Vai com calma, Luis, vai com calma”. Tal conselho poderia ser dito em loop a Luis Vasquez que o senhor The Soft Moon ignoraria o mesmo em todas as ocasiões que o ouvisse. A agressividade e o negrume que Vasquez premeia o seu projeto tornou-o num dos mais entusiasmantes da atual década, em que post-punk e música electrónica se cruzam para um casamento eletrizante.

Porém, em noite fria, os primeiros vestígios de post-punk da noite seriam europeus, com o quinteto belga Whispering Sons a regressar ao nosso país. Desde o ano passado que este projecto tem vindo a querer construir fortes laços diplomáticos com Portugal, e com o estreante disco de estreia Image prestes a bater às portas, parece que a relação entre ambas as partes tem tudo para ser próspera.

Através de um combo guitarra/baixo, uma drum machine e sintetizadores a darem o ar de sua graça através da prática de melodias incomuns e sombrias, a junção entre os quatro ia permitindo, lá pelo meio, que os Whispering Sons se destacassem face a mil e uma outras bandas de post-punk que ameaçam a semelhança. Todavia, a verdadeira jóia da coroa da banda, dá pelo nome de Fenne Kuppens, cujo timbre grave e profundo, para além de suscitar curiosidade pelo seu alcance, assenta que nem uma luva à sonoridade da banda, como tão bem foi exemplificado em temas como “Time” e “Wall”.

 

Mesmo que a espera por The Soft Moon tenha sido atenuada por sons belgas, a antecipação por ver Luis Vasquez a pisar palco português estava num constante crescendo, contando-se todos os minutos de espera a partir do momento que os Whispering Sounds abandonaram o palco.

Para a ocasião, Criminal, quarto disco de originais, serviria como principal mote da noite, mas foi ao som de “Deeper”, faixa-título do terceiro disco, que a noite começou, com a galopante batida de caixotes a relembrar um espetáculo de Stomp.

Minutos depois, “Burn”, primeiro tema de Criminal, leva o título que a dá nome à letra e incendeia o RCA Club por completo, com os strobes e o fumo a instaurar um ambiente de caos numa até outrora pacífica sala. De rajada, é servido “Insides”, em que a guitarra de Vasquez exorciza os demónios residentes no seu corpo, a assombrosa“Choke” e as destrutivas “Dead Love” e “Like a Father”; meia hora de concerto cronometrada e já Vasquez tinha atacado o palco com uma intensidade que muitos artistas apenas sonhariam em ter.

 

Na companhia de Luigi Pianezolla (baixo) e Matteo Vallicelli (bateria), Vasquez atira-se, cheio de garra, a “Far”, um dos maiores êxitos de The Soft Moon, foi um pouco mais longe e personificou a chave que acabaria por abrir a caixa de Pandora do RCA, com um saudável caos a apoderar-se de todos os presentes. Todavia, por mais demolidor que o post-punk de Vasquez fosse, nunca transpareceu a imagem de ser “só barulho”. Não, é muito mais que isso. Ao longo de quase duas horas, viu-se um homem a canalizar a sua raiva, tormenta e sofrimento para canções que tanto pediam para serem sentidas como interpretadas; pedidos de socorro, de atenção, de ajuda.

Curiosamente, de forma quase paradoxal, Vasquez encontrou em The Soft Moon o local ideal para transformar todos os seus desaires e frustrações em momentos de alta tensão, superando-os no processo, como tão bem exemplificou no final da noite ao som de “Black” e “Want”; será este o motivo pelo qual é um animal de palco?

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