Já tinha passado muito tempo desde do último concerto. Foi assim que Marilyn Manson abriu um concerto que foi uma viagem ao presente e ao passado do músico, num Campo Pequeno que este a rebentar pelas costuras, cheio de gente, fumo e muito barulho.

Enquanto a sala se ia compondo para um espectáculo que não uma corrida de touros, quem se soltou como não houvesse amanhã foi a DJ Amazonica, nome artistico para Victoria Harrison. Encarregue de aquecer a malta até pouco antes das 21h30, hora do início do concerto, foi ao som de Run the Jewels, Kendrick Lamar, mas também Nirvana, AC/DC e Rage Against the Machine que se fez o início esquizofrénico de uma noite que aguardava impacientemente pelo Marilyn Manson.

Quando o relógio bate quase umas 21h40, começamos a ouvir os acordes bowianos de Ziggy Stardust antes de romper uma enorme nuvem de fumo branco. É Brian Warner a entrar com os seus muchachos em palco. Como qualquer início do mundial, é hora de escutar o hino. Irresponsible Hate Anthem é gritado a plenos pulmões, onde se revela lacunas sonoras no Campo Pequeno.

Microfone ao chão constantemente (coitado do roodie que andava a fazer piscinas de lanterna na mão para dar outro e procurar o atirado) foi uma outra imagem de marca do concerto, que contou muitas vezes com gritos do frontman para a sua banda, quase como se fosse um desentendimento. A frustração que sentia não transparecia quando conversa com o público português. “Vocês são a cidade que faz mais barulho“. Se calhar Manson diz isto a todos, mas os decibéis subiram mais um pouco depois do elogio.

O concerto é mais do que a apresentação do Heaven Upside Down. Muito já se falou dos anos polémicos, dos álbuns falhados, e a verdade é que a essência do Marilyn Manson está em muito concentrada no Antichrist Superstar, a sua auto-denominação e o seu pináculo artístico. Angel With The Scabbed Wings, Deep Six, This is the New Shit, Disposable Teens e mOBSCENE são espelho de um concerto que contou com uma capacidade atlética de Manson impressionante. Sempre a esprenear-se no chão, a correr de uma ponta à outra, o palco era dele, e pouco do resto da banda. Ele é a estrela.

E ainda se torna mais surpreendente quando manda subir três moças ao palco aquando do Kill4Me. Seios exibidos, beijados trocados, toda a premiscuidade que pode definir em parte os espectáculos do norte-americano foram ali demonstrados em apenas 5 minutos. Depois, acompanhado de um cigarro com substâncias psicotrópicas (supomos), The Dope Show reflecte toda uma imagética teatral que se compôs ao longo da noite.

A partir daí, o espectáculo se tornou mais arrastado e demorado. Com longas pausas entre as músicas, sem saber o motivo (porque encore não era), não fez demover os ávidos fãs que no meio de tanto mosh e crowdsurf tiraram os telemóveis para gravar o Sweet Dreams, a eterna cover dos Eurothmics, que ele tanto celebrizou.

O Say10 antecedeu uma subida a um púlpito onde Manson evocou o Antichrist Superstar. Cry Little Sister é a ponte para o The Beautiful People que é o último grande momento da noite, evocado e gritado por todos os fiéis do Manson ali presentes. Já visivelmente cansado, o Coma White é a despedida algo inglória num concerto que teve muitas deficiências. Pecou no som, na própria qualidade músical (refira-se aqui a banda) e que Marilyn Manson tentou ombrear e ultrapassar as dificuldades o mais que pode. Quem é verdadeiramente fã, saiu contente com a sua vinda. O resto ficou a sentir que faltou qualquer coisa.

Texto – Carlos Sousa Vieira
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Everything Is New