Chegados ao Porto, com a missão de relatar este evento deveras singular que é, a terceira edição do Post Punk Strikes Back Again 3, não poderíamos estar mais entusiasmados com o cartaz deste ano. Um lote de seis bandas com sons variados dentro do espectro da música indie de cariz mais dark, decerto, mas com uma surpreendente, pelo menos na sua maioria como se confirmou -, atitude rock. Exemplo disso, foram uns Hotel Lux, tal como o que se viu destes ‘meninos’ com t-shirts Lacoste a colocar os Madness no lugar de veteranos sem novidades, estes miúdos que até pareciam os Beatles do post-punk. Como é obvio, estou a adiantar-me. Vamos dividir a estória em dois capítulos: A Tarde Magnífica e A Noite Surpreendente. E já vão perceber o ponto de vista (quem lá esteve ou discorda, ou concorda, e quem não esteve, fica informado). 

A Tarde Magnífica 

Soube bem ver o público fiel deste e de outros tantos eventos realizados pela promotora portuense At The Rollercoaster, encher condignamente o Hard Club. E arrancámos pontualmente às cinco da tarde para dentro da sala para assistir a Bragolin, quero dizer, a banda arranca, e nós arrancámos para uma estranha sensação que é: ‘ouvir post-punk ao vivo pelas cinco horas da tarde a um sábado’, algo que, imagino, só será comparável em festivais deste género em Portugal ao Extra/Entremuralhas. 

Foi ao longo da actuação dos Bragolin, que senti que este evento a que finalmente comparecemos nesta sua terceira edição, que por cá, poderá muito bem ser o ‘Santo Graal’ para os apreciadores do género, pelo menos no que a esta época do Outono diz respeito. Rapidamente tudo começou ao som dos Bragolin, quanto a mim foram a escolha ideal para abrir o certame pelas canções despidas de arranjos pesados, se compararmos com os headliners ou banda escolhida para fechar o evento (Esben And The Witch), são canções onde as melodias e os sons minimais das guitarras, teclados, vão adornado os ritmos sequenciais onde a voz de

flutua com um estilo especial e despretensioso numa voz limpa, o oposto agradável das por vezes habituais ‘cavernices’, ‘à laThe Sisters of Mercy que vemos associadas a este som e que só ficam bem nos originais. Com efeito, existe um bom entendimento entre Edwin e Maria Karssenberg, sempre atentos ao timing um do outro na abordagem dos seus instrumentos, seja nas guitarras Fender ou nos teclados dos quais extraem sons minimalistas enquanto vão dançando e enchendo a sala com um ambiente muito especial. Canções entre as quais posso destacar “Into Those Woods” do debut álbum I Saw Nothing Good So I Left, canção de difícil execução pelo riff repetitivo na guitarra ou, “This Grotesque Dance” pelos teclados e guitarras, e depois já com Adam Tristar com eles em palco nas teclas, o fantástico “No One Ever Speaks In This House”. Canções que me soaram leves, ideais para entrar no espírito, daí congratular a organização pela escolha. O som estava perfeito e foi uma constante ao longo do evento. Voltem Bragolin, pois fizeram-me querer ouvir com mais atenção esses vossos dois discos pelo pormenor que dispensaram aos arranjos das canções e pela abordagem vocal simples e despretensiosa de Edwin van der Velde. 

De seguida, e após uma pausa de quinze minutos para apanhar um pouco do frio da tarde no rosto, reentramos na sala 2 do Hard Club para assistir quanto a mim, ao melhor e mais impactante concerto da tarde, bem, eu até diria do evento. Qualquer técnico de som imagina ao ver Tobias O’Kandi entrar em palco que se a sua voz fôr tão grande quanto a sua estatura, a coisa promete, e com efeito a voz deste grande homem é enorme e utilizada com mestria mesmo que adornada com vozes e ritmos pré-programados e as guitarras de Darrell Hawkins, guitarrista que acompanha Okandi, nesta que é, segundo revelou, a primeira actuação ao vivo do seu projecto a solo. E não sei se foi só a voz enorme de Okandi, o som novamente perfeito, a agradável surpresa para mim que nunca vi os O’Children, de ouvir recriadas ao vivo “Ruins” ou “Dead Disco Dancer”, aqui em versões revistas no formato minimal que descrevi, mas igualmente entusiamantes. Aliás, a sonoridade de Okandi ao vivo pareceu-me neste concerto ser tão poderosa que dispensa uma banda tradicional. A electrónica adorna as vocais cheias de soul e sentimento em “Devil I Know”, tema acabado de sair, e que está na playlist aqui em casa em regime constante. Outra canção que ficou na memória foi “Christine”… O concerto terminou demasiado cedo e poderíamos ter ouvido mais… “Radio Waves” dos O’Children, foi salvo erro, a última canção. 

De seguida, para terminar a primeira parte do evento antes do intervalo para o jantar, o punk-rockpunk – e, “cuidado que aqui estamos nós” -, parece ser o lema dos NERVES  banda ‘nervosa’ tal como o nome indica que deixa o público num estado permanente de alerta pelo caos que instala no palco muito à conta da energia das canções, mas também pela performance de Jack Evans, vocalista com espírito punk a buscar a irreverência de John Lydon na forma de cantar, a ele e a muitos outros tais como o perigo que se sentia nas primeiras actuações dos  The Stooges por exemplo. Depois temos o guitarrista Jack Cosson, cuja guitarra soa permanentemente como se estivéssemos a ouvir a discografia dos Killing Joke, o que só pode ser uma coisa boa, tudo isto com o ritmo seguro e impactante da secção rítmica com Josh Upil na bateria, e Mike Wood no baixo. Basta ouvir uma canção como “C.L.AR.M” para percebermos que existe aqui uma força genial. Pouco mais há a dizer sobre este concerto a não ser que nem uma corda partida na guitarra os impediu de abrandar um minuto que fosse. Prevejo que este quarteto londrino chegue bem longe, basta haver mais promotores atentos à força de um concerto assim e rapidamente estarão nos palcos dos principais festivais europeus, vaticino eu que me julgo abençoado com o dom da profecia. Os NERVES têm punk, ska, post-punk, rock para vender a ‘rodos’ e personalidade própria. Não há assim nada de muito novo na sua música, mas têm personalidade própria e garra que é a mais valia, e força, têm muita força no que fazem. Grande concerto.

A Noite Surpreendente

Assim, depois da pausa para o jantar, pelas nove horas da noite os IST IST entraram em cena com as suas canções com títulos tais como “Jennifer’s Lips”, ou “Emily”, som ameaçadoramente próximo da estética Joy Division e (derivados) Editors, por exemplo, mas um som tocado com mestria. Foi sem dúvida embora não para mim, mas para a grande maioria do público presente ‘o concerto’ desta edição, neste festival. A tensão soturna de canções como “Preacher’s Warning”, agradaram-me decerto mas não me encheram as medidas como à maioria dos presentes, pelo menos a julgar pelos comentários entusiasmados que ouvi. Desta forma, e embora tenha dançado ao ritmo destas canções levadas pelo ritmo do baixo e das guitarras e pela voz com encanto monocórdico repetitivo, este foi para mim um concerto competente mas sem grandes surpresas… Contudo, cheguei a ouvir comentar depois cá fora mais do que uma vez que “…foi como que se o fantasma do Adrian Borland se tivesse materializado ali em palco na pessoa do vocalista e guitarrista Adam Houghton…”. Talvez. Mas pareceu-me um exagero. No entanto reconheço que canções como “I’m Not Here”, são fortes de carga dramática e, talvez pela tarde a banda me tivesse ‘levado’ ao nível do entusiasmo que senti no restante público. 

Relativamente ao concerto que se seguiu, o concerto dos Hotel Lux, banda da qual era profundo desconhecedor, saí fan! Achei-lhes uma grande piada e engenho na construção das canções das quais salvo erro não tinha ouvido rigorosamente nenhuma. Foi totalmente inesperado e uma boa surpresa, uns miúdos vestidos com camisolas Lacoste com ar de ainda frequentarem o Liceu a darem ares vocais e por vezes instrumentais aos Madness, aos The Fall, e aos The Beatles (pelos arranjos vocais), e até mesmo aos The Smiths… Super-inesperado. Gostei. Não me lembro a esta hora de nenhuma música em especial mas sei que o último tema foi muito bom. Agora os oiço enquanto escrevo estas linhas ao som do “The Last Hangman” – que grande canção. Esta banda na sua diversidade musical tem ritmos punk, ska, melodia pop, super joviais e bem jovens que são. Penso que este concerto deixou todos bem dispostos mesmo aqueles que possam ter ficado ‘ofendidos’ pelas suas roupas ‘betinhas’ e nenhum imaginário goth presente nestes rapazes. 

Falando em imaginário goth, os Esben and The Witch conseguem ser tão depressivos quanto ouvir um disco dos Bauhaus na rotação errada, neste caso na mais lenta. Existe aqui um ligeiro travo doom, um piscar de olhos ao heavy cadenciado, ou não tivessem eles trabalhos editados pela Season Of Mist, editora de sonoridades pesadas pouco ligada ao post-punk. O que de post punk tem esta banda é o baixo distorcido da cantora Rachel Davies e a carga dramática da melancolia das canções do grupo. A excelente e límpida voz de Rachel contrasta com as guitarras semi-distorcidas de Thomas Fisher enquanto atrás temos o baterista  Daniel Copeman que intervém a espaços mas que vai criando dinâmicas interessantes para os ambientes sempre dramáticos das canções. Novamente neste caso não sou o maior conhecedor do trabalho desta banda para além da ocasional escuta esporádica de uma ou duas canções que acho interessantes… Mas quando sou capaz de ouvir o público conversar enquanto uns pedem por silêncio para poderem ouvir o registo cadenciado a espaços dos Esben and The Witch, para isso diria que mais valia terem sido esses IST IST dos quais toda a gente gostou a fechar o evento, pelo menos saíamos a bater o pé. Assim, saí um pouco dentro desse sentimento que parece depressivo mas que sinceramente, nem por isso o é. Certamente um concerto a apreciar de outra forma noutra circunstância mas para mim depois da energia dos cinco projectos que antes tocaram, esta energia dos Esben cortou um pouco a onda up beat e instalou um clima mais doom e gloomy -, desculpem os estrangeirismos mas não há outra maneira de o descrever… Ainda assim e em suma, que maravilhoso evento. Organização ímpar, pontualidade nos horários, tudo a correr mais do que sobre rodas com organização, bandas, técnicos, público, todos ao mais alto nível para em conjunto fazerem desta terceira edição do Post Punk Strikes Back Again 3, um evento memorável que coloca a fasquia extremamente alta para a quarta edição que certamente aí virá para o ano pelas mãos criativas e competentes da At The Rollercoaster.

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