Introdução.

A entrar no terceiro mês de confinamento voluntário, não podem deixar de ser frescas as memórias do que foi provavelmente o último festival de música em Portugal, mesmo no limiar do inicio da pandemia: a 5ª edição do Capote Fest, em Évora.
Coincidência ou não, foi para mim o início e o fim, simultaneamente, de projectos, ideias e movimentos criativos que teriam sido preponderantes na minha vida como fotógrafo. Bom, se calhar trata-se de apenas de uma pausa. Uma pausa que obriga a repensar a forma como vivemos o dia-a-dia. E muitas das ideias que temos ouvido, lido e conversado entre nós, reclusos caseiros, separados de pessoas e de actividades que amamos, passam por esta ideia de ser perseverante, de lutar, de Resistir.

O Aquecimento.

Aquilo que senti assim que cheguei à Sociedade Harmonia Eborense no final da tarde do passado dia 5 de março, foi uma imensa capacidade de resistir contra tudo e todos, num coletivo perfeitamente enraizado numa boa vontade abnegada de promoção da cultura em geral e da música em particular.
Ainda se ouviam os sons finais do souncheck de Cachapa e DJ Sims, quando me encontrei com o Issac Fadinga, Alexandre Tavares e o Daniel Catarino no bar da SHE e rapidamente começamos a falar da importância desta associação sem fins lucrativos acabada de fazer 171 anos na cultura da cidade de Évora e que desde da primeira edição que se envolve inteiramente com o colectivo independente que organiza e mantém viva a ideia do que é o Capote Fest. De facto, comum a muitas associações, organizações e movimentos culturais, é o facto de que se trata de tarefa muitas vezes inglória, e sempre complicada, a de manter uma estrutura que consiga sobreviver de poucas ajudas estatais, de alguns apoios e patrocínios locais, das contribuições dos sócios, mas sobretudo dos sacrifícios e espíritos resistentes de algumas pessoas, como as que integram os corpos sociais da SHE e as pessoas que estão envolvidas no Capote, que se chegam à frente e não desistem do seu propósito. Todos eles unidos neste espírito de Resistência.

A conversa alonga-se, mas com a chegada da Rita Piteira, um dos motores da organização do festival responsável da produção e comunicação do Capote Fest, seguimos todos para o jantar com músicos e técnicos num pequeno restaurante ali perto, o que me permitiu conseguir saber mais sobre todos eles e a história do Festival. Foi um belíssimo momento para relaxar um bocado antes do início do warm-up do Capote 2020, este ano baseado no hip-hop da terra.

Depois do concerto com um publico que escutou entusiasticamente as rimas e batidas de Cachapa e DJ Sims, foi fácil meter conversa com o Filipe e sua “crew” e convencê-los a umas fotos para aproveitar alguns dos espaços interessantes dentro edifício da SHE.

Ao longo do resto da noite, deu para sentir este ambiente de colectividade cultural onde músicos, técnicos e o próprio publico confraternizam nos vários espaços cheios de história da SHE, e na esplanada cuja magnifica vista fará mais sentido num futuro final de tarde em que possamos finalmente voltar a estar todos juntos a disfrutar de música ao vivo. A música que sai das colunas mantem coeso o tecido das várias conversas dos grupos que se formam. Parece que nos conhecemos todos há já algum tempo. Sinto que este Festival que experimento primeira vez, tem qualquer coisa de especial e confirmo novamente que a música tem uma magia especial que une muitos diferentes em torno de algo único, positivo e bom.

O Documentário.

Na manhã seguinte, não obstante as horas tardias a que fechei o primeiro dia do Capote Fest, fazia parte dos meus planos sair cedo do hostel para fazer alguns quilómetros a caminhar por esta belíssima cidade e ao mesmo tempo perceber e sentir a cidade, que vivia o inicio do Mês da Juventude, antes de me dirigir ao que seria o meu “centro do mundo” nos próximos dois dias: A SOIR Joaquim António d’Aguiar, outro espaço histórico da vida cultural Eborense.

Durante os dois dias do festival fotografei os soundchecks das bandas, assim como todo o trabalho dos técnicos, da organização e de alguns voluntários que muito contribuíram para que toda a logística que envolve um festival de música corresse bem.

Chegava sempre por volta das três da tarde, e era sempre patente uma boa disposição geral, com algum cansaço é certo, que se foi acumulando ao longo dos dias, mas era muita a vontade de fazer com que esta edição do festival fosse a melhor de sempre, e foram todos, de facto, incansáveis.

Todo o processo de montagem e soundcheck das oito bandas que passaram pelo palco da SOIR decorreu de forma muito tranquila e o facto de ser um ambiente muito descontraído facilitou o trabalho fotográfico de registar estes momentos. Os belos finais de tarde que tivemos nos dois dias ajudavam muito a esta descontração geral e a luz era maravilhosa. Eu acabava sempre por navegar entre os retratos descontraídos no exterior e a azáfama normal dos preparativos que aconteciam em cima do pequeno palco.

Os Concertos.

O Capote define-se todos os anos com um cartaz eclético e descaradamente focado na música portuguesa independente ou fora do “mainstream” da indústria, com um esforço em também dar destaque a projectos com raízes locais. E por isso, apesar de interessante, não é surpresa verificar que a sala esteve quase esgotada nos dois dias de concertos com um publico multigeracional e diverso que criou um ambiente especial em que pessoas com gostos aparentemente muito diferentes, acabaram por celebrar a música de todos.

As duas noites tiveram vários pontos altos como por exemplo as actuações dos Baleia Baleia Baleia e dos Uaninauei na sexta-feira, e dos Miss Lava que fecharam o festival na noite de sábado. Mas também tiveram actuações marcantes alguns projectos que eu ainda não conhecia, como por exemplo os Cancro na sexta-feira e os Pedaço Mau no sábado.

Epílogo

Associações como a Harmonia Eborense sempre sobreviveram fruto da dedicação abnegada à cultura da comunidade onde está inserida. É a resistência de alguns contra um sem fim de dificuldades que permite a realização de um festival de música no interior tantas vezes esquecido deste Portugal. O Capote Fest é, por tudo isto, muito mais que um festival de música. Pelo quinto ano consecutivo, é o resultado de um acto consciente de resistência e persistência. E isto fica indelevelmente registado nas boas memorias de quem vive o Capote.

Nestas últimas semanas temos ouvido falar muito de cultura e da importância que artistas e profissionais ligados às artes performativas têm tido na sobrevivência da nossa vontade colectiva de chegar sãos e salvos ao fim desta pandemia. Eles fazem parte da base da nossa resistência e por isso merecem todos o nosso respeito e admiração, porque fazem parte do largo conjunto de pessoas que ainda vão sofrer por mais algum tempo as consequências desta “nova normalidade”.

Todas as imagens neste artigo fazem-me transportar para um tempo em que ninguém em Portugal pensaria que deixaríamos de ter música ao vivo e que, de repente, todos os movimentos culturais entrariam numa perigosa e dolorosa hibernação. Espero e desejo fortemente que todo este sacrifício forçado pelas circunstâncias de uma crise inesperada e repentina fique indelevelmente marcado na nossa memoria para que nunca esqueçamos da falta que nos faz a música e a arte. Mas ainda mais importante é que quando tudo passar, consigamos valorizar realmente os resistentes que produzem arte, que fomentam a cultura: os artistas, os agentes, os técnicos, e todos os restantes que vivem da e para a música. Porque também muita da nossa própria resistência à dor de estar longe de tudo e todos, se deve a eles.

P.S.: Gostaria de deixar um grande abraço e um agradecimento gigante a todos que receberam o MusicaEmDX e que tornaram o nosso trabalho tão agradável e memorável. Um grande Bem Haja e um até breve a todos!

Podem ver as reportagens dos 3 dias do Capote Fest 2020 aqui: warm-up, segundo dia e terceiro dia

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