Quantos dias cabem num dia? Em Coura perdemos a conta aos dias que vivemos num só dia.
Apesar de uma semana passar a correr, como tudo na nossa vida a partir de certa idade, os dias são cheios, intensos e com uma alma que absorve várias vidas e vivências, tornando sempre a experiência diária em várias experiências capazes de nos fazer melhores pessoas e, também, mais felizes.
A alma sai sempre renovada e o coração cheio de música e encanto.
Coura é uma terapia para curar a depressão e é preciso fazer terapia para curar a depressão pós-Coura. Mas não é isto que torna as coisas bonitas? Quando são tão boas que nos deixam com um vazio tão grande de saudade ao ponto de nos porem a contar os 365 dias que faltam até à edição seguinte.
Este texto lamechas para dar início ao último dia de festival que amanhece sempre coberto de nostalgia, mesmo que ainda não tenha passado.
É, também, neste último dia que se realiza a conferência de imprensa onde se aborda o balanço destes dias e o futuro do festival.
Marcaram presença João Carvalho da organização, Leonor Dias da Vodafone, Vítor Pereira, Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura e Catarina Soares da Ritmos, Lda.
João Carvalho afirma que é mais um ano com balanço positivo, com Lola Young a chegar ao recinto com um ataque de ansiedade e a sair a chorar a dizer que quer viver em Portugal, com a Zaho de Sagazan a dizer que deu o melhor concerto da vida dela a revelar que esta é a alma do festival. Um festival diferente, com um público fantástico, com ternura, valores e princípios, onde tudo corre sempre bem a nível de segurança.
Tiveram uma lotação de mais de 120 mil pessoas, que esta foi a melhor edição de todas e que ainda vamos ouvir falar muito destes artistas que pisaram os palcos do recinto. É um festival que é uma força económica para a vila, onde trabalham 200 mil pessoas, muitas delas família da organização e que todos os anos implementam melhorias, tentando criar melhores condições. Agradece aos patrocinadores e a toda a gente que contribuiu para que o festival exista.
Leonor Dias diz que é muito bom ler as mensagens e os textos das pessoas sobre o festival e que a Vodafone impulsiona carreiras e dá a mão aos artistas em crescimento. Este festival é o maior exemplo do que há de melhor na vida e renova a parceria para o ano seguinte.
Vítor Pereira afirma que o que faz este festival crescer é a capacidade de arriscar, misturando a emoção com negócios.
O Vodafone Paredes de Coura está de regresso de 12 a 15 de Agosto de 2026 e já há duas bandas quase fechadas.
No recinto, o dia começou no palco secundário com a estreia de Chastity Belt. A banda, outrora composta por quatro mulheres, apresenta-se agora com três e um homem que, também, canta. Trouxeram um indie rock com muito de rock alternativo dos anos 90 e, até, um ligeiro noise. A voz de uma delas tinha traços de Hope Sandoval e, por vezes, o instrumental poderia ir beber a Mazzy Star. Com 15 anos de carreira, sabem o que querem e onde querem nos querem tocar, trazendo um concerto sólido com melodias cativantes e um cheiro a banda americana que se sente ao longe (sendo isto um elogio, claro).
Também dos Estados Unidos, mas num registo diferente, mais intenso e majestoso. Era a quarta vez que via DIIV e em 2018, naquele mesmo palco, horas mais tarde, deram um dos concertos da minha vida. É esse o poder destes rapazes de Brooklyn: a transcendência que atingem em cada concerto. A entrega que dão e que nos dão, sem necessitar de muito, só estar, tocar e sentir. Este concerto não foi como aquele, e duvido que algum volte a ser pois aquele tinha uma carga catártica de renascimento. Os DIIV já estão agora consolidados e sãos (espero) e o que podem fazer é continuar a criar e criar-nos.
O concerto começou como uma apresentação da banda em vídeo e com uma espécie de slogan do concerto “sound, mind and body” que, efectivamente, faz jus a cada segundo que nos oferecem em cima do palco. A música que fazem tem tanto dentro dela que se entranha na mente e no corpo de tal forma que nos deixa atordoados.
Os concertos de DIIV são uma viagem que se faz de olhos fechados para conseguirmos absorver as camadas de força e expressividade de cada acorde. As distorções são cada vez mais trabalhadas e as texturas sonoras criam atmosferas demasiado densas tornando o estilo shoegaze cada vez mais destacado na banda. Não faltou muito para ter os pêlos todos em pé e uma sensação de leveza indescritível. DIIV tem este dom! O dom de nos pôr a caminhar pelas texturas que criam, perdendo a noção de tempo e espaço. Guiando-nos, muitas vezes, para outros espaços. São loops e loops de deleite auditivo onde podemos viajar, dançar suavemente e, até saltar.
Apesar dos olhos fechados, convinha ir espreitando os vídeos em jeito de protesto contra o estado do mundo (consumismo, guerras, saúde mental, fast food de tudo) e, principalmente, contra os Estados Unidos (America Is The Great Satan).
Os DIIV focaram o alinhamento no Frog In Boiling Water sem deixar a restante discografia os êxitos mais marcantes de lado como “Under The Sun”, “Take Your Time”, “Blankenship” e “Doused” para encerrar em conjunto com um vídeo de agradecimento e despedida. Nós é que agradecemos a viagem e o sonho!
Em jeito de sonho também, mas mais ténue, vinha Sharon Van Etten com The Attachment Theory. Sharon é uma musa! É, talvez, a minha cantora preferida da era moderna e comparo-a muitas vezes à Patti Smith de agora.
Sharon Van Etten é uma musa do rock, uma mulher que sente, toca e canta com a alma ferida e curada, que nos toca de todas as formas. No lusco-fusco do anoitecer, mais uma vez, deu um concerto bom, não incrível, mas bom. Talvez por culpa deste Attachment Theory, talvez por lhe encherem as músicas de sintetizadores quando não são necessários. Foram sete de dez, as músicas que apresentou deste novo disco começando com “Live Forever”, “Afterlife” e “Idiot Box”, tal como no alinhamento do disco. Nota-se que é um momento em que precisa de sentir o presente e aceitar tudo o que lhe possa trazer. Fazer as pazes com o mundo e o seu interior, apaziguando tudo à sua volta. O que assistimos foi, talvez, a um momento de liberdade genuína de quem ama a vida na sua plenitude. O que é muito bonito! Pessoalmente, espero que a Sharon antiga volte e me traga novamente a electricidade do rock que tão bem sabe fazer e a garra que tão bem a caracteriza. Levou o público ao êxtase com “Everytime the Sun Comes Up” e “Seventeen” que deixou, sabiamente, para o fim.
Uma excelente surpresa viria a seguir com os Warmducher. Banda de cinco elementos com teclas, distorções, beats e muita loucura.
A sonoridade remete para um belo cocktail de bandas e influências onde o post punk, o garage e o electro são os ingredientes principais. “We are Warmducher and this is what we do” afirma Clams Baker Jr que nem precisava de o dizer. A sua performance e presença são o perfeito cartão de visita desta banda que tem dois elementos de Fat White Family e isso também diz muito acerca deles.
Poderia dizer precisamente que um concerto deles é uma mistura de Fat White Family com Viagra Boys e um banho a mais de insanidade dançável. Instrumentalmente são músicos com as capacidades certas para nos deixar o corpo com um formigueiro inquieto. Num estado tal que remete aquele ponto entre a loucura e a perdição.
Este concerto de Air serviu para reforçar a ideia que tinha de concertos de Air em horas tardias em festivais. A ideia é que não resulta! Mesmo com a celebração de Moon Safari, mote da tour. Air é daquelas bandas que a ir a festival, teria de ser a uma hora onde as pessoas ainda estão tranquilas, a ganhar espaço e a absorver lentamente tudo à sua volta. Trocar este concerto com o de DIIV teria sido uma boa opção, por exemplo. Porque às 23h as pessoas estão cansadas, algumas já em esforço para conseguir ver tudo e uma quebra destas ajuda a ir jantar ou a querer ir para casa, o que não é bom nem para a banda nem para o público. Apesar de terem músicas muito boas e com composições a nível da electrónica de louvar com paisagens espaciais e sensoriais divinas, é algo demasiado lo-fi e, se não acontecer uma das duas coisas que referi, as pessoas começam a falar durante o concerto (que estava a acontecer ao meu redor). Quase no final do concerto ouvi ao meu lado: “Isto está bué lento para mim, não era o que eu precisava a esta hora.” e está tudo dito.
No preciso momento em que Franz Ferdinand entram em palco, começa a chover. A Chuva durou um minuto mas serviu para cumprir com a tradição do festival e tornar este momento de fecho de palco bonito e especial. Claro que chegaram e arrasaram. Claro que levaram a plateia ao rubro e, apesar de pensar que iriam apresentar o mais recente trabalho (tocaram apenas quatro músicas), mostraram-nos um desfile de hits que nunca mais acabava. Durante mais de uma hora o público dançou sem parar ao som do seu dance rock new wave artie e celebrou com eles a comunhão que é este festival. Foi uma tremenda entrega geral que nos deixou a todos felizes e em êxtase. “No You Girls”, “Do You Want to”, “Walk Away”, “Love Illumination”, “Take Me Out” e “This Fire” não puderam faltar ao desfile.
Após esta festa, veio o momento mais mágico do festival com o habitual resumo dos melhores e mais bonitos momentos da edição na companhia da “All My Friends” dos confetis e das bolas.
As bolas seguiam para o palco secundário onde nos esperava mais um momento intenso cheio de densidade musical.
Os Gurriers são uns miúdos insaciáveis do post punk com uma carga bastante vincada de revolução e revolta. Têm aquela acidez irlandesa a percorrer-lhes as veias e uma presença em palco digna de verdadeiros animais de palco. São uma banda recente e a volta ao mundo que já deram faz com que saibam bem o que estão a fazer e por onde querem ir. Deram-nos um concerto estrondoso, electrizante, que ajudou a libertar os poucos demónios que ainda podíamos guardar. Foi curto e grosso, tal como deve ser e o caminho para casa fez-se em bicos dos pés.
O Vodafone Paredes de Coura continua a ser um festival encantado. O ambiente ainda não se corrompeu e o line up continua a surpreender. Eu, pessoalmente, ano após ano, vejo concertos da vida naquele espaço deslumbrante à beira rio.
É um festival de amor, amizade, reencontros e encontros, do mosh, do crowdsurf e, especialmente, onde nos sentimos em casa.
De ressalvar a forte componente de intervenção das bandas que, na sua maioria, apelaram pela libertação da Palestina.
Vemo-nos em 2026!



























































































































































































































































































































































