Os Baroness apresentaram-se na sala Lisboa ao Vivo ainda com Purple, álbum editado em 2015, debaixo do braço e num formato que só ficou definido dois dias antes, fruto de mais uma situação negativa envolvendo os elementos da banda. Neste caso, foi com o baterista Sebastian Thomson, que teve de viajar de urgência derivado a uma situação familiar, levando a que John Dyer Baizley e companhia preferissem apresentar um conjunto de canções em formato acústico, e mais intimista, do que em estar a cancelar o espetáculo.

Mas recuemos ao momento em que entrámos na sala de espetáculos Lisboa ao Vivo. Nessa altura, chamou-nos de imediato a atenção o espaço dedicado à venda de merchandising dos Baroness, digamos que relativamente grande quando vista na perspetiva daquela sala.

Os portugueses Process Of Guilt, banda convidada para fazer a primeira parte, também tinham algum do seu merchandising à venda no tal espaço, mas em número muito inferior quando comparado com o da banda cabeça de cartaz da noite. Nesta altura, aquando do arranque da atuação do conjunto português, a sala encontrava-se a meio gás, mas desde logo se percebeu que nesta noite de verão as t-shirts pretas seriam acompanhadas por calções ou saias. Os Process Of Guilt foram recebidos com alguma frieza, talvez fruto do público presente não conhecer a fundo o trabalho destes senhores, mas, como é costume nos eventos ligados a este tipo de música, ao mesmo tempo verificou-se da parte de todos um enorme respeito, prestando toda a atenção a tudo o que se passava em cima do palco. Os Process Of Guilt seguem uma sonoridade algo repetitiva, sendo a sua técnica, nomeadamente ao nível das guitarras, pouco apurada. Apesar da vantagem de falarem em português, a verdade é que não souberam aproveitar essa ferramenta uma única vez, já que não se ouviu uma única palavra dirigida ao público ao longo dos quarenta minutos da sua atuação.

Vem a pausa, para preparar o palco para os cabeça de cartaz, e nessa altura apercebemo-nos que a sala já está bem cheia. Durante o intervalo somos surpreendidos pela audição de “I Wanna Be Adored” dos The Stone Roses, sem dúvida um excelente tema, mas que acaba por destoar um pouco numa noite dedicada a outros tipos de sonoridades.

Acabado o intervalo, tempo para nos dedicarmos por completo aos Baroness, banda oriunda da Geórgia e que ficou profundamente marcada por um horrível acidente de viação, ocorrido a 15 de agosto de 2012, numa viagem entre Bristol e Southampton para realizar mais uma data de uma digressão britânica, que ameaçou deixar o projeto em ruínas. Passados quase seis anos, o azar parece que continua a perseguir a banda, desta feita foi então Sebastian Thomson que teve de viajar de urgência para casa durante alguns dias, deixando a banda sem bateria, mas também sem a intenção de cancelar concertos. Assim, decidiram avançar para uma atuação em trio e em formato acústico, com John Dyer Baizley na guitarra, principalmente a acústica, e na voz, Gina Gleason na guitarra, quase sempre acústica, e nas segundas vozes e Nick Jost nos teclados, tendo este no entanto não tocado em alguns dos temas apresentados.

Talvez derivado da situação, a setlist do espetáculo revelou-se algo curta, apenas onze canções foram apresentadas. Ainda antes de se atirarem ao primeiro tema da noite, John Dyer Baizley pede desculpas pelo sucedido, explicando toda a situação ao pormenor. Os presentes já sabiam como iriam ser as coisas e pela forma extremamente positiva como receberam as palavras do líder dos Baroness, parece que não ficaram muito incomodados com a mudança de abordagem ao espetáculo desta noite de quinta-feira, 27 de junho. Gina Gleason surge num formato algo “colegial”, sentada, vestida daquela forma e com uma guitarra acústica, mais parecia estar num convívio de um grupo de escuteiros aí numa praia qualquer, mas tudo isto é compensado por uma técnica apuradíssima ao nível da guitarra. Mas todo o destaque vai para John Dyer Baizley, um autêntico mestre-de-cerimónias, revelando durante todo o espetáculo uma enorme simpatia, falando, e muito, durante os intervalos das canções, vendo sempre as suas palavras recebidas com o maior dos entusiasmos por parte dos presentes, que por diversas vezes se juntaram ao vocalista para consigo interpretar parte de algumas das canções.

Os primeiros temas da noite foram “Foolsong”, “March to the Sea”, “Green Theme”, “Cocainium” e “Little Things”, todos eles de Yellow & Green, álbum lançado em 2012. Só ao sexto tema aparece algo de Purple, mais precisamente “If I Have to Wake Up (Would You Stop the Rain?)”, para de seguida se manterem no disco de 2015 com “Fugue” e “Chlorine & Wine”. Regresso ao disco de 2012 com “Board Up the House” e “Eula”. A banda despede-se, mas o público queria mais e os Baroness fizeram-lhe a vontade interpretando “Shock Me”, do álbum Purple, sem dúvida o tema mais bem recebido da noite.

No final, ficou a confirmação de que o público não se importou nada com a mudança do formato do concerto, reinando em todos a ideia de que a noite tinha correspondido às expetativas criadas, apesar do caminho para se lá chegar ter sido diferente daquele que estava previsto até há alguns dias atrás. Como dizia um dos presentes à saída da sala, a questão que agora se coloca é “qual será a cor do próximo disco?”, álbum que está a ser aguardado com a maior das expetativas.

Texto – João Catarino
Fotografia – Nuno Cruz
Promotor – Prime Artists