Na noite da passada Sexta-feira, 22 de Junho, o Sabotage recebeu os My Master The Sun e os A Last Day On Earth, que proporcionaram uma bela noite de concertos, destacando-se pela intensidade e densidade que emanaram em palco. Para mim foi uma primeira vez a dobrar. Costumo dizer que é ao vivo que as bandas mostram a sua verdadeira essência e talento e ambos não desiludiram. Cada projecto, à sua maneira, já que a sonoridade, apesar de se cruzar em alguns aspectos distingue-os em maior número, mostrou que a música portuguesa é muito mais do que se vê à primeira vista e que no campo do metal há quem tenha uma palavra a dizer. Ou várias.

Começando com os My Master The Sun, a palavra é, de facto, um adereço que prima pela intervenção, pela irreverência e pela perturbação da dormência que se possa fazer sentir. As letras não são inocentes e a tenebrosidade com que são evocadas servem o seu propósito, de inquietar, provocar, incitar à acção. Mas ainda antes das palavras vem o instrumental e também esse é poderosíssimo. Não existem limites nem barreiras no que exploram. Das guitarras frenéticas aos laivos psicadélicos, da bateria em compasso de gigante à euforia total, do baixo sublime ao ribombar no peito, tudo se une, complementado pela voz, para nos agarrar pelo âmago e nos obrigar a uma certa purga necessária e urgente. Foi uma bela surpresa que sinalizou My Master The Sun como uma banda a ter debaixo de olho e a acompanhar de perto. Os My Master the Sun são o Ricardo Falé (voz + guitarra), o João Menor (guitarra), o Ricardo Canelas (baixo) e o Nuno Garrido (bateria).

Seguiram-se os A Last Day On Earth, oriundos da hiperactiva e hiper talentosa cidade de Leiria. Já contam com uma década de existência e regressaram recentemente à estrada para fazerem vingar a sua música. Com o Valter Geraldes na voz e guitarra, o Ruben Santos na guitarra, o João Félix no baixo e o Bruno Nunes da bateria, os A Last Day On Earth proporcionaram-nos uma viagem que teve tanto de emotiva como de electrizante. Apesar de se notar um nervosinho miudinho nas primeiras canções, normal e aceitável de quem esteve fora dos palcos durante algum tempo, o quarteto não só deu a volta por cima como terminou de forma explosiva e a mostrar a verdadeira fibra da qual são feitos. Existe um traço melancólico, reforçado pelo ligeiro tom rouco da voz de Valter, que ganha uma força e uma dimensão palpável através de uma componente instrumental de inegável qualidade e irreverência. Tudo conjugado, a personalidade de Last Day on Earth manifesta-se através de um ambiente que varia entre o apocalíptico e a redenção, deixando um rasto de devastação, da boa, pelo caminho.

A falta de uma casa mais composta proporcionou um papel ingrato às bandas. Ambas mereciam uma plateia cheia que lhes retribuísse a energia e a partilha de alma que ali se deu. Em A Last Day on Earth, tal tornou-se ainda mais evidente. Estamos perante uma banda que apela ao movimento, ao mosh, ao deixarmo-nos levar, perdendo-nos entre a mensagem e o sangue quente provocado pelo eco dos instrumentos. Na minha opinião, perdeu quem não esteve presente.

Setlist My Master The Sun:
A Arte da Desobediência
Uno
TV
Os Corvos Levantan Voo
Assassímio

Setlist A Last Day On Earth
Worlds Hunter
Castles Made Of Sand
Storms of Silence
You Know
Staring at the sun
Black sunrain
Fall
Distance
Morte
Fire Song

Texto – Sofia Teixeira | Blog BranMorrighan
Fotografia – Luis Sousa