Terça-feira, 30 de Outubro. O Outono já se faz sentir, e a perspectiva de ir à Aula Magna assistir a um concerto a meio da semana é agradável numa altura em que já se anunciam os primeiros nomes para a época dos festivais de Verão do ano que vem. Por mais que se ame a época festivaleira, estes concertos que animam a semana numa sala com lugares sentados e boa acústica, quente e reconfortante enquanto o frio e o vento ficam lá fora, têm algo de especialmente sedutor. Um bom serão sem o comando televisivo e, com efeito quando entrei na sala já tocava Iguana Garcia e o filme que se desenrolava era o de um rapaz ao comando de uma guitarra e de uns quantos pedais, um computador e loops de sons que iam adornando a sua voz de timbre maduro mas ao mesmo tempo fresco e jovem, com um mundo de sonhos pela frente.

20181030 - Concerto - Unknown Mortal Orchestra + Iguana Garcia @ Aula Magna

Confesso que de cada vez que vejo este formato one man band, dá-me logo vontade de ir passear um pouco lá fora. Mas Iguana Garcia prendeu-me logo pela maneira como os sons se desenrolavam, e sendo eu um desconhecedor do trabalho deste jovem artista português, fiquei fã. A voz cola muito bem com a música que é francamente upbeat, sem momentos mortos e bem estruturada, trazendo uma conexão imediata com a audiência que dança e se envolve no jogo da rima de palavras e progressão instrumental do artista. Também se nota um bom domínio da métrica da língua portuguesa nas canções de Iguana, uma antítese da utilizada na de géneros como o Fado, ou a música ligeira, que aqui, francamente sendo mais minimalista cada frase é sempre bem metida. O concerto de Iguana terminou em grande com “60KF”, tema fantástico a fazer lembrar o melhor que os Heróis do Mar fizeram, mas com personalidade própria e um toque de modernidade que não tem nada a ver. Faz parte de Cabaret Aleatório, disco que podem ouvir no Bandcamp do artista. Experimentem, que por aqui já está nos meus favoritos.

 

Com pontualidade britânica mesmo sem o serem, são neozelandeses e americanos estes Unknown Mortal Orchestra… abriram com “From The Sun” e provavelmente, à excepção do prolongado solo de guitarra em que o cantor e guitarrista Ruban Nielson aproveitou para passear logo por toda a plateia da Aula Magna, levando o público ao êxtase, é a canção do concerto mais dentro das novas tendências indie psicadélica do momento, fez-me lembrar uns Temples nos seus melhores momentos.

Mas a banda não se esgota nessa amplitude, sendo que o funk e o soul, entram muito no repertório destes músicos, embora o que se mantenha sempre ao longo do set é a maneira idiossincrática de Ruban Nielson a tocar guitarra. Com efeito e logo ao arranque a jogar logo os trunfos todos (poder-se-ia pensar!), apostando na proximidade com a audiência no curto e conciso concerto que deram (o cantor haveria ainda de voltar à audiência mais uma ou duas vezes), é neste contacto com o público e também no clima de festa que as canções imprimem que reside muito do sucesso do que foi apresentado hoje.

20181030 - Concerto - Unknown Mortal Orchestra + Iguana Garcia @ Aula Magna

No entanto, a canção que abre o concerto nesta noite apesar de ter o Sol no título, tem letras como ‘(…) Isolation, can put a gun in your hand (…)’, por comparação em “Can’t Keep Checking My Phone”, que se haveria de ouvir mais tarde no final, ouvem-se letras como ‘(…) drink chicha in the jungle that sounds great’, num registo funk totalmente Stevie Wonder reinventado, e assim aposta-se na diversidade.
Pelo meio foi exactamente uma hora de concerto com o tradicional encore incluído, com canções como por exemplo “Necessary Evil”, que podia perfeitamente ter sido gravada nos anos setenta com o seu ritmo compassado mas francamente soul & Motown, ou o moderno mas simultaneamente funk “Multi-love” que haveria de encerrar o concerto antes do encore.

20181030 - Concerto - Unknown Mortal Orchestra + Iguana Garcia @ Aula Magna

“Ministry Of Alienation” é outra canção cujas vocais podiam ter sido tiradas de um disco de funk-soul dos anos setenta, mas a modulação singular dos acordes de guitarra talvez vá buscar mais a outras bandas dentro do espectro rock, talvez mesmo aos Led Zeppelin na progressão desses mesmos acordes, ou a bandas como os Love, ou Jimmy Hendrix, na maneira como acrescentava pormenores tocando acordes óbvios de maneira diferente, não sei. Mas entende-se que é nesse caldeirão de referências que sendo bem revisitadas que a música flui, e é nessa modulação única que tem a guitarra de Ruban que está muita da magia pois o resto da banda vai atrás, claro e bem.

De resto pouco mais há a dizer de um concerto que quanto a mim só pecou por ter sido um nada curto, as canções foram apresentadas com energia, competência e extrema entrega, os músicos, notava-se que se estavam a divertir em palco, as luzes e o som na Aula Magna estiveram a um nível muito bom e com isto tudo, pouco depois das 23 horas já me encontrava fora da sala a caminho de casa imbuído de funk, soul e rock e sem vontade de pegar no comando da TV. Não se pode pedir muito mais numa noite de Outono. Talvez ir ouvir a canção “Dance to the Music” dos Sly & The Family Stone num disco antigo que lá tenho.

 

Promotor – Everything Is New

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