Pixies no Campo Pequeno numa sexta-feira à noite. Verão de São Martinho ou algo parecido. São noites como esta para quem gosta de música que valem a pena viver na capital ou arredores. Os restantes seres humanos que não gostam porque estranhamente os há, imagino que se importem pouco com a oferta cultural. Sendo assim é bom estar hoje na capital.

Na primeira parte dos Pixies, Blood Red Shoes. Não tenho muito a dizer, para além de que a canção que mais apreciei foi precisamente a última que tocaram “Colours Fade” com o baterista Steven Ansel aqui na voz principal junto com Laura-Mary Carter a terminarem no final em duo,  despediram-se do palco já com o resto da banda a caminho dos camarins num final realmente empolgante e muito rock ´n´roll. De resto, o som esteve muito bom, a banda num todo muito competente… mas esta mistura dos The Kills a fazer recordar uns Lush com a voz melodiosa e doce da cantora Laura-Mary Carter não me entusiasmou o suficiente, embora não desdenhe de encontrar esta banda num qualquer outro palco de um festival qualquer e certamente assistiria um pouco simplesmente a canções como “Elijah” ou “Mexican Dress” parecem-me ser demasiado pop rock adolescente ou para um público adolescente. Não senti aqui intensidade nenhuma para além daquela que o bom som da sala e a prestação competente dos quatro músicos em palco transmitiram, no final com “Colours Fade” senti um pouco mas foi isso, um pouco. O público correspondeu a essa prestação competente e não tenho dúvidas que ganharam novos fans e certamente que o objectivo de abrir para bandas da envergadura dos Pixies, é mesmo esse. Para mim, foi uma prestação agradável e nada mais do que isso.

Confesso que ía um pouco assustado com os relatos de nesta digressão europeia os Pixies estarem a tocar em média quarenta canções por noite. Bandas como eles ou como os The Cure, esses a tentarem entrar no Guiness Book of Records certamente (no que diz respeito a concertos longos), coisa que certamente não fariam quando estavam em plena flor da idade, pergunto-me: porque o fazem aos sessenta anos? – Porque podem. Esqueci-me foi que no caso dos The Pixies, são raras as canções que vão além dos 4 minutos e algumas até mais curtas, sendo que Frank Black ou Black Francis (como preferirem), Joey Santiago, David Lovering e Paz Lenchantin entraram em palco pelas 21h30 ao som de  uma longa intro arrancando logo de seguida com “Gouge Away”, magnífico tema do disco Doolittle com o baixo intenso a dominar a sala e as guitarras de Joey Santiago lentamente a estabelecerem o mood para a descarga sonora a que se seguiria a voz de Black Francis em plena forma a iniciar um concerto com a banda igualmente em plena forma e realmente a debitar quase quarenta temas sem pausas pelo meio, alguns até tocados quase colados uns a seguir aos outros, sem falhas e com a voz de Frank Black e (a espaços) a voz de Paz Lenchantin (com quem em algumas canções o vocalista chegou a fazer excelentes harmonias) a elevar o nosso espirito, a berrar ou a cantar melodiosamente. Frank Black, para mim, foi Deus. E Deus não está zangado, embora por vezes pareça, tamanha é (ainda) a sua pujança vocal. Está bem-disposto a fazer o que gosta, a tocar guitarra eléctrica ou acústica e a explodir de teenage angst com a sua voz (desculpem-me aqui a clara referência à canção dos Placebo, uma das bandas que certamente tiveram nos Pixies uma das suas referências fundamentais).

20191025 - Concerto - Pixies @ Campo Pequeno

As canções estiveram lá quase todas, não poderiam ser todas ou… ainda lá estaríamos. Em apenas duas horas de concerto, foram na prática as quarenta canções ou lá quase – para mim as melhores, por exemplo, a soberba “Caribou”, “Velouria”, a intensa “Nimrod’s Son” com a voz berrada de Franck Black, e do novo disco de salientar a envolvente , a mais “calma” e muito cool “Bird Of Prey” a mostrarem que são ainda uma banda criativa a fazer bom uso da fórmula Pixies a duas vozes e com bons resultados. De resto, os inevitáveis temas clássicos “Vamos”, “Monkey Gone to Heaven”, “Where Is My Mind”, “Here Comes Your Man” ou logo pouco depois do início o fantástico “Hey” são alguns que posso destacar.

Poderia eu estar aqui a falar e a consumir linhas de texto. Foram tão diversos e tão bons de ver e ouvir os Pixies e quando o concerto finalmente se aproximava do fim, pensei que fossem terminar com “Debaser”, mas não. Após a festa generalizada com essa canção ainda existiu tempo para mais com “Tame” – que maravilha, possivelmente o tema responsável de entre outros por ter saído com os ouvidos a zunir da sala. Terminaram com “Gigantic”. Foi uma festa. Que mais posso eu dizer? – Nada. Penso ser mais do que suficiente.

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