João Morais é mais conhecido no universo musical português enquanto vocalista e guitarrista dos Gazua, uma banda rock criada em 2007. Apaixonou-se entretanto pela viola campaniça e com ela gravou Longe do Chão, o primeiro trabalho do seu novo projeto que tem como nome O Gajo. Estivemos à conversa com ele em plena Lisboa – a sua cidade e a quem este disco é dedicado –, para sabermos mais pormenores acerca desta sua estreia como O Gajo e do concerto de apresentação a realizar no dia 20 de maio no Teatro A Barraca.

Música em DX (MDX) – Como é que alguém vindo do universo do rock se apaixona pela viola campaniça?

O Gajo – Pois, é uma boa pergunta… eu já mesmo no rock, estava numa fase em que tentava ligar à minha terra a música que faço e isso não é fácil quando tocas numa Gibson ou numa Fender, que são guitarras americanas espalhadas pelo mundo todo, é difícil personalizares o teu som. Por muito que até tenhas uma linguagem musical personalizada, os instrumentos são convencionais. Claro que isto não foi de um dia para o outro, houve uma fase de transição com a guitarra portuguesa, algumas aulas que eu tive que me entusiasmaram para o som da guitarra portuguesa, mas esta não se adaptou tão bem e num concerto em Beja cruzo-me com um tocador de viola campaniça. Achei que aquele som era aquilo que eu procurava entre a guitarra portuguesa e a viola tradicional. A viola campaniça é um bocado um meio-termo entre estas duas coisas, com cordas duplas… e pensei, o que será que acontece às minhas músicas, àquilo que eu tinha na minha cabeça no momento, com o som da viola campaniça? E foi assim que arrancou esta ideia do projeto O Gajo. E acho que a adaptação da viola às ideias foi excelente.

20170517 - Entrevista - João Morais O Gajo @ Lisboa

MDX – De onde veio a ideia de dar o nome O Gajo a este projeto?

O Gajo – Aconteceu naquela altura em que eu estava à procura de nomes, com as listinhas de várias hipóteses e entre tantos projetos que existem por aí com nomes que eu gosto muito, há sempre aquele gajo que se chama não sei o quê, o gajo não sei quê… e o gajo estava sempre a surgir nessas conversas que eu estava a ter nessa altura, em que andava à procura de um nome, e o gajo surge tantas vezes que eu acabo por apontar também, gosto que seja um nome sem formalismos… é sempre o calão que entra pelo espaço a dentro.

MDX – Quais as maiores influenciais musicais na realização deste primeiro trabalho?

O Gajo – Há coisas que vêm de trás e eu não tenho bem a noção exatamente de onde vêm, mas há uns nomes que eu posso nomear. Por exemplo, eu vi um concerto da Anoushka Shankar, que apesar de não ter nada a ver com a nossa realidade, ela é indiana, mas aquele som, daquele instrumento, que é tão personalizado da Índia, levou-me a pensar que eu gostaria de fazer o que ela faz, mas com alguma coisa portuguesa. Em termos de ideia, de conceito, ela tinha muito do que eu queria fazer. Por cá, o Carlos Paredes é inevitavelmente uma grande referência para mim, lá fora tenho referências como os New Model Army, que, pelo menos nos últimos trabalhos, têm um som muito atmosférico, que é o que o meu trabalho hoje procura… uma atmosfera. E um bocado do fado tradicional e da música tradicional portuguesa, inclusivamente o canto alentejano, gosto dessa identificação direta à música nacional.

MDX – Tratando-se de instrumentais, de onde vêm os títulos das canções?

O Gajo – No início foi uma questão que eu procurei tentar resolver, porque eu estou habitado a letras e estas têm um assunto. Acabei por encontrar na tal atmosfera que rodeava a composição daquela música, tentar procurar ali o nome da música. Por exemplo “O Navio dos Loucos”, a música soa-me um bocado a navegação, nome inspirado no poema Ship Of Fools de John Cale, eu achei que aquela música navegava. O “Miradouro da Batucada” foi um tema inspirado no Miradouro do Adamastor, onde passo muitas tardes e onde há muita batucada, e onde eu usei uma percussão para tentar reproduzir aquele beat.

MDX – Sendo o álbum dedicado a Lisboa, como vês todas as transformações que a cidade tem sofrido nos últimos tempos? Não consideras que há cada vez mais euforia e menos nostalgia?

O Gajo – Eu nasci em Lisboa, estou aqui há 44 anos. Eu tenho visto de forma positiva. Tenho ouvido muitas vozes críticas a esta invasão, mas as principais cidades europeias, elas são sempre invadidas pelos curiosos dos outros países. Eu acho este país e esta cidade particularmente excelentes, pelo clima, pela hospitalidade, pelos preços, por tudo, acho que tem tanta coisa boa. É normal que as pessoas sintam curiosidade e ela transforma-se para se adaptar a isso tudo. Mas acho que há muito mais de positivo, porque estamos a limpar mais a cidade, há menos carros no centro da cidade, a transformação que eu vejo é positiva. Em relação às noites da cidade e ao lado mais nostálgico, o fado renasceu, eu oiço cantar o fado e isso é bom. Há tanta coisa na noite e quando saio, e procurando bem, há sempre sítios bons para percorrer e a música que agora faço pretende transpirar essa Lisboa que eu vivi e vivo e que está viva.

MDX – O Gajo espelha alguma maturidade da tua parte? Farias um álbum com estas características há 10 ou 20 anos atrás?

O Gajo – Há 20 anos atrás não, porque ainda estaria muito envolvido na música mais pesada. Há 10 anos já me via a fazer algo assim, porque já tinha projetos paralelos ao rock, que já não eram tão rockeiros, tipo fusões, uma série de experiências. Agora, a maturidade das composições, este disco só era possível realmente hoje, há 10 anos seria com certeza uma experiência muito menos conseguida. A composição evoluiu nos últimos anos para algo que me consegue manter entusiasmado com uma música inteira, um disco inteiro ou um concerto inteiro. Há alguns anos atrás eu sentia sempre que as coisas estavam mal feitas e que tinha de renovar tudo. Eu agora acho que consigo fazer produtos acabados.

MDX – És músico desde 1988, como vês a evolução da música portuguesa desde essa altura?

O Gajo – Eu não sou muito saudosista. Ou seja, vivi a minha adolescência em pleno com as minhas primeiras bandas, com muitos concertos, muita música, muita saída…, mas continuo a usufruir hoje tanto ou mais do que na altura. O que eu vejo hoje à minha volta é uma explosão de talentos, mais do que nunca temos talentos ao nível de qualquer parte do mundo, não quer dizer que eu ache que o que goste mais são as coisas que se ouvem mais… eu gosto de coisas muito fechadas em nichos. Temos uma diversidade brutal, muitos sítios onde passam bandas, quase diariamente, cheias de coisas interessantes. Estamos melhor do que nunca, muito sinceramente.

MDX – O que esperar do concerto de apresentação no próximo sábado no Teatro A Barraca? Haverá convidados?

O Gajo – Há uma ou outra surpresa, que tem a ver com a parte de como vou fazer as coisas. Nesta fase não tenho convidados, porque a personalidade que eu quero e quis dar ao projeto era de um projeto a solo. Se ele começar assim, eu posso para o ano ou daqui a dois meses começar a incluir alguns convidados e é essa a minha ideia. Este concerto vai ser mesmo só comigo, a viola campaniça e alguns acessórios. Eu também tenho outra noção… desde que comecei o projeto há 1 ano atrás, dei cerca de 40 concertos, e a noção que fui tendo é que eu não posso fazer concertos muito longos, quando as pessoas ainda não estão muito familiarizadas com o som. Porque apesar de tudo é só uma viola campaniça e também se torna inevitavelmente um bocado repetitivo. Quando as pessoas começarem a conhecer melhor o disco, talvez haja outro entusiasmo. Mais de uma hora de concerto já é esticar um bocado a corda. O álbum tem à volta de 45 minutos, vou tocar mais 2 ou 3 temas que não estão no disco, que eu acho que completam bem o concerto, e não deverei fazer muito mais do que isso… e não farei nenhuma versão, apesar de as ter.

20170517 - Entrevista - João Morais O Gajo @ Lisboa

MDX – No futuro, se fores acompanhado por outros músicos ou por uma banda de suporte, como é que ela seria formada, que instrumentos te acompanhariam?

O Gajo – Eu já fiz alguns testes logo no início do projeto, para ter certezas no caminho a seguir. A percussão é quase óbvia. Acho que instrumentos como o violino e o violoncelo seriam bons casamentos. Uma voz, mas talvez não a voz convencional, tipo uma coisa mais experimental poderia ser interessante. Não tenho um plano dirigido, cada passo deve ser feito na sua altura. O passo de hoje foi feito assim e do ano que vem será alimentado por este ano que vai passar agora. Eu se puder um dia ter 12 convidados em palco, eu teria com certeza. Gosto de bandas grandes.

MDX – Para além deste concerto de apresentação, o que tens mais planeado para o resto de 2017?

O Gajo – Neste momento tenho uma carrada de apresentações para os meses de junho e julho, alguns concertos e showcases, na zona centro e sul. Estou a tentar voltar ao norte, estive lá no ano passado e dei alguns concertos e achei espetacular os tipos de espaços, a recetividade e agora gostaria de fazer uma espécie de “Outono d’O Gajo”. Não têm faltado propostas e vou tentar fazer uma coisa contínua até ao final do ano.

O Gajo apresenta Longe do Chão no próximo sábado, dia 20, no Teatro A Barraca, em Lisboa.

Entrevista – João Catarino
Fotografia – Luis Sousa