O interesse que sempre tive nos Suede advém de combinarem influências como o glam rock e uma melancolia típica dos anos 90, sendo David Bowie ou os The Smiths uma óbvia referência, em especial nos primeiros discos. Isso mais a escrita de boas canções, um cantor com um timbre facilmente reconhecível e distinto e guitarras sempre muito bem equilibradas e constantes em canções que se transformaram em hinos. Canções por exemplo como “So Young” ou “The Beautiful Ones” clássicos obrigatórios em cada apresentação ao vivo desta banda que acabou e depois voltou para uma segunda vida. Encontro neles uma personalidade e som próprios que na altura não encontrava em outras bandas que se limitavam a copiar umas às outras e eram terrivelmente aborrecidas, pelo menos na minha ótica, ostentando aquele ar de British Bad Boys e canções básicas sem qualquer profundidade lírica, hello Oasis. Mesmo nos anos obrigatórios de pausa, que parecem ser obrigatórios nestas bandas surgidas da Britpop, a carreira a solo de Brett Anderson sempre me pareceu muito mais interessante e despretensiosa do que qualquer esforço artístico de qualquer um dos irmãos Gallagher.
Vistas bem as coisas, a última vez que vi os Suede foi num concerto na Aula Magna em Lisboa, no fim da primeira fase da carreira deles, e admito: o concerto em questão naquela altura não me entusiasmou. Na passada sexta-feira, no Campo Pequeno, largos anos depois de terem ressuscitado, estou mais esperançoso. Parece que fazem agora o que querem e têm nos últimos discos sempre uma ou duas, ou três canções de que posso gostar. Que mais é que se pode pedir a uma banda que continua a produzir discos e não a viver de glórias passadas em espetáculos de saudosismo?
A noite iniciou-se com a banda de primeira parte, os Swim School, banda escocesa formada em 2018 que se apresentou com um registo pontuado por guitarras intensas de escola shoegaze e indie rock; uma cantora que canta a plenos pulmões as melodias das canções e tem um registo vocal de plena voz que paira sobre as guitarras e intensos ritmos com elegância e um timbre juvenil. Gostei dos momentos em que fizeram mais “barulho”; nos momentos mais calmos soam aos meus ouvidos, por vezes, demasiado mainstream, talvez por “culpa” do timbre da cantora Alice Johnson, o que pode ser bom para o futuro da banda. Destaco desta curta atuação uma canção que penso chamar-se “Let Me Inside Your Head” e “Always On My Mind”. São uma banda com alguns EPs editados e um primeiro álbum homónimo editado em 2025. Investiguem, são giros e coloridos. Demonstraram estar felizes por cá estar e foram competentes no difícil trabalho de banda de abertura.
Foi bastante surpreendente o que aconteceu a seguir com a entrada em palco dos Suede pelas 21 horas; entraram com uma energia que não os iria abandonar até darem por concluído o concerto, em especial Brett Anderson, que esteve em modo máximo durante todo o concerto. Arrancam com “Disintegrate” do disco que andam a promover nesta digressão europeia, ‘Antidepressants’,” é uma boa canção rock com um refrão orelhudo como sabem e sempre souberam fazer; o disco está consistente embora esteja certo que não vou ouvir a minha faixa favorita do mesmo neste concerto: “Life Is Endless, Life Is A Moment” um épico longo e negro com laivos de The Cure, no fundo será minha única decepção da noite. Mas o alinhamento trouxe algumas surpresas e mexidas face à noite anterior no Porto. O som, embora não perfeito como é costume nesta sala, parece beneficiar da energia da banda e do seu vocalista, este que de forma endiabrada conduziu o concerto como um portentoso mestre de cerimónias em cima do palco e fora dele, em vários momentos a cantar também no meio da multidão aos abraços aos fãs.
São raras as noites assim. Que grande concerto, não pela duração, embora os Suede tenham entregue à volta de 19 músicas em exatamente uma hora e 20 minutos e ainda voltaram depois para mais uma canção no encore. Foi um grande concerto pela energia e pela entrega, e esta entrega foi tão surpreendente que só quem lá esteve, ao ler estas palavras, compreende.
Falando das canções, muitas músicas do novo disco que são bem conseguidas, mas a energia rock deste novo disco passa para a execução dos clássicos, que aparecem encadeados naturalmente no alinhamento; os primeiros clássicos, “Trash” e “Animal Nitrate” ou “The Drowners”, são logo servidos de seguida para emocionar a audiência. No fundo, fomos sempre servidos de canções da nova vida dos Suede, como a bonita “June Rain” ou “She Still Leads Me On”, para dar dois exemplos, e outras da antiga vida dos Suede, como “Film Star” ou “Can’t Get Enough”, ou a lindíssima “Indian Strings” do álbum ‘Head Music’, a fazer uma entrada inesperada no alinhamento. Do novo disco, “Trance State” é um clássico Suede com melodias e refrão apelativo. São canções que demonstram maestria da banda toda, as guitarras de Richard Oakes por vezes cheias de pedais de phaser e overdrive que enchem o corpo sonoro, secundadas pelas guitarras de Neil Codling e os seu teclados que enchem a sala, suportados pela secção rítmica, Mathew Osman no baixo e Simon Gilbert na bateria. A juntar a tudo isto Brett Anderson, um cantor que não para nem dá descanso à voz durante a duração desta cerimónia. Uma verdadeira banda Rock que transcendeu o género Britpop. Na reta final do concerto, destaco “Still Life”, com Brett a ser acompanhado pelo piano de Oakes, foi um momento singular e muito bonito, com uma ovação gigante no final. A seguir veio a inevitável sucessão dos obrigatórios clássicos “Everything Will Flow”, “So Young”, “Metal Mickey” e “Beautiful Ones”, nesta última canção, metade dela foi cantada por Anderson no meio da audiência, estando a mesma em festa. Perante uma sucessão de canções assim, o concerto estava feito. Voltaram depois para um encore que não soube a muito, com uma canção do novo disco, “Dancing with the Europeans”. Mas já estávamos todos de barriga cheia; teríamos certamente ouvido mais, mas quem se pode queixar? Foi um concerto que certamente ficará para memória futura como um dos mais surpreendentes de 2026.













































































