As noites quentes costumam ter uma magia que quase se consegue sentir ao toque. Se pudermos ter dessas noites quentes, a meio da semana, na companhia de uma aconchegante banda sonora, somos, efectivamente pessoas felizes.
Há bandas, músicos e pessoas que pouco precisam de se esforçar para que tenham as pessoas rendidas a seus pés. Há uma certa aura de talento e uma quase magia de que são dotadas que fazem com que o simples se torne num momento de grande completude e satisfação.
O melhor é parar com devaneios e contar-vos que na passada
quarta-feira, dia 04 de Setembro, a Galeria Zé dos Bois recebeu a tour europeia de Steve Gunn e o seu companheiro de estrada Valley Maker

Valley Maker tem uma voz diferente das outras e sabe usá-la bem. Para isso só precisa de uma guitarra acústica e do carisma que já lhe é intrínseco. A voz, na sua diferença, tem um timbre semelhante ao de Kurt Vile e uma delicadeza pura que nos faz querer ficar a sonhar durante horas. Pouco depois do início do concerto referiu que esteve de férias há 2 anos em Lisboa e estava muito feliz por estar de volta e, desta vez, em cima do palco. Foram vários os momentos de simpatia partilhados com o público e esta genuinidade e alegria consigam transferir-se para nós tão rápido como um raio de luz. A sua música, não ao estilo da antiga Seattle, mas com a qualidade que lhe é associada, é um folk melódico que toca na alma e faz sorrir. A meia hora que esteve em cima do palco serviu para contar histórias em formato canção com um molde de pureza e uma onda de compaixão envolta numa simplicidade extremamente bela. 

Steve Gunn não tinha tanto jeito com o público, a sua concentração dirigia-se para a música e o seu instrumento preferido, a guitarra. Acompanhado de uma banda composta por músicos de excelência que, para além de terem dotes musicais acima da média, sabiam bem como os usar e como dar espaço ao seu mentor, Steve proporciona-nos um misto de sensações que vão desde um voo nas asas de uma águia sobre o deserto ao final do dia ao passeio sobre 4 rodas a rasgar uma estrada quente americana. Logo na primeira música, “Old Strange” fomos invadidos por um turbilhão de sons e composições que, inicialmente, se estendeu em formato instrumental para depois dar lugar à voz e ir subindo em crescendo prendendo-nos num transe quase profundo para depois ir acalmando a intensidade e depois desaparecer.
O estilo folk vai variando entre o country e algo denso e intenso com solos de guitarra. Tanto a guitarra eléctrica como a acústica lhe ficam bem e, por vezes, a composição é tão boa que nos perdemos no espaço. “Among The Trees” de Michael Champman foi uma surpresa e o álbum
The Unseen In Between, tocado quase na íntegra mostrou-se digno de vício e audição em loop. Alguma esquizofrenia sonora fez-se sentir com “Paranoid” e “New Familiar” mas de forma moderada e extremamente bem pensada e delineada.
Apesar do pouco contacto com o público, a satisfação de estar naquele palco era notória e confirmou-se com o regresso para dois encores. Sendo que o primeiro começou de forma triste, solitária e melancólica com “Morning Is Mender” e o segundo manteve o registo mais intimista. No fundo, todos partilhamos algo naquela noite e, para além disso, fizemos belas e variadas viagens, confirmando, uma vez mais, que o encanto americano não é para todos.

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