O Sabotage Club comemora cinco anos de vida e para o celebrar quem gere a sala do Cais do Sodré decidiu prolongar por quatro dias – de 2 a 5 maio – a festa alusiva a uma efeméride tão importante na vida deste local que vive e se alimenta de música ao vivo, um bem cada vez mais raro em Lisboa.

Na capital de Portugal, houve tempos em que a sala de referência da música ao vivo, e das novidades que iam surgindo no meio musical português, era o Rock Rendez Vous, na Rua da Beneficência ao Rego. Mais tarde, o Johnny Guitar, na Calçada Marquês de Abrantes, matou algumas das saudades causadas pelo desaparecimento da sala atrás referida. Se a primeira marcou os anos 80, a segunda fez furor nos 90. Depois disso, ficou um vazio por preencher no que diz respeito a clubes de música ao vivo em Lisboa. Alguns locais, que foram surgindo, tentaram recuperar algum do espírito trazido pelo Rock Rendez Vous e Johnny Guitar, mas sem o mesmo sucesso, ou, pelo menos, sem o mesmo carisma daquelas salas. Até que há cinco anos atrás, em plena época de crise, alguém teve a coragem e a ousadia de abrir um local com muito em comum com aquelas duas salas míticas. Falamos do Sabotage Club, que desde 2013 leva à Rua de São Paulo, no Cais do Sodré, projetos musicais quase sempre dominados pela guitarra elétrica, que, no fundo, é o que define aquilo que é a essência do rock, e que encontram sempre naquela sala todas as condições para apresentar o seu trabalho e a sua forma de abordar a música feita com guitarras elétricas.

 

Curiosamente, a primeira noite da festa de aniversário não foi marcada unicamente pelas guitarras elétricas, ou pelo menos pela forma como ela é abordada no universo rock. A música de dança, oriunda de diferentes pontos do planeta, também desempenhou um papel importante.

O Sabotage Club demorou a ficar composto e talvez por isso as atuações tenham arrancado muito depois da hora marcada – esta é uma situação que carateriza os concertos neste género de clubes em Lisboa, o nunca sabermos bem a que horas realmente eles arrancam, talvez uma situação a rever! A abrir as hostilidades tivemos então os Debut!, um duo oriundo do Barreiro, formado por Cláudio Fernandes na guitarra e Diogo Vaz no baixo, acompanhados por um baterista, que não chegou a ser apresentado, e onde reina uma mistura, pouco previsível, entre Nova Iorque e Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. Nos cerca de trinta minutos que estiveram em palco, percebeu-se facilmente que, cima de tudo, existe da parte deste projeto uma tremenda vontade em deitar abaixo todos os conceitos, e regras, associados ao rock. Com eles, vivemos em plenitude a liberdade de se pegar em instrumentos e fazer o que muito bem se entender com eles, mesmo que isso fuja por completo à definição mais clássica de rock. O baixo de Diogo Vaz é mais agudo que o normal e a sua técnica é apuradíssima, fazendo lembrar, ao nível dos movimentos corporais e da técnica, o Flea (baixista dos Red Hot Chili Peppers). Cláudio Fernandes é um guitarrista que está preocupado acima de tudo com o explorar e o criar de ambientes e texturas sonoras, recorrendo, exagerando se for preciso, para isso aos pedais que tinha consigo. O público foi reagindo à atuação dos Debut! com alguma empatia, acompanhando o ritmo com o balançar da cabeça. Sem voz a acompanhar e só com instrumentais, o concerto acabou por ter o ponto interessante de ter baixista e guitarrista não no palco mas ao nível do público, fazendo com que as pessoas presentes tivessem ainda mais noção da forma exuberante com que estes senhores se envolvem com o que estão a fazer. A música tem outro valor quando é feita com paixão e estes senhores enquadram-se perfeitamente nessa lógica. Depois de em 2006 (já há tanto tempo!) se terem estreado com Stop Complaining, Music is Dead, os Debut! regressaram então agora ao ativo, pelo menos aos concertos, esperemos que não fiquem por aqui.

 

Depois de uma breve pausa, foi a vez de Óscar Silva, mais conhecido nestes campeonatos por Jibóia, a tomar conta do palco do Sabotage Club, mostrando-nos aquilo de que se faz a sua música, sendo ela uma enorme misturada de ritmos e de sons vindos de todo o mundo, sempre com a batida de dança presente e a marcar tudo o resto. No fundo, confirma-se a ideia de que a sua música é uma espécie de eletrónica mais convencional, mas com influências oriundas de diferentes continentes. Três músicos em palco – a acompanhar Jibóia estava Ricardo Martins na bateria e Mestre André nos sintetizadores e saxofone – e vários vídeos projetados atrás em modo loop, dominados por figuras geométricas pretas e brancas. Destaque para Ricardo Martins, que se revelou dono de uma técnica super apurada ao leme da bateria. Um pouco como aconteceu com os Debut!, também agora nos pareceu tudo oriundo de uma espécie de jam session, já que aquilo a que chamam músicas mais parecem ser um acumular de sons resultantes de um improviso feito de uma forma totalmente livre, sem regras pré-definidas. Faz-se o que apetece e ponto, quase como se estando a “brincar” com os instrumentos que se tem à frente de uma forma algo inconsequente. Talvez por isso o público se tenha alheado um pouco. Destaque para a utilização do saxofone, a dar um toque jazzístico à coisa.

 

Nesta primeira noite de celebração dos cinco anos de vida do Sabotage Club, o espaço apresentou-se bem composto, com dois convidados que interpretam a música de uma forma totalmente livre e sem regras pré-estabelecidas. O som, como é costume nesta sala, estava com qualidade. No entanto, quem não fuma sai do clube do Cais do Sodré com a ideia de que não foi respeitada a ideia de que a liberdade de cada um termina onde começa a do outro. Outra situação a rever!

 

Fotografia – Nuno Cruz
Texto – João Catarino