão pesada de noise rock com o experimentalismo do jazz e música ambiental, exibiu a tarja bem alto no ar, puxou pelo público e deu lugar imediato aos primeiros acordes de “Bloodsport”, o tema escolhido para abrir o concerto. Se é para mandar abaixo, não é com subtilezas.
A escolha funcionou como um choque na sala. O saxofone de Joe Carroll, estridente, ruidoso até, qual filho legítimo de um John Zorn do tempo dos Naked City, rasgou o ar com notas que pareciam navalhas e a voz do frontman marcou a cadência do combate entre banda e público. A sequência inicial, que incluiu as não menos caóticas “Trenches” e “Break The Tension”, abrandou significativamente para apresentar “Saoirse”. “Saoirse” é um dos temas mais belos e íntimos de “Pain To Power”, parecendo mesmo um reflexo de algo tão pessoal que só poderia ter sido uma desgraça qualquer que tivesse acontecido a algum elemento da banda. Não é de estranhar, tendo em conta que os mancunianos abordam política, angústia social, a luta de classes e as lutas da vida urbana moderna. Só por aqui, entende-se que teriam de ser ingleses. Entre gestos e muito cuspe e súor, poucos percebem o esforço de Wilkinson, que, entre gritos e urros do hardcore clássico, partes de sprechegesang e outras partes onde se ouve rap e trap, encerra o vocalista perfeito para os Maruja.
Puramente ambiental, “Saoirse” funcionou como um momento de paragem e recuperação. Antes do concerto, estávamos a tentar perceber como é que a banda encaixaria temas ambientais de 8 minutos num concerto ao vivo. O silêncio na plateia tornou-se absoluto, podia-se ouvir cair um alfinete, e os mesmos corpos que minutos antes colidiam com violência ficaram imóveis, atentos à densidade instrumental da canção. Foi a prova de que os Maruja controlam tanto o caos de alta intensidade como as dinâmicas de tensão psicológica mais lenta. A calmaria de “Saoirse” foi apenas como a chuva de agosto, que refresca um pouco e, momentos após, volta a dar vez ao sol escaldante desse mês. À medida que o concerto se aproximava do fim, a banda canalizou toda a agressividade acumulada para o ponto crítico da noite: a rápida e violentíssima “Don’t Look Down On Us”.
Se, até esse ponto, o concerto tinha sido fisicamente exaustivo, durante esta rendição a Sala Mouco perdeu o controlo. O crescendo de ritmo e a explosão de distorção e, principalmente, as ameaças vocais de Harry, transformaram a plateia num cenário de autêntico confronto físico, um local de tensão que fez parecer que não estávamos num concerto dos Maruja, mas, sim, numa batalha em Fallujah. O pico visual e físico aconteceu quando, em simultâneo, três crowd surfers subiram acima das cabeças do público, flutuando sobre a massa humana que se debatia de forma descontrolada, ora com movimentos de slam, ora no estado de estupor dos que apenas queriam interiorizar a carnificina sonora a que estavam a ser submetidos. Wilkinson não poupou as cordas vocais e o público respondeu com a mesma violência, eliminando qualquer barreira invisível entre o palco e a plateia.
Quando os últimos ares da derradeira “Resisting Resistance” soaram, o cenário na sala era de desgaste. Apenas desgaste. Gente exausta, encharcada em suor e a certeza de um público que tinha assistido a um dos concertos mais fisicamente exigentes do ano. Os Maruja vieram a Portugal não para levar pastéis de nata e vinho do Porto, mas, sim, para perceber como é que um povo tão dado às coisas doces e à moderação se consegue comportar como gentes cavernícolas beligerantes, como embrutecidos, sem floreados, mostrando o porquê de o Porto ser apelidado de “Invicta”.















































































































































