Salvador Sobral é uma caixinha de surpresas. Conhecido num registo de eurovisão, surpreende-nos cada vez mais com a sua versatilidade. Musicalidade é a palavra que melhor o caracteriza, um camaleão de timbre vocal, gestos e presença. Com os Alexander Search, em nome próprio ou com os Noko Woi, Salvador é um entertainer de palco onde o gozo está tão presente quanto o afecto

A banda de indie-pop Noko Woi radicada em Barcelona teve iniciou em 2014, altura em que editou o primeiro álbum homónimo e que actuou no Festival Sónar, também em Barcelona. Em vésperas de editarem o segundo longa duração, os Noko Woi deram dois concertos únicos, em Barcelona no La Nau e em Lisboa no Music Box no passado dia 13 de Novembro.

Os Noko Woi são constituídos por cinco músicos, três dos quais venezuelanos. Muito provavelmente foi esse motivo pela escolha do nome da banda, que significa “escutar em redor” em Warao. Os Warao são uma etnia indígena que tem sofrido processos de dizimação, por doenças e por movimentos migratórios forçados nomeadamente para o Brasil. Foram vários os momentos durante a actuação em que Salvador Sobral evidenciou os registos tribais, tanto vocais como corporais. Na primeira apresentação da banda, em que enalteceu as qualidades de composição de Leonardo Aldrey (teclas e sintetizadores), soltou a graça de que apenas dois dos elementos não eram venezuelanos, um pela evidência (o próprio) e o outro, por ser baixista tinha que ser catalão.

Blottmless PIG tema de abertura da noite que é de uma fusão orgânica incrível. O timbre de Salvador oscilava na intensidade da guitarra e na serenidade dos sintetizadores. Diversidade nas estruturas rítmicas, que provocavam inesperados “esticões” da bateria naturalmente acompanhadas pelos movimentos corporais de Salvador. Intercalando com os temas mais antigos talvez mais ritmados, com uma pitada mais intensa de sintetizadores e com uma bateria mais jazzística.

20181113 - Concerto - Noko Woi @ Musicbox Lisboa

Com um grupo de fans femininas coladas na frente de palco a marcarem lugar com a devida antecedência (não estava a abarrotar), Salvador esteve à vontade e feliz. Afinal tocava pela primeira vez em casa, com a banda dos amigos “de toda la vida”. Pormenores simples de quem está na vida com simplicidade, “o bilhete foi caro? Não sei se nesta casa temos encore?” Uma outra observação de quem já sentiu a finitude da vida, “esta deve ser das poucas salas que ainda se pode fumar. A sério! Eu estive quase a… e vocês sem consideração por mim”. E a malta continuava a puxar do cigarro e a engrossar a nuvem de fumo que pairava em cima do palco.

“Row” um começo de jazz onde aos poucos vão entrando acordes mais intensos, terminou com o público a acompanhar a intensidade de Salvador que subia e descia o corpo conforme o ritmo. “Naked” em que apresentou a canção como sendo daquelas situações: “em que sabes qual a namorada do teu amigo vai ser sempre só isso”, riso generalizado na sala. A troca de olhares cúmplices entre Salvador e o baterista permitiu ao vocalista brincar com o improviso e por a sorrir o resto da banda.

Quase duas dezenas de canções com elasticidade suficiente para surpreenderem até ao último acorde. Todos sentimos o carinho e cumplicidade entre os músicos, destacando a segunda voz de Juan Daniel González que ainda teve um solo no encore. Este concerto foi daquelas surpresas que nos deixam de sorriso pairado no ar, e com muita vontade que seja editado o segundo álbum.

Promotor – Musicbox Lisboa

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