Backstage

Subterrâneos, Uma nova forma de olharmos para dentro de nós

Por vezes somos obrigados a parar, a descansar, a ver, a ouvir, a reflectir. Quando somos obrigados a isso, como não é algo que estejamos a fazer livremente, mostramos alguma resistência inicial. Essa resistência vai-se diluindo ao passo da nossa força, deixando-nos despidos e translúcidos e com possibilidade de nos podermos conhecer melhor a nós e aos que nos rodeiam. 
No fundo, não descuidando tudo o que esta guerra invisível nos trouxe, este foi um dos marcos importantes do indivíduo enquanto ser humano ao longo deste longo período que atravessamos.

Foi com este mote e com o auxílio do tempo livre deixado pela pandemia que O GAJO compôs aquele que é o seu terceiro disco.
Com um talento intrínseco e uma visão inovadora do que poderá fazer com ele, João Morais, é o gajo por detrás deste projecto. Nele dá voz ao som excêntrico da guitarra campaniça, por muitos desconhecida e por outros adorada, e ajuda-nos a seguir um caminho mental onde as sensações estão à flor da pele e a envolvência com os acordes nos guiam numa dança flutuante. 

Foi com a vontade de tocar sempre de maneira diferente nos ouvidos, na alma e na vida das pessoas que este Subterrâneos vê hoje a luz do dia, aperfeiçoado por mais dois grandes talentos (Carlos Barretto no Contrabaixo e José Salgueiro na Percussão) assumindo, pela primeira vez, um formato de trio. 
Composto por 10 capítulos, este disco tem muita história e estórias para nos contar. Subterrâneos consegue levar-nos a bordo de um barco onde vamos cruzando diversos estados de agitação marítima. Durante o percurso, há uma ansiedade que vai crescendo no peito. Uma ansiedade pela descoberta e pelo sabor da vida. O barco não é um pequeno barco de madeira, mas sim um do tamanho de todas as emoções que vamos sentindo e exprimindo. A bateria marca o passo e algumas inquietações que nos vão rondando, o contrabaixo acalma o bater do coração e aconchega-nos quando precisamos enquanto que a viola campaniça nos revela as paisagens e as histórias dentro delas. Ao terminar a viagem, quase nos falta o ar devido à quantidade de experiências sensoriais que vivemos, aos pensamentos que nos absorveram e ao vislumbrar um mar calmo de esperança. 

Foi no âmbito da criação e lançamento deste novo disco que o Música em DX esteve à conversa com João Morais

Música em DX (MDX) – A título de curiosidade, gostava de saber se tens saudades do punk rock ou a campaniça tem sido um bom refúgio?

João Morais (JM) – A campaniça está a completar todo o espaço e ainda bem. Tenho saudades de fazer música que assenta noutro nível de energia e intensidade. No entanto, depois de passar o país a pente fino percebe-se que os espaços são tão limitados que a motivação para fazê-lo acaba por desvanecer. Tenho vontade de me juntar a uma banda, tocar e fazer coisas mais pesadas e a abrir, até porque ouço muita música assim, mas sei que o país não está a pedir isso e é como se estivesse a falar um pouco para as paredes. Eu sei que ainda há quem ouça, só que esse grupo é muito pequeno. Chegou a um ponto em que deixou de fazer sentido para mim, já não estava em sintonia com o que se estava a passar. Quando estás sozinho nessa situação sentes que o que queres dizer já ninguém quer ouvir. Agora com a viola foi um pouco diferente, houve um reformular de ideias e a música também mudou e de repente, sinto que o que estou a fazer tem alguém do outro lado. Tem um emissor e um receptor e portanto faz mais sentido assim. Pode mudar daqui a um tempo, mas para já faz mais sentido assim.

MDX – Quero que me fales um pouco desta ideia de gravar em trio. Queria saber se a ideia veio dos concertos do disco anterior, com convidados em palco ou se veio de outro sítio. 

JM – Veio de outro sítio. Acima de tudo, cada disco começa com a ideia de que tem de ser distinto do disco anterior e portanto, neste caso, o primeiro disco foi completamente a solo, o segundo disco tinha uns convidados para fazer algum teste e este terceiro disco acho que o que precisava era de abrir a porta a uma espécie de trio mais consistente que já fizesse a maioria dos temas. Claro que não foi só a ideia de fazer um trio, é este trio! Estas pessoas tiveram uma importância muito grande na minha decisão de realmente levar esta ideia avante. Portanto, acima de tudo, foi não repetir as fórmulas dos discos anteriores. Este disco será isto depois o próximo logo se vê, a única coisa que as pessoas podem saber já é que o quarto disco não vai ser em trio, se não seria repetir a fórmula. Isto já vem de trás, mesmo com as bandas tentei sempre com que fossem diferentes umas das outras e quem conhece o meu percurso acho que sabe isso. 

MDX – Sendo músicos de jazz e de improvisação, como foi conjugar tudo? Não te assustou um pouco? 

JM – A única questão é quando percebes que a fasquia está num sítio onde tu, por muito que saltes, parece que nunca vais lá chegar. Como já conhecia o Carlos Barreto e percebia que dentro daquela pessoa está um ser humano cheio de qualidades, muito generoso, curioso, para além de ser músico e que ele também nutria uma proximidade pelo projecto e por mim, o alicerce foi esse. Se fosse, por exemplo, a parte técnica, estaria fora de questão estarmos a tocar juntos porque eu estaria a léguas de conseguir ter o nível técnico que eles têm. As composições partiram de mim e isso facilitou-me muito, eu não tive de ir atrás de ninguém, eles é que fizeram esse trabalho de ir atrás daquilo que eu lhes apresentava. Claro que trabalhei para ter o melhor que conseguisse ter naqueles meses em que estive a compor. Tentei esmiuçar até à última pinguinha, a melhor música possível para que eles sentissem entusiasmo em trabalhar comigo. Depois, também percebo que o Salgueiro tem essas qualidades, que não vão para ali a ver se estás a dar um prego e aquilo que interessa é o vibe geral e sentir que a música tem personalidade, um bom groove, originalidade… eles gostam do som do instrumento também, sabem que sou muito organizado e isso também é bom. Nesse aspecto acho que os primeiros encontros mostraram que não íamos ter um percurso chato e cansativo e como começou logo a correr bem, o estúdio foi uma limpeza. Foi chegar lá e gravar tudo de rajada. Foi muito bom perceber que a energia foi sempre boa e foi bom porque estávamos numa fase como esta pandémica, em que a energia é má de uma forma geral, principalmente nesta área cultural, e nós conseguimos tirar uma coisa tão boa desta negritude toda. 

MDX – Compuseste tudo durante a pandemia ou já tinhas algumas coisas antes? 

JM – Na realidade o que se passou foi que eu esmiucei as minhas ideias todas para o álbum anterior, porque eram 20 músicas, era no fundo um álbum duplo, e tudo o que eu tinha estava encaixado ali dentro. Diria que tinha limpo o meu telemóvel das ideias durante o ano de 2019 para fechar esse disco. Portanto eu comecei o ano de 2020 com a perspectiva de fazer um ano sem composições, simplesmente tocar o máximo possível ao vivo e descansar um bocado porque 2019 foi uma loucura, foram quatro lançamentos de três em três meses. Em Março, quando isto fecha eu estava com meia dúzia de ideias já gravadas no telemóvel mas nada que se parecesse com um disco por isso eu diria que a partir de Março é que começa a composição a sério. 

MDX – E como foi esse processo de composição durante esta pandemia, com toda a conjectura que já tinhas falado antes, da negritude e tristeza?

JM – Nessa fase eu estava em casa com a família e portanto a decisão de fazer um disco foi automática. Ficar em casa não era solução, não havia concertos e teria de ser fazer um disco. Não sabia quanto tempo é que ia demorar ou não mas como também tenho uma sala que só utilizo eu, basicamente passei esses primeiros três ou quatro meses, até Julho, completamente sozinho a compor. Fazia no estúdio, ouvia no carro e em casa, depois no dia a seguir acrescentava alguma coisa e foi acontecendo assim. Em Abril candidatei-me a um apoio do fundo cultural para a criação e consegui esse apoio. Esse apoio deu-me uma espécie de um valor mínimo por mês durante quatro meses e, portanto, eu também ganhei uma certa confiança aí, uma confiança de que por um lado tive um aval de alguém que achou que este projecto valia a pena avançar e, depois, a nível financeiro também ajudou a ter ali uma almofada que me dava alguma segurança e me deixou mais descansado. Portanto durante 4 meses estive sozinho e depois apresentei a primeira ideia ao Carlos Barreto e ele gostou logo! Depois eu disse-lhe “só me faltava agora era um percussionista” e ele disse logo que ia falar com o Salgueiro e pronto! A partir daí comecei a organizar as minhas músicas de forma a ter um princípio, um meio e um fim e a enviar-lhes. No verão começaram a haver uns encontros esporádicos e o processo foi fluindo. Depois também andei a ler mais coisas, a pensar em conceitos, a pensar o que ia chamar ao disco, o design, tudo isto é um conjunto de coisas que são importantes. Cada música tinha de ter algo individual para comunicar e, portanto, tudo isso dá muito que fazer e ainda hoje parece que ainda não parei essa corridinha. 

MDX – No disco anterior tiveste a voz de José Anjos. Gostava de saber se idealizaste alguma voz para este disco ou nem te passou pela cabeça? 

JM – Quando arranquei com este disco pensei sempre em alguns convidados. Claro que o Carlos Barreto e o José Salgueiro já seriam uns convidados de luxo mas numa primeira fase houve sempre a ideia de o que é que poderia ser uma novidade e por acaso lembrei-me de convidar a Lula Pena para cantar numa música. Gosto muito do trabalho dela, acho que tem um trabalho muito personalizado e acho que se encaixava numa determinada música, mas não aconteceu porque nunca obtive resposta, mas isso não retira em nada aquilo que eu gosto no trabalho dela. As coisas são mesmo assim, quando nós atiramos o barro à parede, ele pega ou não pega. Não podemos achar que lá porque atiramos ele tem de pegar. Depois convidei os outros dois violeiros da campaniça para fazerem um tema comigo que me deu muito gozo experimentar. Trazer mais umas campaniças para e fazer as coisas um bocado em uníssono, um bocado à hard rock mas com bom gosto. 

MDX – A ideia de ir mostrando os excertos das músicas em vídeos é muito interessante. É para criar mais curiosidade e vontade de ouvir o disco? 

JM – Achei importante fazer isso! Para comprar o disco, as pessoas têm de sentir curiosidade e esses vídeos podem tirar essa dúvida e como eu acredito muito no disco, acho que esses excertos são importantes e vão ajudar.

MDX – Criaste as músicas com a ideia de cada uma antes ou compuseste a música e depois ligaste as músicas a estes conceitos que vais explicando? 

JM – No fundo, é um processo que acontece ao mesmo tempo. Não acontece eu fazer a música e depois ir buscar uma vibe para ela. Quando tenho o início de um tema, ele dá-me uma determinada vibe e eu vou buscar as minhas histórias, que estão todas apontadas, e colo uma à outra e o resto da narrativa da música já tem uma orientação e vai-se desenrolando. É algo que acontece ao mesmo tempo. Quando eu tenho uma boa malha, essa malha depois já me orienta o caminho. 

MDX – No vídeo da “A Cidade Fantasma” tu dizes que aquela música é o espelho de uma cidade deserta mas com muita vontade de se libertar. Explica lá isso. 

JM – O que eu quero dizer é que a nível da cidade deserta é como encontramos nesta pandemia e depois, a libertação, no fundo é a vontade das pessoas irem para a rua dançar. Por exemplo as descidas da Avenida no 25 de Abril, ou os Santos Populares é um bocado esse tipo de liberdade. Essa música puxa muito ao pezinho de dança e pode ser a banda sonora desse momento. 

MDX – Na “Morfeu”, dedicas a música ao Mark Sandman de Morphine, é ele o teu deus do sonho? 

JM – Não. Eu vi a explicação dele sobre a escolha do nome Morphine e achei engraçado. Ele começou logo por dizer que o Morfeu é o deus do sonho. A morfina dá-te um pouco sonolência e imagino que tenhas um bocado essa sensação de entrares noutro espectro qualquer e o Deus do Sonho aqui é porque não quero relacionar Morfeu com as drogas, não faria sentido, mas queria relacionar com o Mark, porque eu sou fã de muitos artistas mas a história dele é uma história que me tocou mais do que, talvez, outros dos quais até gosto mais da banda. A história dele é trágica, é brutal, mas ele é um homem tão talentoso e tão verdadeiro que representa muito aquilo que eu sinto que quero ser sempre, tirando a parte da morte e das drogas, claro. É um artista que respeito muito e que sempre me tocou muito. Fui buscar esta referência de fora porque, de uma forma geral, tenho concentrado a atenção em Portugal. Porque quero afirmar um bocadinho a identidade do projecto, já me inspirei demasiado no que vem de fora e, nestes últimos anos, tenho tentado focar a atenção em Portugal. Neste caso, saltei até ao outro lado do Atlântico. 

MDX – Em relação à capa, ao nome do disco, queria que me explicasses um pouco todo o conceito. Já percebi que “Em Marcha de Escarlate” vês umas figuras distorcidas de nós próprios… 

JM – A ideia de Subterrâneos surge relacionada com várias coisas. Por exemplo, alguns dos textos da literatura mais libertária que fui lendo ao longo do tempo, e com a qual me identifico bastante, têm uma editora que se chama Textos Subterrâneos. Depois o facto de ter crescido numa onda de música que sempre foi chamada de underground. Depois o facto de o nosso Eu interior, a pessoa que somos cá dentro, nem sempre ser o que mostramos cá fora. Tens uma grande pinta e até pareces um gajo muito simpático mas depois revelas o teu eu interior e aquilo é um buraco negro. Como este disco é filho de uma pandemia, e esta pandemia teve essa particularidade, cortou a nossa relação com os outros e aproximou-nos de nós próprios. Ora, nós não estamos acostumados a fazer esse tipo de introspecção ou trabalho de estarmos mais tempo connosco, nos conhecermos melhor, de termos de lidar com os nossos familiares próximos de forma tão regular, tão constante e, portanto, isso veio revelar aquilo que nós somos e, muitas vezes, veio revelar coisas horríveis. Como por exemplo o aumento da violência doméstica e dos garotos terem hoje em dia mais problemas porque as situações em casa não são boas, o que não falta aí são seres humanos completamente desprovidos de humanidade e são muitos! O problema é que normalmente andam aí bem vestidos e arranjados e não sabemos o que eles são por dentro e como esta pandemia veio revelar um pouco essas situações, eu diria que este disco é um pouco o revelar da minha, do Carlos Barreto e do Salgueiro e daí ser os Subterrâneos, os nossos Subterrâneos! Mas obviamente que, globalmente, ele quer ser um bocado transversal e mostrar umas figuras disformes que podiam ser as nossas que, no fundo, é aquilo que eu sou. 

MDX – Fala-me da capa e da ligação com o Mutes. 

JM – Quando eu entro em contacto com o trabalho do Mutes, porque ele me contactou porque estava a meio de um trabalho a ouvir a minha música, ele enviou-me o que estava a fazer e eu depois fui conhecer o trabalho dele e desafiei-o a fazermos esta parceria. Ao conhecer o trabalho dele não quis que ele fizesse uma capa especificamente para o disco, porque acho que isso seria uma aventura que não fazia sentido. Sabes que às vezes podes encomendar qualquer coisa e não receber aquilo que esperavas. Mas achei que ele tinha já um ou dois ou três trabalhos que se encaixavam perfeitamente naquilo que procurava, confesso que não procurei muito, foi ver e perceber que aquele era bom! Depois tornou-se importante ter o Mutes como parceiro, porque eu acho que é um artista talentoso, português, gostei das figuras, a Marcha em Escarlate não é um nome que tenha uma ligação directa com alguma coisa, portanto podia ter o meu conceito ali metido… Isto foi fechado num instantinho e foi um bom encontro. Fiquei muito feliz por ter um trabalho dele no disco, ainda por cima conseguir adaptá-lo ao disco de forma a não mexer em nada, ou tentar mexer o menos possível. 

MDX – Vais ter um evento de apresentação do disco num Convento, em Alcântara. Porquê chamar a este concerto de ensaio?

JM – Há duas coisas que te vão deixar esclarecida. A primeira é que vai haver um concerto de lançamento do disco e, portanto, a ideia seria nunca sobrepor as coisas. O concerto será um concerto com público. Está marcado, apesar destas incertezas todas… Eu julgo que vai acontecer, mas ser um concerto de lançamento já iria comprometer o concerto de lançamento. Depois esta ideia surge quando eu percebo que o concerto que tínhamos marcado para 15 de Março foi desmarcado e o dia 15 de Março ia ficar sem nada. A minha primeira ideia foi levar o meu computador para a sala de ensaios e tocar ali em directo, falar um pouco com as pessoas, fazer um brinde… isso seria um ensaio… nunca seria uma formalidade de um concerto. A ideia base disso até foi criada pela Sara Espírito Santo, da comunicação, ela é que pensou “vamos fazer uma coisa qualquer no dia do lançamento” e surgiu isso. Só que depois havia já contactos feitos com a Junta de Freguesia de Alcântara porque eu tinha ideia de fazer um video-clip aqui na zona de Alcântara, entretanto recebemos a resposta deles a pedir para fazer uma reunião. Fiz uma reunião com a agência e decidimos deixar o video-clip que já estava feito e apresentar uma nova ideia. Propusemos este ensaio no convento, a Junta achou interessante e abraçou isso como sendo um evento digital num espaço especial que pudéssemos promover também. Acho que vai ser muito interessante porque vamos tentar ter esse ambiente informal, o mais descontraído possível. Vou explicando coisas e vamos conversando entre nós. Portanto, tornar isto num concerto no convento era perder esta curiosidade que se gera mais quando as coisas são informais, não sei. 

MDX – Planos de apresentação do disco para este ano? 

JM – Essa parte está naquele mundo das suposições, mas sim, tenho uma agenda com várias datas reservadas em que todos chamaram a atenção para o mesmo: vamos aguardar novidades da pandemia. Portanto, posso ter um grande verão ou um péssimo verão. Mas tenho marcado o lançamento do disco e a sua promoção por algumas cidades a partir de Maio. Estou com espírito positivo, tendo em conta que é em auditórios, com lugar marcado e controlo apertado.

Subterrâneos é lançado hoje pela Rastilho Records, será apresentado ao vivo em data a anunciar, e terá um pequeno evento online para simbolizar este dia. Mais informações aqui.