Os finais de semana costumam ser de libertação e, até, libertinagem. Há finais de semana que nos podem transportar para duas realidades distintas e distantes numa só noite, com um calor físico e espacial conjunto que nos dá as boas vindas ao descanso e dá o mote de partida para o que tiver de acontecer nas próximas 48 horas.
O palco para o experienciar destas realidades foi o do
Sabotage Rock Club na passada sexta-feira, dia 27 de Setembro, com os concertos de Nancy Knox e The Walks

Nancy é uma diva em ascensão. O nervosismo humilde que lhe é nato da-lhe charme e faz com que, a cada momento que passa, se envolva mais e se embrenhe na sua música e paixão. A solo despe-se e sente-se a cada timbre de voz e acorde de guitarra a emoção palpável e arrepiante de quem transpira talento. Com os companheiros de palco (Tiago Castro, Francisco e Vasco Duarte), em formato banda, eleva-se e perde-se em si própria e num certo negrume e densidade que nos apertam o peito. Dona de uma voz arrebatadora e de uma presença forte e extremamente expressiva, Nancy comanda um barco de cordas, distorções e sintetizadores. Os seus tripulantes criam uma ambiência coberta de dualidades onde a profundeza da alma se confronta com os espasmos da natureza. Em pouco mais de meia hora Nancy Knox manteve um registo constante, negro, denso e profundo apresentando o seu Pit Of Dispair como uma sereia dentro de água. 

Os The Walks vinham em modo de celebração e deram uma bela festa! Um Sabotage composto e repleto de fãs recebeu a festa de lançamento de Opacity em Vinil, álbum que saiu Outubro do ano passado. Faz parte do crescimento de uma banda a maturidade musical e a redefinição do caminho. Os The Walks começaram o concerto como se apresentaram ao mundo, com a energia sobrenatural de quem tem o rock’n’roll a transbordar por todos os poros. Com Fool’s Gold, álbum de 2015, a servir de mote de partida rapidamente nos agarraram pela mão fazendo com que o corpo não conseguisse parar. Em palco, 7 razões conjugadas para uma excelente construção e composição. Desde as cordas à percussão (em modo duplo), ao saxofone (que deveria ser mais usado) parando na voz rouca, sensual e timbrada qual britpop dos anos 90, tudo ali transpirava groove. Opacity é, no entanto, o registo mais maduro e adulto em que o rock’n’roll puro e duro já se viveu e agora ficou a serenidade tropical de um ritmo quente dançável, estável e menos cru. Opacity fora tocado na íntegra e talvez tenha contribuído para uma certa monotonia rítmica que se começou a sentir um pouco depois de metade do concerto. Como se tivéssemos explodido inicialmente para depois apanharmos cada pedaço lentamente. John tem uma voz extremamente cativante que neste registo mais ténue se cola demasiado a um Liam Gallagher. Não que  seja mau, mas assenta-lhe melhor o poder do rock sem merdas. Os The Walks têm na sua composição excelentes músicos com uma energia em palco capaz de criar uma festa da qual dificilmente queremos sair e, nesta noite, tiveram um público rendido a seus pés, alegre e participativo, como todos os concertos deviam ter.

Nesta noite a densidade negra de Nancy Knox contrapôs-se à alegria tropical dos The Walks e o espaço, mesmo com duas realidades distintas e saborosas, voltou a saber a casa. 

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