Concertos Reportagens

Uma noite com Machine Head no Lisboa Ao Vivo

O regresso dos Machine Head a Lisboa, no passado dia 28 de abril de 2026, confirmou que a banda continua a ser uma das forças mais consistentes e intensas do metal contemporâneo ao vivo. Perante uma sala esgotada e um público algo heterogéneo (dos fãs de longa data aos curiosos mais recentes), o quarteto liderado por Robb Flynn executou um concerto sólido, sem concessões e com uma execução irrepreensível. A noite arrancou com a clássica intro “Bohemian Rhapsody”, dos Queen, música a que ninguém fica indiferente e que serve como ampulheta para o que está para vir. Para não variar, os Machine Head trouxeram consigo a dose certa de iluminação de alta gama, grandes ecrãs verticais e horizontais e, na nossa opinião, acima de tudo (aliás, abaixo de tudo, pois encontrava-se no chão), uma carpete gigantesca que cobria grande parte do palco.

Alguns colegas de imprensa avançaram que assim é porque o vocalista e dono dos Machine Head, Robb Flynn, cospe imenso durante um concerto. É uma sugestão justa. Em palco, qualquer fluido no chão pode significar uma queda aparatosa ou pior. Porém, julgamos que se trata de outra coisa mais subliminar e que a carpete simboliza o aconchego de casa, de tratar o palco como a sala de estar da banda, de tratar o público como convidados da casa da banda e, por último, de entreter o público e de o receber como igual, como parte da família. Entre 1933 e 1944, anos de intensas crises mundiais, o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt dirigiu-se ao público norte-americano através da rádio para explicar tudo o que se estava a passar no país, pela sua própria voz. Estas locuções, denominadas “Fireside Chats”, ou “Conversas à Lareira”, consistiram numa série de comunicações de interesse público do presidente para o povo americano, tratando-o como um igual, utilizando palavras simples para que qualquer cidadão o entendesse, e foram fundamentais para que o presidente acalmasse a nação com tamanha transparência.

Não só o mundo atual enfrenta perigos e ameaças nunca enfrentadas, como até no mundo da música se sente o caos instalado, um mundo em que toda a gente ganha dinheiro… menos as bandas. Talvez tenha sido esse o motivo que levou os Machine Head a criar, há alguns anos, uma digressão a solo com uma data em cada cidade tocando um set de 3 horas. Embora os Machine Head sejam uma banda da primeira liga, continua a ser um risco tremendo que os poderá deixar em maus lençóis se a afluência de público não se revelar suficiente. A julgar por Lisboa, assim como por outros palcos europeus, também eles esgotados, tudo parece muito bem encarreirado. Isto também porque os Machine Head apostam numa abordagem direta, centrada na música e na tal ligação com o público. E a melhor forma de demonstrar a já referida transparência é com ações, que falam sempre mais do que palavras. Dito isto, a banda descarregou, de rajada, “Imperium” seguida de “Ten Ton Hammer”. Poucos coletivos podem dar-se ao luxo de começar uma atuação com dois clássicos. Felizmente, o repertório dos Machine Head é todo ele clássico.

Robb Flynn, figura central da banda, demonstrou uma presença em palco segura e experiente, apenas mais um dia no escritório. Entre músicas, dirigiu-se várias vezes ao público lisboeta, alternando entre momentos de gratidão e discursos mais inflamados, típicos do seu estilo. Politics ain’t gonna save us. Millionaires ain’t gonna save us. Fuck those guys! A resposta da plateia foi imediata: aplausos de concordância e, mais importante ainda, pit circles frequentes para o público mais enérgico e, colados às grades, fãs a acompanhar cada verso e a dar o devido descanso a Flynn em determinados instantes. Três horas de concerto é tempo suficiente para rever uma carreira longa, a celebrar 35 anos e sem qualquer indicação de abrandamento, mas é de uma violência extrema aos 58 anos, os mesmos que pesam em cima dos ombros do vocalista dos Machine Head. Claro que temas mais antigos como “The Rage to Overcome”, “Davidian” “Old”, “A Thousand Lies” ou “Blood For Blood”, todos extraídos do seminal disco de estreia “Burn My Eyes”, foram alguns dos momentos mais altos do evento. Tendo em conta que os californianos têm pelo menos mais 5 discos dignos de nota em carteira, facilmente se explicou a lotação esgotada no LAV.

A qualidade sonora, que frequentemente apresenta grandes desafios em concertos de metal, esteve simplesmente cristalina, cada instrumento perfeitamente perceptível, o que permitiu distinguir nuances que muitas vezes se perdem em atuações ao vivo. Também a voz de Flynn se manteve consistente ao longo de todo o espetáculo, alternando entre agressividade e melodia, sem falhas, sem perder definição. Sem recorrer a encores prolongados ou a pausas excessivas, a banda manteve um fluxo contínuo, privilegiando a música e mais algum contacto com o público, terminando com outro clássico, “Halo”. Foi uma noite memorável, a décima oitava da banda em Portugal, que visita o país desde o seu disco de estreia. Em declarações à Música em DX, a organização, a cargo da debutante Serene Prophecy, confirmou-nos que os bilhetes estavam esgotados desde dezembro passado e que os próprios Machine Head é que escolheram a sala em que queriam tocar. Além disso, este foi o primeiro evento realizado por esta nova agência, o que por si só é uma declaração de força e alicerces robustos. Depois deste espetáculo, é fácil de perceber que Portugal ganhou uma nova equipa que, com certeza, muito mais felicidades nos dará futuramente.

Contas feitas, a atuação dos Machine Head em Lisboa saldou-se num excelente desempenho de uma banda clássica a tocar com muita intensidade e entrega perante uma sala esgotada, o que reforça a posição da capital como paragem obrigatória nas digressões europeias de bandas de grande porte do universo heavy metal. Mais do que isso, presença dos norte-americanos também evidenciou a vitalidade de um público devoto que continua a responder com entusiasmo a propostas irrecusáveis como esta. Para o público menos conhecedor, tratou-se de uma demonstração clara do porquê de os Machine Head continuarem a ser relevantes num panorama musical em constante mutação.

  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo
  • 20260428 - Machine Head @ Lisboa Ao Vivo