Acho que devo começar este artigo dizendo que nunca antes tinha ido ao Rock in Rio. Quando surgiu o convite pelo Música em DX acabei por ter então a oportunidade de experienciar o universo que é todo este empreendimento. Todos nós sabemos como funciona a abertura de portas de qualquer festival, mas acho que não me vou esquecer da correria que se deu mal começaram a deixar passar as primeiras pessoas após abertura de portas. Estava um calor bem considerável, já havia gente muito simpática a oferecer Pepsi sem calorias, mas os concertos ainda estavam um pouco longe de começar. Da nossa parte, MDX, competia-nos cobrir o Palco Vodafone, maioritariamente dedicado a artistas portugueses, por isso não estranhem a ausência de notas sobre o palco principal. Ainda assim, antes de começar a descrever a experiência que foram os concertos no palco Vodafone nos dias 19 e 20, é impossível não abordar o autêntico mundo de entretenimento que encontrei no Parque da Bela Vista.

Entra-se no recinto e com o calor que tem feito só dá vontade de nos atirarmos para a fonte de água com o símbolo do Rock in Rio. Centenas de pessoas aproveitam para tirar a selfie de recordação, mas o que não faltam são outros locais para se registarem recordações. Falemos, por exemplo, dos palcos onde as coreografias se sucedem, onde os karaokes não descriminam vozes, dos locais onde existem pequenos baloiços ou apenas umas sombras para descansar, muito bem-vindas através do arvoredo natural. Passemos pela piscina das Pool Parties, pela roda gigante, pela EDP Rock Street e terminemos no palco principal. Existe animação e entretenimento para todos os gostos. Quando olhamos para o cartaz do Rock in Rio, e também para a sua dimensão restante, é fácil constatar que este é um festival que já não vive só da música, mas também de uma série de factores culturais que conseguem atrair massas diversificadas. Se no Palco Principal temos diariamente três nomes mais sonantes, no palco Vodafone temos bandas com que os melómanos facilmente se poderão identificar, sendo que houve boas surpresas para quem desconhecia algumas das bandas deste palco. Entre concertos nada como ir buscar uma água fresca e voltar a constatar que a animação não se limita aos diversos palcos, sendo antes dinâmica e chegando até às pessoas. Não foi raro ver actuações diversas de dança pelo recinto, apelando à boa disposição das pessoas e à sua própria participação. Ou seja, nos dois dias em que lá estive, certamente não devo ter visto nem constatado metade do que o Rock in Rio tem para oferecer, mas uma coisa eu sei, não é festival para gente que goste de estar no seu mundo a apreciar concertos ou a natureza, é antes um festival que pulsa e fervilha de actividade constante, o que pode ou não agradar a toda a gente.

Dirigindo-me agora ao foco deste artigo – os artistas do Palco Vodafone FM! Sendo uma clara apoiante da música portuguesa, não poderia ter ficado mais contente pela curadoria do palco Vodafone FM. Num festival que, como disse anteriormente, é claramente de massas, colocar bandas que normalmente pertencem a um circuito bem mais alternativo é de valorizar, e muito. Com os concertos a começar bem cedo, pelas 16h45, a maior parte do público presente pertencia largamente aos grupos de imprensa, amigos e familiares. Devo também referir que isto não era por estar pouca gente no recinto. Na verdade, custou-me um pouco constatar a falta de curiosidade da maior parte dos “habitantes” da cidade do rock, pois mesmo àquela hora já eram várias centenas, senão milhares, que por lá vagueavam sem que se dirigissem ao palco Vodafone FM. Porém, como também sou apologista dos “poucos, mas bons”, quem esteve soube como desfrutar dos concertos sem ter que se preocupar com encontrões ou faltas de ar, sendo apenas o Sol bastante forte a única preocupação.

Forte foi também a abertura do palco Vodafone FM, no dia 19, com os The Sunflowers. Esta dupla nortenha, que a meio se tornou num trio com a introdução de um baixo, desceu ao Sul para mostrar um garage rock ousado e sem ponta de timidez. Se por um lado o público era pouco, por outro o som que produziam não deixava margem para dúvidas que uma guitarra e uma bateria são suficientes para nos elevar a ondas sonoras aceleradas e elevadas. Com dois EPs já lançados e o primeiro disco a caminho, sem dúvida que foi uma boa amostra para o que poderá estar a caminho. Energia é coisa que não lhes falta, diversidade nas texturas que puxam o Punk também não. Resta-nos esperar e enaltecer o percurso jovem, mas consistente, destes girassóis portuenses.

Seguiram-se os Keep Razors Sharps. Ao contrário do duo anterior, de novatos não têm nada. Cada um dos quatro elementos da banda tem, ou teve, outros projectos – como Riding Pânico, The Poppers, Sean Riley & The Slowriders, Pernas de Alicate ou Capitão Fantasma – mas como banda lançaram apenas há dois anos o seu primeiro disco, num estilo completamente diferente dos exemplos apresentados. O rock psicadélico chegou para ficar e assenta-lhes bem. Entre as vozes de Afonso Rodrigues e Luís Raimundo, surge uma bateria frenética pelo Carlos BB e um baixo sonante pelo Bráulio. Poderia chamar-lhe uma super banda, mas na minha opinião estão provas dadas de que isso seria apenas um eufemismo. A energia que se sente vinda do palco é muito boa, existe bastante cumplicidade entre todos e mesmo quando aparece alguma adversidade técnica, só quem está mais atento no público é que poderá reparar, pois a experiência que trazem com eles permite-lhes passarem despreocupadamente por cima dos imprevistos. Foi um bom concerto que só pecou por não trazer músicas novas aos fãs mais ávidos, mas em entrevista à banda já ficámos a saber que a intenção é sair novo single até ao final do ano. Fiquem atentos!

A terminar o primeiro dia do Palco Vodafone FM estiveram os The Black Lips. Era a banda do dia que me era menos familiar e, talvez por isso, acabou por me surpreender de sobremaneira. Desde o início do concerto que a revelia e a liberdade andaram de mãos dadas, emanando um sentimento de que tudo é possível, assim nós queiramos. A selvajaria sonora era complementada com uma anarquia vocal e, num público bem mais composto, não faltaram manifestações de puro deleite. Não posso é não mencionar o facto de um deles ter claramente um fetiche com a sua própria saliva, mas até isso faz parte de toda a performance, numa noite e num festival que claramente não teria nada parecido, não fosse esta escolha da Vodafone FM.

Resumindo, isto de ser palco secundário depende tudo da perspectiva e sem dúvida que tem estado a reflectir do melhor que se faz em Portugal na música independente e também lá fora.

Avançando para o segundo dia, 20 de Maio, os protagonistas do palco Vodafone FM eram os Pista e os Sensible Soccers. Por motivos profissionais não pude ficar para os queridos Boogarins, que já tinha visto quando vieram a Lisboa na última vez e que tenho a certeza que só podem ter dado um concertão.

Começando com os Pista, honestamente começam-me a faltar palavras originais para eles. Penso que só aqui no Música em DX já fiz duas reportagens sobre os mesmos, mas há algo que terá que ficar registado – é que estão cada vez melhores. Nota-se o à vontade crescente em palco, a confiança e o atrevimento em saírem da zona de conforto. Com um sol ainda mais abrasador que no dia anterior, o público presente neste primeiro concerto voltou a ser pouco, mas caraças, quem lá esteve soube como fazer a festa! Dança, ritmo, rock e boa disposição não faltaram. Tivemos ainda o bónus de ter o Alex D’Alva Teixeira a participar em algumas das canções, trazendo a sua energia altamente contagiante, numa veia rock que lhe assenta muito bem. Os Pista foram uma das bandas que mais gostei de conhecer em 2015 e que concerto após concerto têm provado que não desiludem, pelo contrário, superam-se constantemente.

 

Seguiram-se os Sensible Soccers, com a missão de apresentarem o seu mais recente disco – Vila Soledade. Este é um disco que mexe connosco, com o nosso interior, que invoca várias emoções e que pede um ambiente bastante intimista. O Rock in Rio é tudo menos isso, mas existe uma coesão na banda, mesmo após a saída do Emanuel Botelho, com o André Simão a assumir os concertos ao vivo, que os torna gigantes em palco, absorvendo as atenções para eles, praticamente hipnotizando quem os vê. Estamos perante um trabalho que é mais eletrónico que o anterior, com um espectro musical também mais alargado, sendo que não dispensam os tons orgânicos da guitarra e do baixo, que complementam a atmosfera sublime e psicadélica que é muitas vezes gerada. Para os fãs viciados na AFG, tema do disco anterior, esse mimo também não faltou. Estes rapazes são discretos, simpáticos, transmitem bastante serenidade, mas não duvidem que tudo o que produzem também serve para inquietar e seduzir. Foi um concerto muito bom.

Termina assim a minha experiência nestes dois dias de Rock in Rio. Não querendo desvalorizar todo o trabalho e investimento que é feito no Palco Mundo, tenho que dar os parabéns à Vodafone FM e à curadoria de excelência que tem proporcionado ao festival.

+info em https://www.musicaemdx.pt/category/reportagens/festivais/rock-in-rio-lisboa/

Texto – Sofia Teixeira
Fotografia – Nuno Cruz
Evento/Promotor – Rock In Rio Lisboa 2016