5 anos de Sabotage Club, a sorte protege os audazes

Ao contar as coisas por dias ao invés de anos ou meses ou até semanas a grandeza desse momento mostra-se de uma outra forma. O Sabotage Club comemora esta semana o seu quinto aniversário e para o fazer com a pompa e circunstância que a ocasião pede, vai trazer-nos uma semana cheia de concertos nacionais e internacionais. Fazendo as contas a 5 anos vezes 52 semanas vezes 3 dias de concertos por semana, considerando que em metade desses houve pelo menos duas bandas….uma contabilidade simples dá um simpático número de cerca de 1500 concertos em 5 anos. E dj’s? Bem pessoal do rock n’roll e derivados as mãos já não chegam para os contar, mas podemos começar pelos evidentes; O David Polido que foi o primeiro Dj residente do Sabotage e o Nuno Rabino que é o actual residente. Depois os que são quase residentes; A Boy Named Sue e o Tiago Castro, o Pedro Chau e todos os convidados que vêm de fora de Lisboa como o Maurício  ou o António Manuel, o Vitor Torpedo entre outros.

Há cinco anos atrás o Cais do Sodré já tinha começado a mudar. Portugal estava mergulhado na crise mais profunda que a maioria de nós alguma vez conheceu, na ordem do dia estavam coisas como o FMI ou a Troika, o desemprego galopante as manifestações daqueles que sem perceber como estavam a perder tudo o que tinham construído. Não consigo imaginar pior momento para abrir um espaço de diversão nocturna que este. Como eu muita gente deve ter pensado exactamente o mesmo. Mas a paixão e dedicação de todos os intervenientes neste processo, desde a Ana Paula e do José Maria que são os proprietários, ao Carlos Costa que gere o Sabotage desde que abriu, ao David Polido, ao Nuno Rabino, aos técnicos de som, à equipa que atrás do balcão, noite após noite, mata a sede às várias centenas de pessoas que ali entram, ou a dedicação de quem está porta à chuva, ao frio ou ao calor a noite inteira a receber quem chega pela primeira vez ou quem volta outra e outra vez, ao pessoal que colaborou e colabora com a comunicação e produção dos eventos como o João Rolo, a Carolina Freitas, a Raquel Lains ou a Eliana Berto, toda a gente é movida por algo muito maior que eles próprios, essa coisa misteriosa que é uma linguagem universal, a música. E essa linguagem universal encontrou ali, naquela porta da Rua de São Paulo mais que uma casa, um lar.

Toda a gente que ali entra gosta é mesmo de ver concertos de casa cheia, mas não demasiado cheia. Cheia de calor humano mas não demasiado. Com uma dose de loucura que às vezes ultrapassa os limites mas que parece nunca chegar para deter quem por ali circula.

Obrigada Sabotage, por todos os momentos estranhos, bons e quentes de simbiose com o universo enquanto ouvíamos bandas dos quatro cantos do mundo. Obrigada por todas as ocasiões em que aquela pista de dança se transformou no centro do mundo enquanto ouvíamos coisas que nunca havíamos ouvido antes ou outras que nunca ninguém havia ousado passar…

Depois de toda esta conversa lamechas de aniversários e recuerdos sentidos e agradecimentos improvisados aproveitámos para falar com o José Maria e com a Ana Paula sobre o Sabotage Clube, a aventura que foram os últimos cinco anos e desvendar um pouco o que se vai passar nos próximos tempos.

Música em DX (MDX) – O bichinho de organizar concertos já existia muito antes de existir o Sabotage Club. Quando é que decidiram atravessar o caminho para uma casa de rock?

José Maria – Quando organizámos o concerto de Godspeed You! Black Emperor no Porto e perdemos muito dinheiro. Estava lá um senhor que estava a vender cerveja e ganhou muito dinheiro e nós pensámos, temos de arranjar um espaço nosso e fazermos nós o bar, porque mesmo que a música não dê tanto dinheiro…

Ana Paula – Já poderíamos arriscar mais, porque podíamos compensar com o bar…

José Maria – Foi a génese do Sabotage.

MDX – Conseguir continuar a fazer concertos mas sem um risco tão grande, ou pelo menos de forma a compensar o risco?

José Maria – Sim!

Ana Paula – Eu confesso que esse concerto foi um bocado traumatizante. Antes desse concerto já tínhamos produzido alguns concertos e as coisas tinham corrido bastante bem. O Eric Mingus, Godspeed no Paradise Garage, que correu muito bem, o concerto esteve completamente cheio…No Sá da Bandeira, bem nós não tínhamos muita experiência no Porto. Fazíamos tudo, a comunicação, espalhar cartazes pela cidade, e no dia seguinte chegámos lá e a brigada de colagem tinha colado por cima. Depois no dia do concerto cometemos outro erro. Colocámos os bilhetes mais baratos no Porto porque achámos que no Porto as pessoas tinham menos poder de compra e fizemos as entradas mais baratas por esse motivo. No entanto o prejuízo que tivemos foi exactamente essa diferença. Se tivesse sido o mesmo preço no Porto que foi em Lisboa tínhamos conseguido pagar. No Porto foram 700 pessoas em Lisboa foram 600. Mas no Porto aquilo foi muito traumatizante, porque no fim da noite chamam-me à bilheteira e eu constato o prejuízo que tínhamos tido e ao entrar tinha visto um senhor que tinha lá duas bicas de imperial a contar dinheiro e pensei “Este homem não fez nada, não contratou bandas, não perdeu noites sem dormir a pôr cartazes e na realidade ele é que lucrou a sério!”.

MDX – Isso aconteceu há quanto tempo?

Ana Paula – Foi pouco antes de fecharmos a editora.

José Maria – Há cerca de dez anos.

Ana Paula – E eu disse ao Zé “Não fazemos mais concertos. Ou a sala é nossa e o bar é nosso e se perdermos o bar compensa ou desta forma não funciona!”

José Maria – Era uma visão errada porque os concertos dão dinheiro.

Ana Paula – Sim, os concertos dão dinheiro, nós é que ainda éramos miúdos e achámos aquilo uma injustiça! (Risos)

MDX – É um ponto de partida. E já tinham experiência na organização de concertos. Acabou por ser o passo mais lógico a dar?

Ana Paula – O Zé Maria tinha mais experiência na organização de concertos…

José Maria – Sim, fizémos o Jonh Zorn, F Comunications Party…

Ana Paula – Isso eram umas festas…

José Maria – Richard Galliano…Era outro campeonato, era jazz e música experimental, não era bem rock.

MDX – Mas quando pensaram no Sabotage, pensaram num club de rock?

José Maria – Nós estávamos mais ligados aos discos que aos concertos, mas os concertos eram sempre uma mais valia.

Ana Paula – Gostávamos de conseguir fazer as duas coisas. Representar as bandas e pô-las cá a tocar e se tivéssemos algum local onde fosse possível isso acontecer com naturalidade, porque representávamos mais de duzentas e tal editoras, muitas norte-americanas. Só que depois as bandas vinham cá tocar quase todas à ZDB. Nós faziamos o trabalho de distribuir e divulgar e depois a ZDB trazia cá os artistas para tocarem lá. Imensas bandas com que se trabalhava na altura e que a ZDB ainda faz como o Bonnie Prince, todos os que nessa altura eram artistas emergentes e hoje já tem nome na praça, consagrados…

MDX – Mas isso Já foi há mais de dez anos…

José Maria – Sim de certeza.

Ana Paula – A distribuidora foi de 1999 a 2008, princípio de 2009…

MDX – Quando pensaram no Sabotage pensaram num sitio com pés e cabeça em termos de espaço e som, que fosse capaz de receber do mais minimal ao mais brutal, mas que tivesse acima de tudo qualidade?

Ana Paula – Há coisas que já não conseguimos fazer aqui porque o espaço é limitado e não podemos ter aí bandas com backlines gigantes, se bem que isso já aconteceu algumas vezes, mas é um bocadinho arriscado. Mesmo quando éramos distribuidores tivemos sempre uma certa orientação estética e o cuidado de tentar ter coisas que fossem boas, que tivessem qualidade e não apenas coisas que vendessem. Dessa forma consegues criar uma identidade mais sólida porque não te estás a dispersar só porque assim isto levava mais gente mas porque queres ter uma linha de orientação de qualidade e que faça com que cada vez mais pessoas queiram visitar o espaço.

MDX – Pensar a longo prazo?

Ana Paula – Pensar a longo prazo e não uma coisa imediata, não algo que corre bem, porque correu bem mas sim porque tem pernas para andar. Há coisas que podíamos fazer aqui e que podiam ser boas naquele dia mas negativas a longo prazo para a identidade que queres criar e isso para nós é importante.

MDX – A qualidade do som da sala também acaba por ser um foco de atracção para as bandas que aqui querem trazer?

Ana Paula – Quando este espaço foi criado nós tivemos essa preocupação e se vires o P.A. que temos é muito bom e isso dá-te duas garantias; uma é que as bandas saem daqui felizes e outra é que o público teve um concerto com uma qualidade de som boa. E eu acho que isso é essencial tanto para as bandas como para o público. Fizemos um grande investimento nessa parte inicialmente e temos continuado a fazê-lo ao longo do tempo, e que nunca pára, porque para manteres um espaço destes a funcionar tens de estar sempre a cuidar dele e a garantir que as coisas estão a funcionar. Inicialmente até gostávamos de ter feito um espaço mais eclético mas depois com o desenrolar das coisas tivemos de nos focar mais na linha do rock. Nós quando distribuíamos tanto distribuíamos world music como distribuíamos jazz e rock. Mas em termos de um espaço…

José Maria – Num espaço destes se te dispersas muito não crias uma ligação com nenhum público especifico e isto só um sitio de beber copos. Ou és um sitio maior e podes divagar mais ou se tens um sitio mais pequeno tens de criar uma ligação e uma identidade para as coisas funcionarem.

MDX – Qual foi o concerto mais difícil para vós, aqui? A dificuldade é à vossa escolha.

Ana Paula – Houve um que me assustou a sério.

José Maria – O Kid Congo.

Ana Paula – Chegaram aqui já depois das 23h. Isso foi um susto porque não se fez soundcheck, a casa já estava aberta, já havia público na sala, e não tinhas o artista, não tinhas os instrumentos no palco. Não tínhamos nada. E ligávamos para quem supostamente os estava a trazer para aqui e desde as quatro da tarde que a resposta era a mesma, estamos a caminho, estamos a chegar…Mas foi incrível porque ele chegou, montaram o palco, fez um sound check de cinco minutos e passado mais cinco começou o concerto e deu um concerto fantástico.

José Maria – O meu susto foi o King Khan e o Mike Zoltan. Chatearam-se e queriam desmarcar o concerto. Chatearam-se, depois o Mike Zoltan magoou-se numa perna…

Ana Paula – Eles chatearam-se um com o outro e acho que o Mike Zoltan disse “ Ah vou-me embora”, começou a agarrar nas coisas dele e ia sair com aquilo tudo e depois no meio daquele processo de sair com as coisas todas, magoou-se num pé. Agora o problema já não era estarem chateados, era ter um pé magoado e por isso não tocava. O Carlos ligou-me e já estávamos mesmo a ponderar desmarcar o concerto, mas depois ele acalmou. Trouxemos umas muletas, cremes, ligaduras… porque não sabíamos como é que ele se tinha magoado. Fomos jantar e houve ali uma confusão na tradução do nome dos pratos. O King Khan queria peixe e bem aquilo era peixe mas era peixe frito. Amuou e agora era ele que não queria tocar.

José Maria – E foi assim quase até à hora do concerto.

MDX – E as boas surpresas?

Ana Paula – Para mim foi Jibóia com o Ricardo Martins a tocar o Tomorrow Never Knows. Eu só pensava para mim mesma “Isto está mesmo a acontecer? Aqui?”. Uma das maiores surpresas foi também ver o Ricardo a tocar. Já tinha visto o Ricardo a tocar com uma série de bandas e ele toca realmente muito bem e é uma excelente pessoa, um óptimo músico que parece quase organicamente ligado ao instrumento.

José Maria – Para mim foi os Toy. Foi o melhor som que vi aqui. Instalaram um amplificador na casa de banho, um de guitarra. O som estava fantástico. Trouxeram o técnico de som deles.

Ana Paula – O som parece que respirava.

José Maria – Sinceramente não esperávamos aquilo dos Toy.

Ana Paula – Ficámos a pensar nisto do amplificador na casa de banho. (Risos)

José Maria – Cantar no duche tem a sua ciência em termos de acústica.

Ana Paula – O meu problema nisto das bandas é encontrar o fio à meada…

José Maria – O primeiro concerto de Parkinsons foi fantástico.

Ana Paula – O primeiro concerto de D3O foi fabuloso, foi o lançamento do disco…e o Toni Fortuna e o Tó Rui deram tudo em palco…

José Maria – E aquilo tinha sido um trabalho de promoção muito bom do João Rolo.

Ana Paula – Os Mistery Lights que estiveram aqui no final do ano passado. Aquilo também foi um concerto à séria. Os Archie and the Bunkers foram das excelentes surpresas em termos de bandas emergentes. Acho que ambos se vão tornar bastante grandes ao ponto de se tornar inviavél tocarem aqui e nós tivemos esta possibilidade. E são uns miúdos. Os Cosmic Dead também foi um concerto espectacular. Mais recentemente os Sextille foram uma grande surpresa. Já tínhamos percebido que aquilo ao vivo ia funcionar bem, mas ter a casa cheia a uma segunda à noite…não estávamos à espera de ter tanta gente. Uma energia do caraças. Às vezes não é facil…andas a trazer bandas que não são muito conhecidas aqui…

José Maria – O Sabotage tem esta particularidade da proximidade do público, a coisa é muito in your face.

Ana Paula – Dá-se uma simbiose entre as bandas e o público. E mesmo as bandas, muitas vezes acabam os concertos e vem dançar. Tentamos garantir que depois do fim do concerto haja sempre um dj set de qualidade ou uma festa temática, até porque temos algumas.

MDX – O Sabotage tem algumas festas que são organizadas com alguma regularidade…

Ana Paula – Sempre gostei de construir conceito, de desenvolver projectos. Criar conceitos especificos, desenvolvê-los e mantê-los no tempo é algo que eu acho muito importante e que te ajuda a melhorar. A primeira festa que tivémos cá em termos de conceito foi a Kaleydoscope que começou em 2014, e que se mantém desde essa altura e que já vamos para a 17ª edição. Acontece mais ou menos de dois em dois meses, ou de três em três meses…É uma festa que é organizada pelo Tiago André, o Boy Named Sue que tem uma temática mais virada para o psicadelismo. Depois temos o Cool Trash Club que é uma festa criada e organizada pelo Boy Named Sue e pelo Nuno Rabino, a Rock n’roll Suicide e a Chills & Fever. Tentámos criar outras como o Sabotage All Stars mas que às vezes se complica um pouco por causa de termos concertos.

MDX -E os cartazes e bilhetes? 

Ana Paula – A criação dos cartazes dos concertos e das festas realizadas no Sabotage Club, é  muito importante. Tentamos sempre que cada evento tenha um cartaz especial, para divulgação. O cartaz da nossa programação mensal, criado pelo João Maio Pinto, o responsável também pela criação do mural do Sabotage Club, é uma das viagens gráficas mais incríveis. O nosso cartaz do mês de Março de 2018 é capaz de ser sido para mim um dos mais espetaculares e também adorei este do nosso 5º Aniversário da autoria do JMP.

MDX – Qual foi a banda que aqui tocou mais vezes?

José Maria –  Acho que foram os Dirty Coal Train. E acho que foram a primeira boa surpresa que tivémos.

Ana Paula – E corre sempre super bem, é sempre uma festa tremenda. É um projecto com uma energia muito especial.

MDX – Que bandas gostariam de cá trazer? Não falo de coisas utópicas falo de coisas que são exequivéis…

Ana Paula – Isso é dificil…Mas sei lá, gostava de trazer os Soft Moon… os Wodden Shijps.

José Maria – Archie and the Bunkers novamente.

MDX  – E o futuro?

Ana Paula – Crescer com qualidade. O Sabotage tem uma equipa muito especial e dedicada que ajuda a construir diariamente estas noites únicas, desde a nossa equipa de bar à nossa equipa de produção, ao nosso querido DJ residente, aos nossos DJ’s regulares, são eles que ajudam a construir estas noites únicas do Sabotage Club, quem frequenta sabe a quem me refiro. E é isso que queremos. 

Entrevista – Isabel Maria
Fotografia – Luis Sousa