A manipulação tem tanto de jogo como de aterrorizador. A música pode ter esse poder sendo capaz de nos enrolar em fios como se fossemos uma presa de uma aranha que lhe vai servir de refeição. Há um senhor que se intitula O Manipulador que tem nas suas mãos e pés a mestria de tocar sozinho sem precisar de companhia e, na cabeça e sangue, o dom de saber jogá-lo tão bem, ao ponto de nos envolver na sua teia e nos deixar completamente embrenhados na sua música.
Manuel Molarinho é um artista multifacetado com o projecto one man band O Manipulador. Amante do baixo e da loopstation com 10 anos de existência que, passados 5 anos de espera, lançou o seu 4º álbum de estúdio no passado dia 7 de Janeiro de 2020. Doppler viu a luz do dia numa altura pertinente de tentativas de ofuscação de tudo, todos e todas as formas de possível libertação. Numa era onde a regressão dá um passo sempre maior que a progressão social num loop gigantesco de eternos retornos de estações que vão passando por nós. 

A história de Doppler faz-se de 9 faixas ligadas entre si não deixando espaço para o mais breve suspiro ou tentativa de fuga. Onde acaba uma, inicia outra e assim vamos caminhando ao longo de uma bela odisseia de sentimentos que, apesar de, por vezes, extremos, se unem numa só fonte.
“If You Ruled The World” abre o disco e entra com o poder do baixo e com vozes que ficam a ecoar em nós. Um conselho. Uma voz. Um eco na mente. Um loop que vai e vem sem nunca sair numa mistura de sons que ficam e que nos dão um certo poder sobre nós, ao mesmo tempo que nos tiram esse mesmo poder num só sopro.  Uma faixa viciante com um ritmo que se cola às paredes do interior do nosso corpo. “Coward” foi o primeiro single a ser apresentado e é, talvez, um hino a ter em conta. As cordas apresentam-se na sua forma mais intrigante e Manuel distorce a voz, mudando de personalidade, ao mesmo tempo que nos aparece por detrás de um pano de fumo denso. Escondido(s). A simplicidade e a profundidade dos acordes confundem-se com um transtorno esquecido ou perdido entre o tempo. 

“Bloody Tongue” é uma faixa que arranha. Arranha nos ouvidos, na mente e no corpo. Um suspiro agudo repentino e um formigueiro sobe pela espinha. O toque sombrio e sinistro que carrega esta melodia opõe-se a uma elegância silenciosa e irónica que nos estremece. “Dowtown” pega nas vozes anteriores e inicia-se com acordes intrínsecos que acompanham uma voz aliciante que nos tenta manipular. O ritmo, uma vez mais, penetra em nós conseguindo o seu objectivo. A ironia vai crescendo e a figuração de um rebanho surge em torno de palavras cruzadas e chave.
Em “Baby Don’t Feel So Well” sentimos o conforto ténue do canto rente ao chão onde por vezes vamos parar e nos deparamos com um mix entre a vontade de sair e a vontade de ficar. Regressando ao rebanho, a faixa mais longa do álbum, aborda directamente a temática dos carneiros. Uma brisa corre entre nós e vamos para um campo sereno de inquietação. Em “The Sheep” o baixo entra poderoso e denso de forma a tentar acordar algo ou alguém. O fio da manipulação pura que, às vezes, pouca falta faz pois a vontade é sempre alheia e segue-se sem questão. Uma faixa que se transforma numa marcha profunda com compasso certo e acertado onde o loop faz, uma vez mais, o seu papel de prender.
Quase na recta final desta história aparece aquela que, na minha opinião, é a faixa mais viciante do álbum e, por consequência, a minha preferida. “Voices In Your Head” apresenta-se com camadas de esquizofrenia sonora que entram de modo rápido e instantâneo na mente. Distorções, agudos e picos de ansiedade. De súbito encontramo-nos em fuga numa correria alucinante, acompanhando a música que grita ao nosso lado. Paramos! À nossa volta há um vazio inconsciente conscientemente desenvolvido por algo externo ou interno com o intuito de nos situar na confusão mental. “Ground People” é uma faixa quente com um ritmo alegre que surge como espécie de libertação. Uma euforia, uma janela aberta com uma brisa fresca que se liga à sensualidade daquela que podia ser uma canção de amor – “It’s You” – e a um baixo suave e ardente que nos guia à dança. 

O modo como ouvimos os sons e como o nosso ouvido os percepciona depende muito da distância a que estamos deles. Acima de tudo, a ligação tempo, distância e espaço a som é algo que às vezes descuidamos de atenção. A essa percepção intitula-se de Doppler e pode servir para definir não só a percepção do som como de outras coisas paralelas. Neste disco, temos várias percepções e, acima de tudo, sentimos que 5 anos é uma distância em tempo e espaço grandes, apesar de compensatória. 

Podem conhecer esta história aqui. 

Foto (capa) – Bruno Mesquita

Deixa um comentário