A Música em DX esteve na inauguração do Taipal – da Mostra de Cartazes de Programação Independente, que decorreu no Anjos70 em Lisboa, de 29 de Fevereiro a 06 de Março. Foram muitas as associações culturais, os clubes e as promotoras independentes nacionais que aceitaram este desafio da Cross Section, a associação cultural que organizou e produziu este evento. De Norte a Sul passando ainda pelo arquipélago dos Açores, muitos foram aqueles que quiseram mostrar as pequenas obras primas de dezenas de artistas do traço. Quisemos conhecer melhor a Cross Section e o que esteve na origem desta “plataforma para a divulgação nacional e internacional (…) do talento e liberdade artística”. Estivemos à conversa com Zélia Costa Alves, uma das fundadoras da associação e organizadora do evento.

20200229 - 𝗧𝗔𝗜𝗣𝗔𝗟 - Mostra de Cartazes de Programação Independente @ Anjos 70

MDX- Podes fazer uma breve apresentação da Cross Section e contar-nos como surgiu esta brilhante ideia?

Cross Section – A Cross Section (C.S.), encontrou o seu momento de existência quando o seu elemento fundador (Zélia Costa Alves) voltou a Portugal após 13 anos a viver fora do país. Para contar a origem da C.S. não será possível sem fazer uma pequena incursão pelas vivências de quem a criou.

Apesar de viver durante muito tempo fora, nunca deixou de estar ligada a Portugal através dos jornais e rádio, no entanto nos últimos anos antecedentes ao seu regresso o seu interesse foi crescendo cada vez mais e o consumo de podcasts de entrevistas, debates e tertúlias em variadas áreas da sociedade, ocuparam horas significativas no seu quotidiano. Ouvir a rádio, seguir os eventos das redes sociais e as férias em Portugal que se transformaram em visitas de reconhecimento de território que traziam um prazer enorme na procura de todos esses lugares de que ouvia falar nos vários meios. Uma associação cultural, um escritor, uma banda nova, uma peça de teatro, um edifício

É neste processo de (re)descoberta que foram observados alguns fenómenos e transformações sociais a acontecer de forma orgânica e natural dentro da sociedade. Todos eles procedentes da reacção da comunidade à grande e intensa crise económica seguida mais tarde por um boom de turismo.

Entre estes fenómenos, aquele que marcou a ideia geradora da Cross Section e dos seus projectos, neste caso do Taipal, foi observar como a comunidade ligada à cultura reagia a todos estes eventos através da realização de projectos de negócio mais ou menos experimentais que não só serviram de modo de subsistência, como impulsionaram várias manifestações artísticas, tais como: concertos, exposições, festivais. O cartaz, veículo de divulgação de todos estes espaços e eventos, passou a ser tratado como o elemento principal de divulgação. Uma peça artística que atribuía identidade através da criatividade e trabalho artístico de autor.

Estes espaços, entidades e artistas mostraram que também é possível que a arte chegue, sirva e ajude à sobrevivência de todos os que dela necessitam – os artistas e o público.

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O Taipal surge com a vontade genuína de não deixar passar ao lado todo este trabalho incrível que se tem realizado nos últimos anos e tem como objectivo a sua promoção e divulgação.

Foi difícil conseguir implementar a ideia num momento inicial. Foram feitas tentativas através de concursos públicos ou apresentação da ideia a algumas instituições públicas, único modo de conseguir juntar uma equipa devidamente remunerada. Não foi possível.

Mais tarde a Cross Section apresentou o projecto ao Anjos70, que o conduziu a um dos seus colaboradores, o José Torres, que não só me abriu as portas do espaço como abraçou o projecto.  Fundador e Designer da Cosmvs, felizmente um sonhador, optimista e cheio de entusiasmo, tornou-se assim parceiro da Cross Section.. Sem o José Torres nada disto seria possível.

MDX – O que te parece mais relevante evidenciar nesta exposição?

Cross Section – As premissas que originaram o Taipal são muito concretas, facilmente visíveis na exposição e numeráveis:

1 – Promover, divulgar e homenagear as entidades promotoras (Associações Culturais, Promotoras e Espaços de Entretenimento Independentes) e todos os artistas e designers que têm contribuído com o seu esforço e trabalho para a cultura em Portugal.  Neste caso especifico na produção de material artístico – o Carta.

2 – Sendo Portugal um país de pequena escala e com poucos habitantes, não faz sentido trabalharmos separados e apenas centrados em Lisboa e Porto. Quanto mais próximos estivermos uns dos outros, quanto mais partilharmos em conjunto o que fazemos, não só, será possível ter uma visão global da produção artística do país, promovê-la, como estamos seguros que a qualidade terá uma evolução positiva.

3 – A ambição de que mais projectos como o Taipal vão surgir em outras áreas e que vamos deixar de falar obsessivamente dos anos 80 e passar a recolher, tratar, cuidar e mostrar todos os projectos de valor que foram sendo realizados desde então.

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MDX – Poderá vir a ser itinerante, visto estarem aqui representados locais de norte a sul inclusive ilhas (S. Miguel, Açores)?

Cross Section – O mapa que temos na exposição (realizado pelo José Torres) demonstra bem como estamos centralizados em Lisboa e Porto. Por isso, o objectivo inicial do projecto, independentemente de onde se realizasse, foi tornar o Taipal uma exposição colectiva e representativo de todo o país.

Felizmente, tivemos uma aceitação incrível por parte de muitas entidades e essa hipótese está presente.

Ao chegarmos ao final da exposição será tempo de balanços e de perceber o que poderá ser viável ou não, de acordo com as condições pessoais e profissionais que temos de momento. No entanto, fica a promessa, o Taipal veio para ficar e para evoluir positivamente de ano para ano. Será, seguramente, uma Mostra anual, quem sabe com projectos paralelos, programas itinerários, arquivos, etc. … Quando acreditamos, tudo é possível. Porém temos de dar um passo de cada vez.

Zélia Costa Alves – Cross Section

Em colaboração com José Torres – Cosmvs

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