Na noite de sábado 14 de março o Capitólio encheu para receber os Expresso Transatlântico que se apresentaram a lançar o segundo longa duração Trópico Paranoia com duas datas em Lisboa e Porto.
O trio formado por Rafael Matos, Sebastião e Gaspar Varela acompanhado por mais dois elementos nas teclas e baixo, subiu ao palco pouco depois da hora marcada para se encontrar com uma sala quase repleta.
A banda que segundo os próprios não aconteceu de imediato. Uma evolução do gozo que partilhavam em trocar ideias sobre música uns com os outros e experimentar fazer coisas novas, foi apenas acontecendo na medida da vontade dos três mas principalmente como parte da jornada de descoberta de Gaspar Varela quanto ao caminho a seguir após os dois discos editados a solo e uma tour com Madonna.
Descoberto o caminho com o EP homónimo em Novembro de 2021 e o primeiro disco Ressaca Bailada em 2023, Trópico Paranoia editado no final de Janeiro estende-se um pouco mais além do que já haviam trilhado.
Expresso Transatlântico em si, tem muitas camadas de som e paisagens que se estendem muito para lá deles próprios. As influências que os alimentam já não terão tantos pontos de contacto com a minha experiência, e acho que por isso me é mais difícil perceber certas nuances. Mas ali pelo meio ouvimos claros ecos de Dead Combo (atentem por favor em “Alfama, Texas” ou “Bombália” e sente-se aromas de “Club Makumba” e até um travo de “Black Bombaim”. Até fizeram uma música para os Dead Combo; O Gangster (canção para Dead Combo) que está no primeiro registo.
Isto tudo para dizer o quê? Ritmos da música popular portuguesa, brasileira e africana numa intersecção entre algum rock/pop e fado, é como aparece em algumas coisas que li. Trópico Paranoia vem revelar o lado exploratório em coisas como Nikita Punk.
O que é que os Expresso Transatlântico têm em comum com as bandas que citei atrás? Instrumentais e algumas raízes.
Há ainda a componente visual, de contadores de histórias trabalhada por Sebastião Varela, como mais uma peça do puzzle de Expresso Transatlântico e que por cá se encontra paralelo em Legendary Tigerman ou novamente dos Dead Combo (as personas e personagens diversas encarnadas pelos músicos em paisagens/ambientes, ou os vários trabalhos de e para cima de ambos são disso um excelente exemplo ) e que originou o filme Ressaca Bailada –Filme Concerto que vai passar na RTP2 nos próximos dias.
A forma como brincam com as palavras nos títulos escolhidos para as músicas remete para um humor muito particular. Optimista mas sempre um bocado negro, ou uma forma muito interessante de olhar a portugalidade tão vincada na música e ao mesmo tempo a abrir os braços para um sentimento altamente cosmopolita.
Também existem também diferenças desde o início. O terem-se construído com uma sonoridade de guitarra portuguesa lá no meio. Não é ter participações especiais, é uma banda em que uma das guitarras é uma guitarra portuguesa. O ponto de partida quer seja pela ligação familiar que têm à música, seja pela exposição que por exemplo Gaspar Varela já teve e que é completamente diferente do ponto de partida na música.
Chegados a esta noite anunciada desde o ano passado, a banda vinha com vontade de pôr o Capitólio a mexer. Pessoalmente o público não me pareceu muito cooperante entusiasmados e felizes mas com não com a energia que a banda procurava, e eles bem puxaram pelo público, seja através do incitamento puro e duro seja através de momentos de contestação que atravessam várias gerações trazendo à baila questões como a habitação, aproveitando para mandar o Moedas para o C****** . Fui ver algumas coisas da noite anterior no Porto e o público pareceu me muito mais animado, o que não deixa de ser engraçado por me parecer que os lisboetas ficasse mais animados com esta fusão de guitarra portuguesa noutros ritmos paisagens mais contemporâneos, mas vídeos gravados em telefones moveis também podem ser enganadores.
Do disco novo só ficaram por tocar “Fugi ao Nevoeiro” e “Fim de Festa“, a playlist está no final. Avalanche e Trópico Paranoia que abriram o concerto, serão talvez a parte de Nikita Punk as músicas mais equilibradas e mais diferenciadas do disco anterior. Mais cheias e mais redondas. Mas o que me pareceu diferente foi mesmo o espaço ocupado por cada instrumento nas músicas. Parece mais equilibrado (pózinhos de perlimpimpim da produção de Paulo Furtado possivelmente). “Tigre da Serra” e “Bruxa do Caramelo” (suposta entidade que até a enquanto lhes espantou enquanto gravavam o disco algures longe de Lisboa) mais suaves e menos hipnotizantes que as anteriores fazem ali o pequeno interlúdio, mas fazem com que a entrada de Bairro Fantasma seja ainda mais marcante. O momento de homenagem a Carlos Paredes é arrumado com “Movimento Perpétuo” e “Canção” que fazem a ponte para o regresso ao inicio com “Bombália” e “Beco da Malha”. “Canção para a Madrugada” e “Coro dos Mudos” culminam em “Azul Celeste“, música em que homenageiam Celeste Rodrigues a bisavó que com todo o enlevo os influenciou.
A noite terminaria com algum crowd surf de Gaspar Varela, e um contínuo incitamento à dança e o apelo à contestação generalizada do inferno em que a classe política nos vota diariamente com a batida forte de “Nikita Punk” e o bonito “Não Pares Povo”.
Ainda deve de existir muito por ver deste trio, tanto em palco como fora dele, por isso não espanta de facto que estejam a chegar a tanta gente. Eu estou curiosa. Curiosa com o que a rodagem em palco vai fazer a este disco e com o que este trio ainda terá para mostrar para além do que já fez. Os tempos avizinham-se estranhos e eles parecem querer capturar esta atmosfera de filme série Z e musicar um grande baile para espantarmos os nossos males.

























































