Os POST HIT são uma banda pop que existe desde o ano de 2002. Em Setembro do ano passado e, após 10 anos, lançaram o segundo álbum – Hitmusic. Com uma preferência pela liberdade de expressão em todos os sentidos, os POST HIT são um duo coeso que sabe o que quer e no que acredita. O som deles tem uma aura de boa disposição e energia, tal como eles próprios. O Música em DX esteve à conversa com Paulo Scavullo, o responsável pelo nascimento da banda e descobriu a sua essência o que planeiam para o futuro.

Música em DX (MDX) – Quantos elementos tem a banda?

Paulo – A ideia dos POST HIT surgiu em Berlim em 2002, na altura em que lá vivi. Berlim era uma cidade muito contaminada pelas electrónicas que é um género que eu aprecio bastante e que foi a matriz impulsionadora dos POST HIT. No meu regresso resolvi publicar um anúncio num jornal, uma coisa que já ninguém faz mas que se fazia antigamente e, curiosamente, encontrei um teclista (Rui Pires) com quem iniciei o projecto. Tínhamos as mesmas coordenadas, os mesmos gostos e começámos em duo e depois mais tarde juntou-se um terceiro elemento, um guitarrista (Sebastião Teixeira). Então decidimos fechar o lineup e começámos a trabalhar naquilo que foi o nosso primeiro álbum, que saiu em 2005 e começámos logo a fazer concertos também. Estivemos em trio até 2006/2007 e depois ficámos em duo mas sempre com convidados. O duo voltou a ser trio mas voltou novamente a ser duo, portanto tem sido a formação mais estável, sou eu e o Flávio Pacheco.

MDX – De onde veio a ideia deste nome? Dos post-its ou de depois do hit?

Paulo – Eu gosto do post-it enquanto objecto porque é um objecto pop e a nossa matriz é pop. Acho piada a essas manipulações de nomes. Depois, a sonoridade é marcante e as pessoas memorizam logo. Às vezes dizem que acham que conhecem mas na verdade conhecem é o papelito e não a banda. Achei que POST HIT era um bom nome, atentava àquilo que fazíamos e obviamente o “h” tinha de surgir até porque se não a 3M que é a representante da post-it processava-nos.

MDX – Notam-se influências da pop dos anos 80 na vossa música. Quais são as bandas que mais gostas dessa altura?

Paulo – As referências anos 80 são evidentes e são assumidas. Na altura quando os POST HIT surgiram, não só tínhamos essa intenção por causa da electrónica que vem dos anos 80, mas também por uma atitude mais irónica, que era também o nosso propósito. Seria um pouco fazer uma caricatura elaborada dentro de um certo registo de evidenciar os tiques mais próprios dos grupos dos anos 80, desde os mais interessantes aos menos interessantes e, no fundo, andávamos um bocadinho a brincar com isso, mas obviamente aquelas bandas que nos marcavam mais eram aquelas que toda a gente acha que eram as mais importantes: desde os Depeche Mode, aos Soft Cell, aos Human League, aos Duran Duran, aos Pet Shop Boys. Este era um pouco o nosso universo que, com o passar do tempo, se foi diluindo e alargando, aliás, neste último álbum acho que se alargou ainda mais.

20160222 - Entrevista - Post Hit @ Noo Bai

MDX – Sim, este álbum está um pouco mais solto…

Paulo – Concordo, é mais solto sim. Ao longo do nosso percurso mantínhamos aquela proximidade ao que era a nossa matriz original e as nossas referências, mas quando surgiu a altura de termos um álbum novo pronto eu achei que já não me apetecia muito estar colado a essas referências, porque seria repetir fórmulas e acho que numa evolução ou na progressão de um trabalho a tendência é nós querermos conquistar mais terreno. Também acho que nos permitiria não só surpreendermo-nos a nós próprios, criarmos uma expectativa diferente para quem nos poderia ouvir como também traçar coordenadas novas, isto é, deixar em aberto possibilidades de conquistar novos caminhos. Este disco teve a contaminação muito forte do produtor, o João Pedro Ferraz que era dos Ban e discutindo muito com ele o processo de gravação e de finalização dos temas deixei que ele também desse o seu input e no trabalho que íamos fazendo, sendo feito à distância uma vez que ele está no Porto, sentimos que o caminho era esse e, portanto, fomos construindo um disco mais alargado com recurso a outros instrumentos, a outras sonoridades, abrindo cada vez mais um leque de possibilidades que resultou neste conjunto de 11 músicas (no CD e 10 no digital). Acho que permite perceber que o que virá a seguir está em aberto mas pode ser uma mistura de muita coisa ou pode ser qualquer coisa completamente diferente.

MDX – Como foi trabalhar com ele (João Pedro Ferraz)?

Paulo –Foi muito interessante porque ele percebeu de imediato o corpo do disco que eu pretendia, não foi um trabalho complicado até porque este disto também teve um percurso acidentado: começámos a fazer o disco com uma pessoa e depois não resultou e ficaram ali uns singles que fizemos, depois tentámos trabalhar com outro produtor mas não havia muita disponibilidade dele e o João Pedro Ferraz foi quase uma salvação. Ele conhecia também aquilo que eu fazia e tudo se juntou ali naquele momento. Eu senti que houve uma química muito forte, fizemos o trabalho de forma muito sistematizada, falávamos muito, trocávamos ideias e referências e eu senti que ele captou muitíssimo bem e deu uma força enorme ao disco, aliás ele tornou-se co autor das músicas e isso também é importante de referir e faz todo o sentido.

MDX – A ideia de incluir uma faixa extra no formato físico é para dar um bónus a quem compra o CD?

Paulo – Sim, houve essa estratégia comercial até porque os discos nunca se vendem muito. Vamos tentando fazer um trabalho paralelo à editora de venda directa. Naturalmente, a faixa extra está como bonus track porque acho que num alinhamento de 10 temas que é sempre difícil organizar e arrumar, aquela destoava um bocadinho. Fazia sentido ficar no fim e fica como bonus track, como B-Side, porque era o segundo tema do single “Mnds’n’fire”, que foi o primeiro avanço deste álbum. Eu gostei dessa música porque tem um registo mais neo soul que não era muito aquilo que nós fazíamos antes e é um remake dum single de 2013, já havia gravação desse tema e fazia sentido ter mais esse bónus. Fiquei contente por ele poder surgir ai metido.

MDX – Relativamente à vossa imagem, agora aparecem com uma imagem mais sóbria, queres explicar porquê?

Paulo – Quando este grupo surgiu, uma das intenções que eu tinha era isto ser uma coisa muito multi-disciplinar, isto é, eu sempre quis fazer um trabalho muito arti no sentido em que pudéssemos juntar várias linguagens, até porque todos nós tínhamos ligações às artes plásticas e faria todo o sentido estarmos muito atentos não só à questão da música mas também à questão da imagem: ao vídeo, à moda, à fotografia, acho que tudo se cruza. Claro que depois há limitações, nem sempre conseguimos porque há dificuldades, porque fazer um concerto e usar vídeo nem sempre é possível, porque requer colaborações exteriores e acabamos por ir gerindo as coisas com uma certa auto gestão, umas mais bem sucedidas, outras nem tanto, mas sobre a questão da nossa imagem pessoal era um bocadinho brincar com isso, era um bocado aquela pose de pop star, sempre com uma certa carga irónica e fazendo um pouco algo que em Portugal não se faz muito que é a ideia de poder criar personagens, podermos ousar num vestuário mais exuberante, é quase fazer um acting. Talvez o vídeo onde me reveja mais é o “Paradox”, é mais plástico, tem mais referências à pop, aborda os equívocos na música, os formatos… E esse tipo de manipulações agradam-me mais. Nós somos os responsáveis pela nossa imagem e gosto de variar, nos vídeos ficamos sempre um pouco mais condicionado por quem connosco trabalha, porque eu gosto de dar essa liberdade, uma vez que é um trabalho de equipa.

Há um aspecto importante no nosso percurso e naquilo que sempre nos propusemos fazer que foi sempre uma enorme vontade de ter liberdade e é uma liberdade de não olhar a limites e podermos fazer uma coisa completamente inesperada, nós inclusive fizemos uma gala do travesti no Teatro São Luiz, uma coisa da Abraço e eu estive em palco em cuecas. Não há muitas bandas que vão para um palco assim. Íamos com umas camisas do Dino Alves: eu ia em cuecas de leopardo, outro ia de mini saia e o outro de calção desportivo e as camisas eram iguais com folhos, porque achámos que ali fazia sentido esse tipo de jogo. Não estou a dizer que sou melhor, mas gosto de ter essa liberdade. É um bocado essa a ideia: podermos fazer tudo o que quisermos. Fizemos um concerto no Lux em que contratámos 2 raparigas que fizeram nu integral e foi giro. Na última música elas entraram em palco vestidas como se fossem hospedeiras dos anos 50 e chegaram-se a frente do palco e simplesmente abriram o casaco e ficaram nuas. Gosto destas performances, gosto de ousar.

MDX – Vi que vocês participaram em vários programas de verão da televisão, colaborações com a RTP. De que forma achas que isso pode influenciar a banda ou a vossa imagem? O que achas que isso transmite?

Paulo – É uma pergunta interessante por várias questões: uma é porque a maior parte dos grupos tem muito o preconceito da televisão, porque se faz playback total e, em dezenas de programas que fizemos acho que só 2 vezes foi som directo, que é sempre difícil porque implica logística, implica que sejam programas onde somos só nós. Eu respeito qualquer formato, apenas me limito a cumprir uma agenda que a editora nos propõe que aceitamos ou recusamos e eu decidi que queria aproveitar tudo. No fundo temos de nos servir de todos os meios para divulgar a música, e mesmo não sendo aquele o público-alvo, há sempre pessoas que vêem e permite-nos colocar coisas no Youtube, quanto mais não seja, e para além disso recebo direitos de autor. Ao mesmo tempo eu acho divertido, mas compreendo que isso cause muita estranheza porque as pessoas recusam-se a ir e eu achei por bem fazer porque gosto sempre de contrastar e ir ao contrário e, quase que isso também pode ter um princípio de provocação. De resto mantenho toda a distância crítica e sei avaliar que nos podemos baralhar ou confundir um bocadinho com a própria estética do programa, o que pode ser negativo, obviamente. Mas pronto, calhou assim, tem a ver com a nossa atitude mais irónica, se calhar.

MDX – O que te parecem as reacções das pessoas?

Paulo – Acho curioso, porque tenho tido reacções positivas e negativas, mesmo dentro do próprio grupo havia às vezes uma certa contrariedade, mas sempre me pareceu bem ficar com estes registos, no fundo é a nossa história e daqui por uns anos vamos achar imensa piada ter estado nestes programas. Em relação ao público, já tivemos reacções muito estranhas, já fomos insultados. Lembro-me de um programa em Vila Nova de Gaia em que íamos com uma grande produção de imagem e claro que ouvimos uns burburinhos por detrás, mas nós gostamos desse tipo de reacções porque nos proporciona ver também o outro lado, não podemos estar sempre à espera de um aplauso mas também saborear as situações improváveis. Por outro lado, há sempre pessoas que nos contactam. Portanto, eu não tenho preconceitos, não quero fechar a coisa numa espécie de condição muito estandardizada. Gosto de jogar com coisas que muitas vezes não se conjugam umas com as outras.

20160222 - Entrevista - Post Hit @ Noo Bai

MDX – O que pretendem com a vossa música?

Paulo – O que pretendemos é realizar vontades pessoais enquanto trabalho criativo que a música é. Tem de sair ca para fora, tenho uma necessidade enorme de mostrar coisas, de comunicar, de falar. É uma forma de expressão e portanto pretendemos comunicar com pessoas que sintam, como nós, o interesse por aquele registo ou género e, acima de tudo, também nos divertirmos. Nunca tivemos muito aquela preocupação carreirista de fazer um percurso muito sério na música, até porque isto foi sempre uma coisa paralela a outras actividades, portanto se algum dia as coisas sugerirem algum pretensiosismo, é meramente irónico porque nunca foi esse o nosso caminho, nós sempre quisemos divertir-nos, tocar, lançar álbuns, fazer vídeos sempre com uma atitude um pouco descontraída, muito humilde. No fundo aquilo é um auto-retrato, nem que seja só para os amigos. São as nossas criações, as nossas ideias, as nossas reuniões, surge também uma ideia grande de colagens, por exemplo no Hitmusic houve uma certa preocupação de jogar com imagens que no fundo são quase apropriações ou citações, a capa do álbum, por exemplo é uma citação irónica de uma capa dos Pet Shop Boys, como há outras fotos que brincamos um bocadinho com o John Lenon e o Paul MacCartney. Nós fazemos umas coisas pop, outras mais light, outras mais elaboradas, mas que no fundo obedecem a uma velocidade que é o descartável e assumo isso perfeitamente.

MDX – Já ouviste a vossa música passar nalguma pista de dança?

Paulo – Já ouvi numa ou noutra discoteca. Uma vez na costa alentejana estava numa discoteca, viram que eu estava lá e puseram um tema nosso e achei muito curioso. É sempre uma coisa um bocado estranha.

MDX – Comentaste sobre um álbum novo que pode vir ai, queres falar sobre isso?

Paulo – Agora nesta altura, eu decidi encetar trabalho novamente em parceria com o Sebastião Teixeira, que foi elemento dos POST HIT entre 2003 e 2011, mantivemos sempre amizade e contacto e de repente eu dei por mim a ir buscar um tema que tínhamos iniciado em 2009 que se chama “L’amour, L’après-midi”. É um tema cheio de referencias literárias e que na altura se gravou numa maquete e aquilo ficou no limbo, ficou suspenso, abandonado e eu olhei novamente para aquilo e pensei que estaria ali qualquer coisa que me permitia dar continuidade aquilo que no fundo sugeri que podia acontecer depois do Hitmusic, isto é, sendo um álbum tão alargado a outras sonoridades e tão diverso, porque não experimentar uma coisa em francês. Eu costumo dizer sempre que canto na língua que eu quiser e então agora vou fazer um single, que espero que saia antes do verão, cantado em francês, não sei ainda quem o vai produzir, é provável que regressemos ao Armando Teixeira, dos Balla, e portanto é um tema que não só permite um reencontro com o Sebastião, com quem tenho muitas afinidades musicais e estéticas, como vai dar um pontapé de saída para um novo disco que poderá ser um álbum ou um EP. Na verdade, eu quero aproveitar temas que ficaram inacabados e que acho que têm potencial e, também, um pretexto para trabalhar em coisas novas, poderá até surgir um tema em português pelo meio ou um tema com colagens de palavras que não existem, está tudo em aberto.

MDX – E concertos?

Paulo – Não temos tido uma prática recente em concertos porque como recorremos muito a músicos convidados, a estrutura que temos de criar é sempre uma estrutura que nos permita pagar aos músicos que connosco colaboram, porque eu acho que é uma base e um princípio. Como isso tem sido uma etapa mais difícil e este disco não teve a visibilidade que eu gostava que tivesse tido, porque é mais melancólico, com um espectro mais intimista em alguns momentos tem sido mais complicado. Mas acho que com estas músicas novas que vão surgir possamos então fazer depois uma saída para a estrada juntando temas deste disco, temas antigos e coisas novas.

Aguardemos pelos POST HIT e pelas suas novidades, que podem ser seguidas no facebook da banda – https://www.facebook.com/POSTHITMUSIC/ .

Entrevista – Eliana Berto
Fotografia – Luis Sousa