Os The Mystery Lights vão-se estrear em Portugal no próximo dia 10 de Dezembro, aproveitando a presença dos norte-americanos por cá, a Raquel Silva falou com a banda para os ficarmos a conhecer melhor.

Música em DX (MDX) – Quatro rapazes que fazem garage rock num estilo psicadélico. É assim que a maioria da imprensa vos define. Concordam?

Mistery Lights – Eu diria que somos mais quatro tipos a tocar música que gostamos. O nosso estilo muda constantemente e tentamos incorporar muito mais na nossa música do que apenas o psicadélico/garage. As pessoas que assistem aos nossos concertos e que gostam do mesmo tipo de música que nós reconhecem algumas dessas outras influências que não são assim tão óbvias.

MDX – Vocês são naturais da Califórnia e acabaram por se mudar para NYC. A música que vocês fazem teve origem precisamente na Califórnia, há alguns anos atrás. Acham que conseguem, actualmente, carregar essa cultura musical?

Mistery Lights – Desde que começamos a interessar-nos realmente por música, Nova Yorque e as bandas que de lá surgiram inspiraram-nos de uma forma marcante. Bandas como os Velvet Underground, Television, The Ramones, Richard Hell, etc. California e São Francisco, o cenário Haight-Ashbury nos anos 60 também teve, para nós, grande influência. Bandas como os Jefferson Airplane, Country Joe and the Fish, e Quicksilver Messenger Service fizeram, desde cedo, parte do nosso crescimento no que diz respeito à música, e o conceito combinado de East Coast punk e West Coast psychadelic blues acabou por moldar a nossa sonoridade inicial. A nosso ver não é uma cultura específica que levamos, senão uma abordagem à música com o máximo de sinceridade possível.

MDX – L.A. Solaro, usas uma Phantom branca como a tua principal guitarra. Fala-nos um pouco dela… Porquê a escolha?

Mistery Lights – Sempre gostei do aspeto das phantom, são leves e têm boa sonoridade. Somos grandes fãs do Billy Childish e eu queria uma guitarra como a dele. A minha foi feita em Oregon, tem bastante qualidade e mais acessível monetariamente do que alguns modelos antigos de Vox italianas ou inglesas. Tem um pouco de associação com o “mod” (subcultura) dos anos 60, mas gosto de pensar que esta era a guitarra que o Ian Curtis e o Billy Childish usaram.

MDX – Vocês foram a primeira banda a inaugurar a Wick Records, enquanto editora rock da Daptone Records. calculo que tenha sido um privilégio pertencer à familia daptone. Como Surgiu o convite para gravarem o Mystery Lights em 2016?

Mistery Lights – Parecia demasiado bom para ser verdade. Andávamos à procura da editora certa para podermos lançar a nossa música, mas parecia-mos nunca encontrar algo que se adequasse e era difícil conseguirmos fazer gravações de que gostássemos. Um dia estávamos a dar um concerto no Union Pool em Brooklyn, era talvez o verão de 2005, e a Christiana da Deptone, que já nos havia visto atuar antes, levou Wayne Gordon (o nosso produtor atual) e Neal Sugarman para assistirem ao concerto. Depois do set vieram ter connosco (ou abordaram-nos) e convidaram-nos a visitar o seu estúdio. Fomos com eles, criámos uma ligação dado o nosso interesse mútuo no rock de garagem, crú e cheio de alma de várias épocas, e por fim puseram-nos ao corrente da sua ideia de criar uma nova editora subsidiária chamada Wick Records e como queriam que nós fossemos o seu primeiro lançamento / a cobaia, por assim dizer. Aceitámos de imediato e aí está! Juntámos forças.

MDX – Uma das características da daptone é gravar o álbum com a banda a tocar ao vivo. Tocam a setlist toda pela ordem do costume e com um tempo predefinido, certo? O que consideram ter sido mais gratificante e o mais duro nesse processo de gravação?

Mistery Lights – Gravar ao vivo é fantástico porque capta a energia pura e o som de um concerto ao vivo, que é exatamente o que nós queríamos fazer mas nunca conseguimos e por isso antes gravávamos em separado. Também força a banda a ser mais unida porque aquilo que tocas naquele momento é o que vais levar no final. E por vezes as imperfeições ou alguns “pregos” aqui e ali acabam por tornar a música mais interessante e única.

MDX – A gravação do álbum contou com público. O público é escolhido a dedo para a gravação do álbum/concerto? Ou são mesmo fãs?

Mistery Lights – Bem, de início tentamos fazê-lo com fãs, mas eles não soavam bem de todo. Não sabiam aplaudir da “maneira certa” e por isso acabamos por contratar extras.

MDX – É a vossa primeira vez em Portugal. Expectativas para os concertos agendados em Lisboa, Porto e Leiria? São fãs de alguma banda portuguesa em especial?

Mistery Lights – Primeira vez em Portugal! Estamos realmente ansiosos por isso. Sem expectativas, mas ouvimos falar muitas coisas fantásticas sobre essas cidades. O álbum “Portuguese Nuggets” é muito bom, na verdade. Essa compilação traz algumas pérolas no meio.

MDX – Vocês estão neste momento em tour pelo Reino Unido, Espanha e Portugal? O que vos está a surpreender mais por estes lados?

Mistery Lights – Bem, ainda não havíamos feito uma tour como deve ser no Reino Unido, por isso é bom poder acabar o ano com uma semana de passagem pela Inglaterra. Além disso, metade da minha família (Mike) é de lá, por isso vai ser bom visitá-los. E claro, Espanha é sempre em boa altura! Tem sido do caraças (podes usar caraças numa revista!? xD ) fazer tour com os Sleaze, com pouco ou nenhum sono. Por fim Portugal é um sítio que nunca visitámos mas já ouvimos muitas coisas boas e estamos muito contentes por tudo isto se ter proporcionado.

MDX – Nós vamos estar dia 10 dezembro no Sabotage Rock Club em Lisboa para vos ver. Algum conselho? :)

Mistery Lights – Tragam tampões para os ouvidos, e não usem cetim.

Entrevista – Raquel Nunes Silva
Fotografias – Ghost (Capa) | Alain Bib