Entrevista a Foreign Poetry, “Temos Qualidades Distintas que Acabam por se Cruzar e Conciliar”

Dizem que é sua poesia ‘é de fora’, ou não tivessem sangue inglês e austríaco no seu núcleo. Os Foreign Poetry são Danny Geffin e Moritz Kerschbaumer, uma banda no mundo com cunho português, ou não tivessem nascido através da influência do nosso querido Benjamim, quando o músico fazia carreira por Londres enquanto Walter Benjamim.

Com o português a tocar com os dois músicos numa banda que teve sol de pouca dura, o regresso ao nosso país levou a que a banda dissipasse mas que a união entre Danny e Moritz se mantivesse, culminando então na fundação dos Foreign Poetry. Com o seu primeiro disco quase aí à porta, a dupla esteve presenta na última edição do NOS Primavera Sound, e a Música em DX teve a oportunidade de conhecer melhor este promissor projeto.

20180607 - Festival - NOS Primavera Sound'18 @ Parque da Cidade (Porto)

Música em DX – É curioso ter-se uma banda em que os seus membros são oriundos de diferentes nacionalidade, sendo, no vosso caso, inglesa e austríaca. Como é que se conheceram?

Danny Geffin – Foi há coisa de sete ou oito anos atrás. Eu estava a viver em Londres e o Moritz estudava por lá, na faculdade.

Moritz Kerschbaumer – Sim, eu tinha terminado a faculdade e conheci o Luís (Benjamim) pelo meio. Pouco depois começámos a tocar enquanto dupla e (o Luís) apresentou-me ao Danny e ao irmão, os The Geffen Brothers, numa noite em que íamos todos tocar na mesma sala. A partir daí, juntámo-nos os quatro e passámos a ser uma banda, mas com o passar do tempo a coisa foi-se dissolvendo por diferentes motivos. Passados seis meses, eu e o Danny voltámos a entrar em contacto e começámos a trabalhar em algumas canções.

D.G. – O Moritz ajudou-me em algumas canções que eu estava a compor e trabalhámos juntos cerca de ano e meio. Após uma breve pausa, por volta de uns seis meses, foi o Moritz que entrou em contacto comigo e mostrou-me algumas canções que ele tinha feito, a maior parte delas todas instrumentais. Foi assim que este projeto (os Foreign Poetry) começou a ganhar forma, de forma resumida.

MDX – Poderão as vossas nacionalidades ser o principal motivo pelo nome da banda ou existe outro?

M.K. – Apesar de haver motivos por trás da escolha, sentimos que houve logo um click imediato com o nome.

D.G. – Entre esses motivos, alguns apenas se tornaram claros após termos decidido em ficar com Foreign Poetry. Ao fim ao cabo, acabou por ser como um daqueles acontecimentos em que sentimos que estava predestinado a acontecer.

M.K. – Claro que houve a influência de alguns fatores, como aquele que disseste, e a forma como nos remete para os tempos que se vivem nos dias de hoje, numa sociedade cada vez mais multicultural. Mas gostar do nome foi um dos motivos principais para a sua escolha, sem dúvida.

MDX – A vossa sonoridade é deveras singela. Poderá esta ser fruto da junção entre as vossas culturas distintos? Isto a nível de serem oriundos de países diferentes…

D.G. – Sim, acho que isso foi um pouco daquilo que aconteceu. Tanto eu como o Moritz não eramos músicos muito contraditórios, que jogavam em territórios opostos, e isso fez com que, mutuamente, desenvolvêssemos a ‘jornada’ musical de cada um; por exemplo, eu não sou uma pessoa mais dada a sentar-me no meu quarto a compor canções numa guitarra do que as criar através de um computador, e o Moritz é muito habilidoso em produzir as canções e esse tipo de coisas.

M.K. – Sou uma pessoa que prefere muito mais focar-me em teclados e sintetizadores. Acho que isso acaba por jogar a nosso favor, porque ambos temos qualidades distintas que acabam por se cruzar e conciliar. Já a nível de influências, isto com base nas cidades de onde somos oriundos, conseguiu-se trocar diferentes ideias que fortaleceram a nossa sonoridade.

MDX – Para este disco, vocês contaram com a participação do Luís Nunes no processo de gravação. Como foi trabalhar com este vosso amigo que, ao fim ao cabo, desempenhou um papel crucial na fundação da banda?

M.K. – Ele desempenhou um grande papel no disco: ao início, quando lhe mostrámos as nossas canções, ele demonstrou um grande interesse e convidou-nos a gravar o disco consigo, num estúdio que ele conhecia. O Luís acabou por tocar bateria – ele é um baterista incrível! – e foi sempre bastante prestável, dando-nos sempre opiniões honestas em aspectos que poderíamos melhorar.

D.G. – Ele sempre desempenhou um papel de ‘irmão mais velho’ para nós na nossa família musical, e é sempre bom ter alguém de quem gostamos muito a trabalhar em algo que nos é tão querido.

MDX – Vocês são a primeira banda estrangeira a assinar pela Pataca Discos. Isto acatou algum tipo de pressão para os vossos lados?

M.K. – Sim, há uma pressão, mas sem dúvida que é saudável. Vejo a Pataca Discos como sendo uma família, que nos acolheu de uma forma carinhosa logo ao início, como o pessoal dos Minka & The Brook Trout e dos You Can’t Win Charlie Brown.

D.G. – Se olharmos bem, há sempre uma espécie de pressão ao gravar-se um disco, independentemente de qual a editora que nos acolhe. Todavia, e perante o ambiente familiar que se vive dentro da Pataca, essa pressão dissipa-se rapidamente nos primeiros instantes.

MDX – Apesar de se tratar do vosso disco de estreia, as primeiras canções que se fizeram ouvir demonstram uma sonoridade rica e diversa. Consideram que o seu resultado final é exatamente aquilo que tinham idealizado no início, antes de o terem gravado?

D.G. – Acho que nenhum de nós tinha uma coisa específica em mente antes de criar o disco, e talvez tenha sido isso que fez com que ele soasse exatamente assim. Deixámos que as coisas tomassem o seu rumo e que fossem acontecendo, e o resultado final que se originou foi algo que nos deixou orgulhosos. Durante o processo de gravação, aí sim começámos a ter uma ‘visão’ daquilo que se pretendia, mas fomos sempre bastante abertos perante sugestões e ideias, algumas vindas do Luís. Houve sempre honestidade entre nós em debater sobre coisas que considerávamos que soavam bem e as que não o faziam, e ao gravar-se um disco, a honestidade e a capacidade de saber ouvir é capaz de ser das coisas mais importante nesse processo.

MDX – Poderá, então, este disco ser visto como uma espécie de ‘cartão-de-visita’ para quem são os Foreign Poetry?

M.K. – O disco nunca partiu com um objetivo predefinido em mente, mas sem dúvida que é nosso desejo que este disco consiga apresentar-nos, enquanto banda, da melhor forma possível. Achamos que se trata de um disco variado, capaz de suscitar diferentes emoções com as quais as pessoas se possam identificar.

D.G – Gostaríamos imenso que as pessoas ouvissem o álbum na íntegra, pois só assim conseguirão interpretar na totalidade toda a emoção que este acata.

20180607 - Festival - NOS Primavera Sound'18 @ Parque da Cidade (Porto)

MDX – Para quando podemos então contar com o lançamento do disco?

M.K. – Estamos a tentar para que saia já em Setembro, mas ainda não temos bem a certeza se será possível. Sem dúvida que sairá ainda este ano, temos idealizada uma data, mas ainda não conseguimos dar garantias exactas.

D.G. Pessoalmente, não sou muito a favor do lançamento de singles, especialmente porque as nossas canções conseguem soar muito díspares quando não ouvidas em conjunto, o que leva a que as pessoas possam criar uma imagem da nossa sonoridade que não corresponda à verdade. A vantagem, claro, é despertar a curiosidade, e nesse aspecto acho que o temos conseguido.

Julgando pela sua folgosa actuação no NOS Primavera Sound, certamente que o nosso apetite não ficou totalmente saciado perante o que nos reserva Grace and Error on The Edge of Now, deixando-nos com a expectativa em alta para o primeiro disco dos Foreign Poetry.

Entrevista – Nuno Fernandes
Fotografia – Luis Sousa