Há quem diga que o dia de São Valentim é uma data ridícula, criada no seio de uma sociedade consumista que exerce pressão para que inúmeros casais se sintam na ‘obrigação’ de realizarem trocas de prendas simbólicas, desde chocolates e flores a joalharia e afins, selado por um jantar com o seu quê de romantismo. Por outro lado, há quem veja este dia como uma data simbólica onde se recorda todos os episódios apaixonados que já se viveu junto da nossa cara-metade, cedendo-se aos caprichos da nostalgia para felicitar a ‘nossa pessoa’ com oferendas, tudo na tentativa de transmitir a paixão que é nutrida entre ambos.

Independentemente da face da moeda que cada um de nós possa defender, parece tratar-se de um dado universal, de difícil discussão, que estar apaixonado é das coisas mais bonitas que o ser humano alguma vez terá o prazer de experienciar, de sentir, de viver: desde pintar uma pessoa como a coisa mais bonita que os nossos olhos alguma vez terão o prazer de se cruzar com, passando por um sentimento desmedido de proteção que evidencia o desejo de oferecer toda a felicidade que existe no mundo, mesmo que seja necessário abdicar da nossa própria, ou até aquele apego tolo que paira pela noite dentro, tentando adiar ao máximo a eventual mensagem de “boa noite”, o turbilhão de emoções que um apaixonado vivo é uma verdadeira roleta russa, quiçá a única que vale a pena jogar.

Ao longo destes últimos quatro anos que se passaram, o panorama musical português tem visto o crescimento de Luís Severo enquanto um dos mais promissores músicos portugueses dos dias de hoje. Em Luís reside um enorme talento, uma capacidade surpreendente de enaltecer o quão bonito é estar apaixonado, o quão belo é amar e até o quão merda é quando não é recíproco. Dada a sua genialidade em verbalizar o amor através de canções, foi no passado dia 14 de Fevereiro que o cantautor subiu ao palco de um MusicBox completamente esgotado para assinar um concerto especial, tanto para casados, comprometidos e solteiros.

Com um concerto que dava pelo nome de Boa Companhia, tanto pela presença de convidados como alusivo ao dia em si, foi mesmo ao som do single do segundo disco de Luís Severo que a noite começou. De guitarra em punho, Luís solta “Boa Companhia” numa versão praticamente acappella, longe do microfone e de amplificador desligado, estabelecendo desde cedo um ambiente intimista com o seu público, um que já ia mostrando ser conhecedor dos encantadores versos de Severo, cantados de forma baixa para não ofuscar a segunda estrela da noite – o romantismo que marca o dia de São Valentim seria a primeira, naturalmente.

Logo após a interpretação das primeiras canções da noite, o ambiente que se vivia pelo MusicBox transbordava de emoções: são raros os concertos que conseguem irradiar felicidade por uma sala inteira, mas verdade seja dita, contavam-se pelos dedos aqueles que não esboçavam um enorme sorriso perante a gentileza e delicadeza, pelo jeito natural de ser de Luís Severo. Fosse pela sua amabilidade contagiante, o ar dócil com o seu quê de geek quando aborda a plateia ou um recheado leque de canções de cariz facilmente identificáveis, Luís ia lentamente criando um cenário mágico onde todas as trezentas paixões existentes no MusicBox se centravam apenas em si.

Artista versátil, Luís Severo tanto assina concertos em formato acústico, com banda ou apenas acompanhado por piano. Naquela noite, houve espaço para que todos estes formatos dessem o ar de sua graça numa tentativa de captar o mesmo impacto emocional que o formato físico, com especial atenção para “Vida de Escorpião” e “Meu Amor” cujas rendições pareciam retiradas diretamente do disco ao vivo Pianinho, isto tendo em conta que o piano de estimação de Luís fora substituído por um conjunto de teclados.

 

Apesar de ser uma noite onde o amor existente entre relações estivesse sobre mira, houve tempo para demonstrar que o amor entre amizades consegue ser igualmente sólido. Para aquela noite, um dos componentes que impulsionava o concerto a apresentar-se como especial foi a presença de um leque de ilustres convidados – a chamada Boa Companhia. Cristina Branco, Júlia Reis (Pega Monstro) e Rodrigo Araújo (Vaiapraia) juntaram-se a Luís Severo, tanto para interpretar um tema que o artista compôs para a fadista, “Alvorada”, ou algumas das canções mais emblemáticas do músico, como “Planície (Tudo Igual)” e “Lamento”, com as versões assinadas pelos respetivos artistas a dar uma lufada de ar fresco a cada tema mas sem nunca perder pitada do encanto característico de Severo.

Já acompanhado pelos seus fiéis parceiros de longa data, Diogo Rodrigues e Bernardo Álvares, baterista e baixista respetivamente, Luís continuou a deliciar os presentes com as suas canções, oscilando entre a emotiva, mas sempre sublime “Amor e Verdade”, até a temas mais vívidos como “Escola” e “Canto Diferente”, sempre com um trautear audível entre o público a acompanhar. Ao longo de quase hora e meia de um caloroso aconchego que, tal como as mensagens de “boa noite”, ninguém queria que o fim chegasse, onde praticamente os dois discos de Luís Severo foram revistos uma ponta à outra, nada seria mais adequado para terminar com duas das canções mais emblemáticas de cada álbum: “Olho de Lince” e “Cara D’Anjo”, ambas interpretadas somente por Luís e a sua guitarra desligada, dando por terminado um concerto que em tudo teve de bonito.

Há qualquer coisa na música de Luís Severo que cativa-nos e ‘obriga-nos’ a perder-nos em, reconfortados pela existência de canções tão identificáveis, que retratam as nossas vivências e chegam mesmo a retratar aquilo que, por vezes, é nos difícil de verbalizar. Em certo modo, a música de Luís Severo é igual a apaixonar-nos: os sentimentos vão aparecendo lentamente, primeiro, e depois, sem que nos apercebermos, todos de uma só vez. E que bonito é perdermo-nos neste mundo juntos.

 

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – Ana Pereira