Sexta-feira dia 13, no aniversário da conspiração contra a ordem templária e dia de reputo azar ou má sorte, vamos lá então ver a maior instituição do heavy metal ao vivo no Altice Arena. O vosso escriba também teve alguns azares e por um atraso em conseguir jantar (mas quem é que janta às seis da tarde?) à frente da Arena, leia-se aglomerado de lojas com centenas de pessoas a tentar conseguir uma refeição, perdi por completo os ingleses The Raven Age. É inglório começar a tocar pelas 18h30 a uma sexta-feira.

 

Os rapazes que se seguiam, os norte-americanos Tremonti que encaixados no alinhamento por virtude de se apresentarem num festival em Espanha no dia seguinte, deram um concerto enérgico com as suas canções a viverem muito da guitarra ritmo e voz rouca do vocalista e dos ritmos do baterista. É tarefa difícil abrir para uma instituição do heavy metal como os Iron Maiden, e no quase final lá disse o vocalista e fica aqui em tradução livre: “Temos mais uma canção para vocês antes dos poderosos Iron Maiden”, “The Mighty Iron Maiden!”. Eu a mim dá-me sempre uns arrepios quando oiço esses disparates. Os Maiden são uma banda, não são um porta-aviões. Adiante. Mas pegando na deixa e para explicar o que aconteceu nesta noite, só existem duas bandas inglesas que formadas no final dos anos setenta e tendo o seu período de ouro nos anos oitenta, e que sendo diametralmente opostas em género, que trazem tamanha satisfação e sorrisos amplamente rasgados mal sobem a qualquer palco e começam a tocar: os Iron Maiden e os The Cure. Não existe nenhuma outra banda inglesa de qualquer género em actividade com tamanha legião de fans que inspire tamanha felicidade numa plateia como estes dois nomes com excepção dos The Rolling Stones, talvez, mas de alguma forma é diferente. Com esse pensamento e recordando-me precisamente da última vez que estive nesta sala, precisamente num concerto de The Cure, (ainda não faz um ano) estremeci ao lembrar-me do quanto mau estava o som nessa ocasião devido à acústica muito particular da sala que embora tenha tido em alguma altura umas supostas obras de melhoramento, ainda continua de certeza a ser um pesadelo para os técnicos de som.

 

O concerto iniciou com a introdução de “Aces High” do álbum Powerslave e como seria de esperar o som estava um pouco caótico, facto no entanto compensado pela energia da entrada magnífica da banda com um caça Spitfire literalmente pendurado no cenário e a voz rasgada mas potente do vocalista Bruce Dickinson a sobrepor-se à amálgama de som. O trio de guitarras de Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers era o que mais sofria com a acústica da sala podendo-se ouvir os solos e riffs em harmonia, mas com alguma perca no que diz respeito às partes de guitarra ritmo a ficarem um pouco abafadas no espectro sonoro, facto que se prolongou ainda pelos seguintes temas “Where Eagles Dare” do disco Piece of Mind e no seguinte “2 Minutes to Midnight”, num novo regresso a Powerslave. De seguida um muito bem disposto Dickinson comunica com a audiência explicando que não iria falar muito entre canções pois iriam contar a história através do cenário e da música, fez brincadeiras com os escoceses para apresentar a canção seguinte, “The Clansman” da era em que Bruce Dickinson, chateado com os Maiden tinha uma carreira a solo e a banda gravava e actuava com outro cantor (Blaze Bailey, recordam?) e o tema ganhou aqui ao vivo uma nova vida com a voz de Dickinson.

20180713 - Iron Maiden @ Altice Arena

Sendo esta uma digressão em que não estão a promover nenhum novo disco de originais mas a trabalharem num conceito de um jogo, The Legacy of the Beast em que toda a teatralização do concerto gira à volta desse conceito, o da guerra e o do conflito, nas próprias palavras do cantor, este é um concerto com um alinhamento pensado apenas para uma actuação ao vivo fulgurante, não vou dizer uma espécie de best of, mas anda lá perto. Curiosamente um facto para mim um pouco estranho, era de, até agora, o kit do baterista Nicko McBrain estar quase totalmente coberto pelo cenário e afastado dos olhares da audiência, sendo só possível vislumbrá-lo pelos écrans instalados, a ele e à sua mestria enquanto desfilava os seus sprints pelos timbalões do kit. De seguida, “The Trooper” com Dickinson a segurar uma bandeira portuguesa como se em combate estivesse  com um gigantesco Eddie (a mascote), a entrar em palco. Foi o primeiro grande momento da noite depois da entrada fulgurante ao início, claro. Aqui o som já apresentava uma melhoria significativa, o que permitiu um abandono total para a experiência do que é ver e ouvir Iron Maiden nos dias que correm.

20180713 - Iron Maiden @ Altice Arena

São sem dúvida os melhores representantes de um género e brilharam completamente daí para a frente. Até a bateria, agora a descoberto e com a mudança de cenário em “Revelations” trouxe ao que parece aquilo que era preciso para o som se estabilizar por completo com o kit agora bem preenchido a soar com um pouco mais de graves por toda a Arena. A partir daí, quanto a mim o concerto ganhou uma nova vida. Apesar de os temas seguintes não serem clássicos absolutos da longa carreira desta banda, “For the Greater Good of God”, “The Wicker Man” e “Sign of the Cross” mantiveram um balanço incrível e a comunhão com a Arena cheia era incrível de ver. O segundo momento também verdadeiro e incrível, e mesmo para quem desdenhe um pouco do som agressivo desta banda inglesa e da personalidade teatral que a sustem, seria impossível a qualquer pessoa ficar indiferente a “Flight of Icarus”, “Fear of the Dark” ou  “Fear of the…” Duck, como chamo afectuosamente a esta canção, é que parece-me que é sempre o que Dickinson canta, genial! O som, a resposta do público a estas canções, com o nível de rubro e a energia na Arena a atingir valores máximos.
As mais velhinhas e para mim um pouco já datadas “The Number Of The Beast” e “Iron Maiden”, fecharam o set antes do obrigatório encore, embora num catálogo tão extenso, acredito que sejam obrigatórias para levar ao extremo o aspecto teatral que sempre caracterizou esta banda, e com nova aparição de Eddie no último tema. Nota 10 para esta produção em palco. Funciona muito bem. Surpreendeu sempre com as mudanças de cenário, e com forcas e cruzes e com espadas e jaulas. Alice Cooper não o faria melhor, e aqui, a banda com esta digressão superou o mestre da teatralidade.

20180713 - Iron Maiden @ Altice Arena

O encore abriu com “The Evil That Men Do” de Seventh Son of a Seventh Son (1988), e tive pena de não ouvir nada de Somewhere In Time (1986) para mim, o disco mais interessante deles onde se aventuraram por terrenos mais ligeiros com guitar synths que lhes conferia na altura um visual e contexto futurista inspirado no filme Blade Runner, de Ridley Scott. Mas esta máquina de entretenimento que são os Maiden toca sempre o mesmo alinhamento noite após noite sem falhas, com um fulgor extremo e previsível e tal como toda a gente que tem uma ligação à internet já sabia, afinal, estamos em 2018 presos no tempo… a seguir, só se seguiu o obrigatório “Hallowed Be Thy Name” e “Run to the Hills”. A banda de Steve Harris continuará sempre a existir enquanto este quiser e numa sexta-feira à noite em Lisboa com um grandioso festival a acontecer a poucos quilómetros dali, devem ter dado o concerto mais rock’n’ roll da capital nesse dia. É certo que parecia a Disneyland dos crescidos que gostam de guitarras a todo o pedal, mas foi um concerto genial.

Setlist

[intro] Churchill’s Speech
01. Aces High
02. Where Eagles Dare
03. 2 Minutes to Midnight
04. The Clansman
05. The Trooper
06. Revelations
07. For the Greater Good of God
08. The Wicker Man
09. Sign of the Cross
10, Flight of Icarus
11. Fear of the Dark
12. The Number of the Beast
13. Iron Maiden

Encore:
14. The Evil That Men Do
15. Hallowed Be Thy Name
16. Run to the Hills
[outro] Always Look on the Bright Side of Life

 

Texto – Pedro Corte Real
Fotografia – Daniel Jesus
Promotor – Prime Artists / PEV Entertainment