Vinte e um anos passados desde o lançamento do primeiro disco dos Lamb foi o mote para a tour “Twenty One”, que viu o seu fim na passada terça-feira no Coliseu de Lisboa. O duo de Manchester, composto por Lou Rhodes e Andy Barlow, sempre teve um impacto único no público português, principalmente desde o fenómeno que foi o single “Gabriel”, exclusivo em Portugal, e nessa noite sentiu-se uma aura muito especial. O Coliseu estava longe de esgotar, mas o público presente transmitia aquela ansiedade boa, de quem espera por algo há muito desejado e que se vai finalmente (re)concretizar.

20171114 - Lamb @ Coliseu dos Recreios

Sou suspeita. Descobri Lamb era ainda uma criança, com pouca percepção do universo e dos estilos musicais, provavelmente com o single “Gabriel”. Tocava em todo o lado, no top da RTP, das rádios, no Sol Música, etc.. Ou seja, estava eu ainda a dar os primeiros passos quando já gente graúda ovacionava os Lamb e estes se mostravam na vanguarda de um género musical próprio que aglomerava electrónica, drum’n’bass, trip hop, jazz, acústico e até algum pop. Lembro-me que quando os descobri também tinha acabado de encontrar Massive Attack e Portishead. Embora ainda façam todos parte do meu repertório actual, foi só mais tarde que compreendi a magia que os Lamb operavam nos seus discos, destacando-se dos demais. Hoje em dia, devido à forma acessível como o material musical está disponível, parece que o que os Lamb faziam há vinte e um anos atrás era algo mais ou menos simples. No entanto, se recuarmos no tempo e tivermos noção do que se fazia naquela altura, percebemos que o que é mais fascinante neles é que eles já se encontravam muito à frente do seu tempo, merecendo todo o mérito pelas gerações que viriam a inspirar e que ainda inspiram.

No concerto de Terça-feira tivemos a oportunidade de assistir a um alinhamento especial e emotivo. Fazendo-se acompanhar de baterista, baixista e, por vezes, de violoncelista e trompetista, os Lamb dividiram a performance em duas partes: na primeira parte tocaram o primeiro disco homónimo na integral, na segunda percorreram os restantes discos com alguns dos seus temas mais memoráveis.

20171114 - Lamb @ Coliseu dos Recreios

Assim que se fizeram ouvir os primeiros sons de “Lusty”, um arrepio inevitável de expectativa fez-se sentir. Lou Rhodes tem uma presença mágica em palco, numa névoa de extrema efemeridade – a estética com que se apresentou reforçou essa aparente fragilidade, porém transmitindo ao mesmo tempo uma força. Andy Barlow é o espírito festivo, o totem mitológico que leva o público ao rubro sempre que se manifesta. Esta combinação de força e delicadeza complementam a sonoridade que caracteriza este primeiro disco: batidas electrónicas fortes, um contrabaixo sempre presente e uma bateria que não se faz de rogada. A sobrevoar a maquinaria está a voz inconfundível de Lou Rhodes, assombrosa na sua simplicidade, afinação e intensidade. Ouvi-la em disco é bom mas ao vivo é muito melhor. O mesmo acontece com Andy Barlow. Podemos imaginá-lo a criar as texturas e paisagens electrónicas, rodeado pelas suas máquinas, mas a energia e a paixão com que o faz só a conseguimos testemunhar ao vivo. E, para mim, isso faz toda a diferença num concerto.

Enquanto percorriam, faixa a faixa, o disco homónimo, foram cumprimentando o público português e partilhando um pouco do que foi preparar esta tour. Um dos momentos que mais me tocou foi antes de “Zero” ganhar forma, quando Lou Rhodes partilha connosco que esta era uma das canções que antes desta tour nunca tinham tocado ao vivo e que para ela era especial. Apesar de agora “ter duas crianças maiores do que eu”, na altura em que compôs a canção tinha sofrido uma grande perda, sendo agora altura de a música servir como celebração da vida. Ainda assim, a sua voz estava cheia de uma alegria misturada com tristeza e saudosismo. Talvez seja este o ingrediente que liga os Lamb de forma tão especial ao público português; as suas canções, que falam de temas tão variados, conseguem tocar neste nervo – saudade – que parece que só a nossa língua tem no seu vocabulário.

20171114 - Lamb @ Coliseu dos Recreios

Claro que houve outros momentos dignos de nota e nunca serei suficientemente justa, pois certamente ficará sempre a faltar-me mencionar algum. Ainda assim, terei sempre de mencionar “Gorecki” que arrancou dos coros mais sonantes da noite, só mesmo ultrapassado pelo encore, com “Gabriel”. Mas já lá vamos.

A segunda parte do concerto começou com aquelas notas transcendentes de piano, que os fãs de Lamb tão bem conhecem. Era a vez de dançarmos ao som de “Angelica”. Seguiu-se “What Sound”, com uma Lou Rhodes metamorfoseada, com nova vestimenta. Mais uma vez a delicadeza e ferocidade feérica a entrarem em jogo e a manifestarem-se logo de seguida em “Little Things”. Mais uma sessão de dança com “Ear Parcel” para se seguir um dos meus temas mais recentes favoritos, “We Fall In Love”. O concerto começava a caminhar para o fim, mas não sem antes tocarem “As Satellites Go By”, “Backspace Unwind” e o mais recente single “Illumina”. Após declararem que aquele tinha sido um concerto memorável, o melhor da tour, que não havia local como Portugal para tocarem, tiram uma fotografia ao público presente e recolhem-se. A maior ovação da noite estava para chegar. O público fez-se ouvir para voltarem e assim que os Lamb pisaram novamente o palco e começaram as primeiras notas de “Gabriel”, os pulmões encheram-se. E, como disse ao início, se o Coliseu estava longe de esgotar, os presentes ainda assim conseguiram fazer-se ouvir e a música deu-se a múltiplas vozes num momento que recordarei como dos mais bonitos em concertos ao vivo.

Nunca tinha visto Lamb ao vivo e houve alturas em que pensei que nunca os iria ver, mas assim que confirmaram presença no Coliseu, ainda para mais com esta comemoração especial, eu disse para mim mesma que faria todos os (im)possíveis para os ver. Não estive nos concertos míticos de que ouço falar, nomeadamente em Paredes de Coura, mas sobre esta noite fica a memória de um concerto que soube como tocar vários nervos. Desde a mente inquieta e o corpo dançante, à sensibilidade da perda ou a alegria de viver. Sublime.

 

Texto – Sofia Teixeira | BranMorrighan
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Everything Is New