As matinés de domingo no Rock Rendez-Vous, eram geralmente compostas por pequenas bandas de Punk-Rock português. Aquela coisa de entrar de dia e sair no lusco fusco, ofuscados pelas cristas brilhantes que emanavam um agradável odor a sabão azul e branco, elevavam-nos os níveis de adrenalina. A tal ponto que o jantar, a maioria das vezes, era devorado pela ressaca.

O chegar à porta do RCA Club às 20h00 foi uma experiência semelhante. Não só pela claridade nas cristas coloridas, mas pelo mesmo nó no estômago da excitação de saber que o zumbido nos ouvidos me iria acompanhar até ao outro dia.

Uma escolha assertiva com vários estilos dentro do mesmo registo musical. A diversidade de estilos dentro do mesmo registo é muito interessante no Punk-Rock. Não basta duas guitarras e uma bateria para a coisa soar ao mesmo. Não. Cada banda trabalha a sua identidade e consegue sempre surpreender ao vivo, aliás este é um desafio comum a todas as bandas punk e, por sinal, é na generalidade largamente superado.

Fios de sangue desalinhados corriam pelo rosto, braços e pernas. Batas brancas vestidas numa espécie de camisas-de-forças enfurecidas, pela desobediência enérgica da falta de senso. Ao fundo um largo pano branco com Dr. Bifes e os Psicopratas. O trio de Linda-a-Velha substituiu os lisboetas Dalai Lume, para início de uma noite que se esperava longa. A beleza do horrendo e o tom elogioso dos insultos dominaram a sua actuação, que aprimorou pela alta produção de um hospital psiquiátrico vandalizado.

O tempo exacto de uma cerveja, foi o suficiente para que os lisboetas F.P.M. (Feio Porco Mau) estivessem prontos no placo. Simples, sem artefactos, “sem pretensões ou manias” e acima de tudo profissionais! Um baixo de meter inveja a muita banda de elite que por outros palco anda; presença forte do vocalista que com honestidade comunicou com o público conseguindo criar empatia. Muito público que estava à porta entrou e reagiu aos apelos de Diogo e aproximaram-se do palco para gritarem em uníssono “Já Estou Farto”, música que dá nome ao álbum de 2016, editado pela Infected Records.

As expectativas eram altas, e a ansiedade de experienciar um concerto dos The Casualties também. Montagem de palco mais demorada, não fossem os norte-americanos uma das maiores bandas de punk rock da actualidade. Surgiram em 1990, época em que o punk americano estava a necessitar de um boost  para continuar a ser, mais do que um registo musical, um modo de vida. Com mais de uma dezena (último CD Chaos Sound, 2016) de discos gravados, com entradas e saídas de músicos (comum em registos intensos) a banda de Nova Jersey trouxe ao bairro de Alvalade uma legião de fans. Desde o primeiro momento de subida ao palco que David Rodriguez (actual vocalista) tornou o concerto um encontro de amigos. Incentivando às danças tribais, vulgo pogo e mosh, intensificando o contacto físico das tribos. Rejeitou as garrafas de água e pediu três shots de whiskey, a desculpa era que o guitarrista não estava ainda suficientemente bêbado (este afinava a guitarra de costas para o publico). Como o pedido estava demorado, saiu do palco e foi ao balcão. Num trago de garganta lá escorregou o whiskey e continuaram o concerto (sempre) com uma intensidade incrível. “Saturday” repetiu o baixista várias vezes, como se quisesse convencer-se que não era domingo.

Tomorrow belongs to us”, numa espécie de hino contestatário à actual presidência dos EUA, Donald Trump. Tema que mereceu das melhores e frenéticas danças da noite que, a igualar, só mesmo “Do you wannna dance” (versão dos Ramones) ou “We are all you have”. O envolvimento de David (e Rick Lopez, baixista) com o público é digno de registo, pois estão mesmo próximos de quem está à sua frente. David aproximou-se de uma rapariga que estava mesmo colada ao palco (desde o inicio da noite),  e disse que ela estava à porta do RCA Club desde as 14h00. Perguntou-lhe o nome e gritou-o bem alto ao micro, seguido de um pedido ao público para o repetir – “Paula!” – Mais que uma merecida homenagem!

O RCA Club é dos sítios em Lisboa mais completos. E sabem porquê? Malta simpática e despretensiosa, casas de banho limpas, barmans com pinta e simpáticas, música genuína, punks estilosos e o ar é respirável. Um domingo do caraças!

Texto – Carla Sancho
Fotografia – Luis Sousa