Já lá vão seis anos desde a última vez que Lisboa acolhera Leslie Feist. No passado domingo, a espera pelo dito reencontro fez-se pelo Coliseu dos Recreios, com a canadiana a assinar um belíssimo concerto, deixando o público rendido e encantado perante a doçura da artista, isto numa noite cujo repertório bebeu um pouco de todos os discos da carreira da cantautora.

De Coliseu dos Recreios vestido com cadeiras para a ocasião e com um público heterogéneo a decorá-lo, a noite de Feist previa-se memorável. Porém, antes de as premissas darem razão a tal conclusão, houve tempo para primeiro se ouvir La Force, a mais recente adição dos Broken Social Scene, projeto que conta também com a assinatura de Feist.

Dotada de um indie pop a emprestar elementos folk e electrónicos, Ariel Engle presenteou o Coliseu com uma meia hora ternurenta, em que as batidas pré-programadas complementaram na perfeição os belíssimos acordes soltos pela guitarra da francesa. Feliz e entusiasmada por tocar em Lisboa, La France guardou uma surpresa especial já no final, convidando Leslie Feist a juntar-se a si para um tema em conjunto.

Pouco passava da hora marcada, e já com um Coliseu bem composto, quando Feist sobe (novamente) a palco, desta vez acompanhada por cinco músicos que ficariam responsáveis por chefiar a mini orquestra de Leslie – guitarras, violinos, clarinetes, teclados, baixos, entre outros.

Depois de uma entrada algo de caricata, recorrendo a um tradutor no telemóvel para informar, em belo português, que tinha contraído uma constipação em Amesterdão uns dias antes, e que depois do intenso concerto da noite anterior, em Braga, a sua voz não estava nos seus melhores dias. Todavia, o gosto especial por Lisboa era tão grande que daria o seu melhor para que não se notasse o estado débil da voz e, verdade seja dita, depois do final de “Pleasures”, tema de arranque para o concerto, ninguém diria que Feist não estava no seu melhor.

20180909 - Concerto - Feist + La Force @ Coliseu dos Recreios (Lisboa)

Talvez resida aí, na incapacidade do público em notar falhas na voz, um dos talentos indiscutíveis de Feist: a capacidade de soar tão cristalina e imaculada como no primeiro encontro que se teve com Feist. Já lá vão mais de vinte anos de carreira e a verdade é que Feist nunca soou tão bem, com a maturidade de quem já tem quarenta anos a nunca eclipsar a inocência de quem aparenta viver na bolha da eterna adolescência.

Apesar do concerto de domingo situar-se ainda em prol de Pleasure, disco que remonta ao ano passado, a ênfase no mais recente disco de Feist, que marcou uma pausa entre discos de sete anos, não foi total, levando a que se ouvisse de tudo um pouco num concerto que roçou as duas horas de duração. Além disso, os temas foram intercalados de forma sábia, apesar de o início ter ficado marcado por breves momentos de lentidão, apesar da participação de La Force em “How Come You Never Got There” ter desafiado esse abrandamento.

No meio dessa dita lentidão, uma das constantes que prendiam (e deliciavam) os presentes eram as confidências e juras de amor para com o público português, com os exemplos de histórias vividas por Feist em Portugal a serem dos momentos que mais gargalhadas reuniram, com o carinho nutrido do público a ser sentido e apreciado pela artista, brindando-os com uma adaptação de “Any Party” para que mencionasse a capital.

20180909 - Concerto - Feist + La Force @ Coliseu dos Recreios (Lisboa)

Com a passagem entre temas a imergir o Coliseu dentro do ambiente propício à assimilação de cada um deles, como a a emotiva “I Wish I Didn’t Miss You” ou a obscura “The Limit to Your Love”, foi através da versão de “Sealion” de Nina Simone e de “I Feel It All” que o Coliseu finalmente cedeu à felicidade contagiante de Feist, com o apelo à dança contagiante nestes dois temas a levar os mais corajosos a levantarem-se das suas cadeiras e a deixarem-se ir, tudo sobre os sorrisos de aprovação de Feist. Pouco depois, a descarga efusiva de “My Moon My Man” e “Let It Die” manteriam o público de pé, balançando ao som de acordes teleguiados por uma banda de apoio excecional que conseguiu explorar e dar voz a todos os detalhes existentes na sonoridade de Feist.

Já no encore, agora só contando com Leslie em palco, “So Sorry” e “Gatekeeper” inaugurariam o mesmo, com direito a dedicação aos coautores de cada uma das canções. O final, como era expectável, fez-se ao som do maior êxito da artista, “1234”, começando com um arranjo muito mais simples do que aquilo que lhe é conhecido, mas com a (re)entrada da banda, rapidamente culminou na versão que foi a maior rampa de lançamento para Feist, com esta a despedir-se do público que trauteava deliciosamente o último trecho da canção.

Antes da despedida, Feist deu a conhecer que este “será o meu último concerto dentro de muito tempo”. Talvez por isso é que Feist deu um concerto que facilmente encheu as medidas de todo o Coliseu. Esperemos só que não voltemos a ter que esperar mais seis anos pelo reencontro. Julgando pela calorosa receção que teve no domingo passado, julgamos nós que não.

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – Luís Sousa
Promotor – Sons Em Trânsito