Sábado, noite fria e chuvosa. Dia recheado de concertos na capital. Ao contrário de muitos entusiastas da música ao vivo que se encontravam pela avenida da liberdade ou mesmo pelo cais do sodré, nós rumámos a zona oriental da cidade, mais concretamente à recente sala de espetáculos designada por Lisboa Ao Vivo que fica ali bem pertinho do Beato e de Marvila, bairros conhecidos por outras “marchas”.

Antecipámo-nos um pouco há hora marcada de abertura de portas (20h00) e esperamos ao relento em frente a uma porta que volta e meia se abria para entrar o staff técnico associado ao espetáculo. Ainda fora da sala, juntava-se um bom grupo de gente para assistir ao concerto, curiosamente (ou não) a maioria expressava-se em bom castelhano. Talvez não fosse assim tão estranho, afinal quem nos “levava” a esta saída eram os norte americanos Nada Surf, uma banda que ficou mundialmente conhecida nos anos 90, e que anda em tour europeia há um bom “par” de datas, as mais recentes por terras de nuestros hermanos.

O facto de já serem uns quarentões revelava-se também na média de idades a condizer do (pouco) público presente. Entrávamos poucos minutos depois, e aconchegávamo-nos já no interior da sala, ora a comprar um dos exemplares expostos na bancada de merchandise da banda, ora a “beber um copo” junto ao bar da entrada. A temperatura e o conforto aumentavam consideravelmente e preparavam-nos para o que se seguia, a recepção a Matthew Caws e seus autênticos companheiros de uma vida que já leva 24 anos de estrada por esse mundo fora. Durante muitos anos a três, e agora a quatro com “um dos melhores guitarristas com quem já toquei”, o guitarrista Doug Gillard, nas palavras de Matthew.

Embora o Lisboa ao Vivo seja de facto uma boa sala para espetáculos, não seria a mesma hoje sem a presença de uma das bandas Indie mais conhecidas de décadas recentes, tendo marcado presença pela última vez em Portugal há cerca de 20 anos quando serviram de “sandwich estranha” (ainda Matthew Caws a partilhar com todos o que foi essa experiência) aos concertos de Morphine e Body Count no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Os quase 50 anos de Matthew dá-lhe agora a serenidade, simpatia, e charme também, pode-se dizer, para conquistar quem está à sua frente, sejam 3 ou até 30 pessoas – dizia o baixista da banda, Daniel Lorca, em tom de gozo referindo-se ao reduzido número de pessoas na plateia – e ontem não foi exceção. Remetendo o alinhamento do concerto para uma mistura de temas antigos – ou “na verdade, temas novos, já que a maioria deles não existiam em 1996 e nunca os tocámos em Portugal” respondia Matthew às piadas de Daniel – com temas do novo álbum “You Know Who You Are” que serve de suporte há digressão europeia que decorre desde o final do mês de Outubro, a temperatura foi subindo e a proximidade com o público também. Deste alinhamento, para além dos temas do novo álbum, não poderiam faltar outros temas que ainda nos pairavam pela memória tais como “Weightless”, “Inside of Love”, ou “The Way You Wear Your Head”.

Do primeiro encore fizeram parte os temas “Hyperspace”, “Popular”, “Always Love” ou “Blankest Year” (onde Matthew Caws sugeria para usarmos “Fuck It”  sempre que precisarmos no nosso dia a dia), e a fechar um concerto memorável, um segundo encore com a banda à beira do palco a cantar uma versão acústica de “Blizzard of ‘77”. Bonito, e melhor fim não poderíamos imaginar. Em alguns casos, devemos realçar Qualidade em vez de Idade para “segurar um posto”. Nada Surf é um desses casos, e ontem a noite foi deles.

Perguntamos, não serão os Nada Surf uma banda com “cartaz” suficiente para um grande festival em Portugal? Bem sabemos que não se conseguem trazer em festival todas as “uma das melhores bandas do mundo num determinado momento”, mas honestamente, nós achamos que sim, que estes Nada Surf têm lugar num dos maiores festivais de verão em Portugal, e se assim for, teremos todo o gosto em os rever.

Texto – Carla Santos
Fotografia – Luis Sousa