Os MulherHomem são já nossos conhecidos e esperemos que, em breve, de todo o Portugal. No ano passado lançaram o segundo álbum da carreira – O Inverno dos Outros (https://www.musicaemdx.pt/2015/11/22/mulherhomem-o-inverno-dos-outros/) – e o Música em DX sentiu necessidade de saber mais sobre este trio.

No passado dia 13 de Janeiro fizemos uma visita à sala de ensaios em Sete Casas – Loures e ficámos encantados. Para além da simpatia e envolvência da banda, sentimo-nos parte da família, num ambiente acolhedor com um espaço digno de uma obra divina. A génese de uma boa banda não está apenas no talento, está igualmente na união e companheirismo dos elementos e esta reúne todos os requisitos. O habitat deles está feito à sua medida e é um sítio bastante inspirador onde passámos quase 4h com a banda.

20160113 - Entrevista - MulherHomem

Fomos presenteados com um ensaio e com o exclusivo de conhecer 3 músicas novas. Algo que comprova a garra e gosto pela música destes senhores, pois o processo de evolução eleva-se a cada passo que dão e é bom saber que a força existe e o caminho está a ser percorrido na direcção certa. Estas faixas serão apresentadas já no próximo concerto da banda. Deixamos-vos um pouco mais acerca de MulherHomem.

Música em DX (MDX) – A pergunta da praxe: porquê MulherHomem?

Bruno Broa (BB) – Foi o Luís que criou o nome, todos os nomes que tínhamos pensado até à data não nos satisfaziam, até que ele um dia chega ao estúdio e nos diz: porque não MulherHomem? E nós gostámos bastante e ficou. Mas não sei de onde apareceu esse nome.

Luís Balinho (LB) – Estava no carro, ia para o ensaio e pensei nisso, surgiu.

Alexandre Nascimento (AN) – Por quem é que passaste na rua? Estavas onde? (risos)

BB – Mas qual foi a ordem lembras-te? Cão, gato, vestir, MulherHomem? (risos)

LB – Não. Achei engraçado a junção das duas palavras. HomemMulher já não soa tão bem. Não é nada de sexual é apenas e, como disse, a junção de duas palavras.

BB – Uma coisa que me cativou no nome é que é atrevido, para não dizer outra coisa. Para já, já sabes que é uma coisa que as pessoas vão todas achar estranho e diferente e vão ligar á conotação sexual de imediato. É algo ingrato também para merchandising imagina, por exemplo, uma t–shirt a dizer MulherHomem. Mas nós gostamos.

MDX – O que é que vos traz a música?

AN – Neste momento chatice, para ser sincero: não há retorno, só há trabalho. Estar a tocar é que já faz esquecer o resto, claro, sabe sempre bem. Mas a música em si, se for mesmo a dizer a música, sim dá chatices, problemas, confusões, prejuízo. Na verdade não tem nada de positivo. Se virmos bem todos os músicos estejam lá em cima ou cá em baixo queixam-se sempre, é sempre muito complicado. Por isso é uma questão um bocado estranha de se responder, de facto. Porque a música não traz mesmo nada a não ser confusão. As pessoas estão sempre a lutar por gosto para que? É uma satisfação pessoal. Digo isto não só acerca da minha pessoa mas no geral, porque é uma indústria muito grande, já só é um negócio ou traz dinheiro ou despesa e isto é chato, principalmente para nós que estamos cá mais em baixo. Mesmo para quem está lá em cima é sempre um conjunto de chatices. No entanto há sempre malta a começar, há imensos músicos. É isso que é fixe, é malta a lutar contra uma coisa extremamente difícil de superar.

BB – É curioso este paradoxo, porque por alguma razão nós estamos aqui e continuamos a fazer música. É quase uma auto – mutilação. Nós não nos podemos dar ao luxo de parar de criar porque se realmente passarmos muito tempo sem fazer nada, se já somos fáceis de desaparecer ou até imperfectíveis, ai então a situação desarruma-se. Música é seres deslumbrado, também.

LB – Para além disso tudo, a música é um enorme prazer, pelo menos para mim. Tanto tocar como ouvir. Para mim ouvir uma música do Jeff Buckley, por exemplo, e já ouvi aquilo milhares de vezes, é sempre como ouvir a primeira vez, fico maravilhado. Enquanto ouvinte há esse enorme prazer. Enquanto executante também há o prazer de, no meu caso, estar com a guitarra nas mãos, ter os dedos nas cordas e sair um som que não estava a espera, um som novo e às vezes vou a olhar e era um acorde banalíssimo, mas é o som que sai, parece que é a primeira vez que estou a ouvir e é um acorde que já toquei “n” vezes. É um enorme prazer sobretudo, para mim. Música é tocar a mesma nota e num dia ouvires uma coisa e no outro ouvires outra.

MDX – Preocupam-se ou não com o inverno dos outros?

LB – Sempre nos afecta o inverno dos outros, sem dúvida. Principalmente dos que nos são chegados, isso ai toca bastante. O inverno dos outros pode tornar-se o nosso também a determinada altura.

AN – Depende dos outros não é? Afectar, afecta, se preocupa, depende dos outros. Preocupa-me o facto de ser afectado pelo inverno dos outros, porque dependemos muito dos outros e ai o sentido de preocupação é pessoal. Acerca das pessoas mesmo, afecta. É uma resposta estranha porque acaba sempre por ser uma coisa muito pessoal estar a falar dos outros, porque tudo o que tem a ver com os outros é aquilo que te afecta a ti como pessoa. Se a mim não me afectasse nada, provavelmente também não iria querer saber dos outros. Acaba sempre por ser de acordo com a nossa pessoa. A preocupação com eles é tua.

BB – Então se forem invernos súbitos… Às vezes há invernos dos outros que se vão adensando. Esse é o inverno que mais preocupa, aquele que me apanha de surpresa, aquele que não estás à espera e te deixa sempre perplexo, sem resposta, ansioso e, nalguns casos, mesmo que queiras fugir ou resguardar-te dele e mesmo que fujas, há alguns que nos vão acompanhar até ao fim e o nosso próprio inverno já vai ser uma coisa pesada o suficiente para termos que nos preocupar com os outros. Mas invariavelmente nós não vivemos sozinhos. Tu não te consegues escapar de ti mesmo.

20160113 - Entrevista - MulherHomem

MDX – O Novecentos é mais cru e mais pesado de certa maneira. N’O Inverno dos Outros nota-se um trabalho mais elaborado, é mais denso… Foi uma mudança natural, sentiram essa necessidade, como é que esse processo aconteceu?

LB – Foi natural, naturalíssimo. O Novecentos surgiu de uma maneira muito espontânea tanto musicalmente, como em termos de voz, letras, foi tudo muito rápido e quisemos captar aquele momento. Foi gravado na nossa sala de ensaios, por isso é que deve soar assim tão cru. Já O Inverno dos Outros, quisemos gravar com melhores condições e depois, em relação às músicas, felizmente, são diferentes do Novecentos em termos de composição, se calhar menos agressivas, não sei se é a palavra correcta. Mas há diferenças, eu noto isso. A maneira como toco e tudo também é diferente. Aliás, até nas músicas mais recentes que nós temos, que não estão n’O Inverno, que são músicas novas, eu noto diferenças, o que é bom. Se fosse igual criava aqui uma urticária qualquer e não pode ser. Basicamente foi isso: quisemos gravar com melhores condições. Os primeiros 6 ensaios enquanto banda, ainda o Bruno não estava, foram os ensaios mais importantes de sempre, porque neles fizemos 6 músicas e dessas 6, 5 estão no Novecentos tocadas exactamente como nós as criámos naquela altura. Se isso não tivesse acontecido acho que não estávamos aqui hoje. Gravámos o Novecentos com as condições que havia e depois fomos para um estúdio gravar a sério, nos ensaios nós gravávamos com um telemóvel e depois quisemos gravar aquilo de forma mais eficaz e foi lá o Bruno com a mesa dele para gravar. No início houve quase uma necessidade tanto minha como do Filipe, baterista da altura, de não termos limites e tocarmos aquilo que queríamos. Não interessava se as pessoas iam gostar, só queríamos tocar aquilo que nós queríamos realmente tocar. Estávamos um pouco saturados de estar limitados. Basicamente o produto final d’O Inverno deve-se a mim, ao Bruno, ao Filipe Paradela (executantes), ao Pedro Moreira Dias (produtor) que por sua vez nos trouxe o Pedro Chamorra que nos gravou, nos deu na cabeça, nos deu ideias e só soa como está a soar porque ele teve um papel importantíssimo, e depois o Fernando Matias. Foram estas as pessoas que criaram O Inverno e o disco também é deles (neste disco o Pedro Moreira Dias é o 4º elemento da banda).

BB – O Novecentos foi um mentos numa garrafa de coca-cola. Olhando para trás, a forma como surgiu foi, sem dúvida, qualquer coisa inesperada, quase orgásmica. Quando cheguei ao primeiro ensaio, era só para gravar aquele ensaio com a simples e humilde tarefa de os ajudar a criar um registo no espirito de quem os conhecia. Para mim foi um choque ouvir aquilo, foi uma novidade. Porque eu estava habituado a um registo diferente do Luís noutras bandas e já tinha participado com o Paralela em outras coisas e quando ouvi aquilo eu não reconheci e fiquei agradavelmente surpreendido. Foi uma expulsão, uma necessidade de qualquer coisa. Até em termos líricos, eu nunca tinha feito nada rock e sempre tive muita apetência e muita curiosidade em criar narrativas meio confusas e meio esquizofrénicas, porque é assim que eu vejo a vida, sempre em confronto: nós estamos presos dentro de nós próprios. Tenho muita referência a carne, a mãos que se comportam de maneira diferente que não é suposto mas é natural, quase uma postura kafkiana mas a nível da linfa, da pele, da carne e do osso e foi excelente encontrar aquele território para expulsar fosse o que fosse. Sempre foi tudo muito intuitivo e muito rápido. O que acontece com O Inverno é que existe um investimento. É um disco gravado com um baterista que nunca o tocou realmente por completo ao vivo, no entanto o disco vive e está vivo com o Alexandre. Este novo que está a ser feito e construído, que sai nas fileiras do outro e por sua vez eles estão os 3 interligados, tem um grande sentido de responsabilidade relativamente a como o vamos gravar, porque no outro houve um investimento e uma experiência de estúdio, de produção e foi muito bom, aprendi bastante.

MDX – Em 3 anos (2012 – 2015) muda muita coisa. O que mudou em vocês enquanto MulherHomem e enquanto pessoas individualmente ligadas à música?

BB – Como pessoa, muita coisa aconteceu na minha vida e não foi necessariamente positiva para a criatividade. Vivi. O que demorou n’O Inverno foi a produção, não foi a criatividade. A criatividade aqui surgiu de forma muito natural, as músicas estavam prontas há muito mais tempo do que agora que o lançámos, o outro processo é que foi bastante demorado e isso levou-me um pouco ao desânimo. No fundo sinto-me insultado pela maneira como a música é vista hoje em dia. Se eu me sinto insultado acho que toda a gente que faz música se deve sentir insultado.

AN – Realmente nesse espaço de 3 anos, embora eu tenha entrado já depois, também foi a principal coisa que me apercebi à medida que fui crescendo, porque estou sempre a crescer. Cheguei a um patamar em que cada vez que estou mais dentro da música e conheço mais gente reparo nisso do insulto e é mesmo isso. É muito difícil sair deste ponto, apesar de estarmos sempre a subir. Durante esses 3 anos foi um bocado isso que aconteceu: a alegria de chegar mais longe mas ao mesmo tempo o resultado não ser o que se esperava.

BB – A melhor coisa é ver que cada vez que sai uma review do novo álbum, desta vez, por alguma razão, alguma coisa estamos a fazer bem e o nosso trabalho está a ser reconhecido pelas pessoas que lhe dão atenção e têm curiosidade e o maior insulto que eu continuo a receber é, ainda assim, continuar a ver mais paredes do que portas. Outro insulto que me fazem na música é parecer que é mau queixar-me.

LB – Há espaço para todos, qualquer tipo de música, mas parece não haver. Faz falta haver mais pessoas que possam ter influência e credibilidade suficientes para pegar em bandas.

MDX – O que esperam para 2016?

BB – Eu quero tocar para pessoas, seja num palco grande ou num palco pequenino. Quero descer do palco e estar com elas e com os meus colegas das bandas. Desejo gravar um novo álbum com as músicas novas e mais. Quero continuar a construir o cenário. E é isto que quero fazer em 2016: tocar, mostrar o mais possível às pessoas, ter o maior feedback possível e gravar um disco para ver como é que é, pela curiosidade novamente do processo e depois de fazer o terceiro voltar a ouvir o primeiro.

LB – Tocar. Que as pessoas venham falar connosco e dizer que não gostaram ou que gostaram, mas que venham falar connosco. Isso é essencial para um músico, falarem com ele. Não é estar num concerto a ver se o guitarrista se engana numa nota, mas sim curtir e falar. E fazer musicas novas!

AN – Eu também gostava muito de gravar, porque gostava de ter um registo comigo na banda e, acima de tudo, gostava de tocar o máximo possível porque uma banda sem tocar ao vivo não dá muita vontade. Na verdade, nós funcionamos como os nerds: atrás de um computador, sem sair de casa para serem os melhores do jogo e não adianta mais nada, nós vamos sendo melhores entre nós como banda mas também não está a servir de muito, portanto temos de ir tocar! O tocar é o principal, se der para gravar, melhor.

20160113 - Entrevista - MulherHomem

MDX – Como é que está a agenda?

BB – Temos concertos no dia 20 de Fevereiro no Stairway, em Cascais e no dia 11 de Março na Fnac do Chiado. Temos já uma mini tour programada em diversas Fnac’s de Lisboa e arredores e o objectivo de tocar em mais Fnac´s do país e pequenos bares.

MDX – Quando sai em formato físico o CD?

BB – Neste primeiro trimestre. Pelo menos uns 50 ou 100 CD’s vão sair até Março.

MDX – Qual é o vosso palco de sonho?

LB – Qualquer um. Damos o nosso melhor em qualquer sítio esteja lá uma pessoa ou mais. É claro que gostava de tocar no Coliseu, mais do que no Meo Arena, já lá vi muitos concertos e já me imaginei muitas vezes daquele lado mas, neste momento, para ser realista é o próximo concerto. Aquilo que eu faria no Coliseu, farei em qualquer outro sítio.

BB – O meu palco de sonho é A Salinha da Saudade, na tasca da União Desportiva e Recreativa de Algés. É um palco abandonado, no sótão deste sítio. Está sempre às escuras, nunca foi utilizado pelas pessoas que frequentam a tasca e sempre tive um fetiche por aquela salinha. Mas é claro que se tiver algum dia a oportunidade de estar com o Alexandre e com o Balinho num palco e ouvir 10 mil pessoas a fazer barulho, olhar em frente e ver os camarotes do Coliseu seria brutal.

MDX – Qual é o álbum da vossa vida?

Alex – Meddle de Pink Floyd, porque foi das primeiras coisas que ouvi e que tive em vinil. Era o que eu mais gostava e que tem a sucessão de notas que faz qualquer música que exista no mundo ser genial. Todas as músicas que têm a cena feita daquela maneira são músicas brutais.

LB – O Grace de Jeff Buckley. Se tivesse de levar um disco para uma ilha deserta seria este. Para mim é a melhor voz que eu já ouvi e depois, tem a composição, os acordes, as notas e, por muito estranho que possa parecer, influencia muito a musica que faço em MulherHomem.

BB – Eu não sei o nome do disco, mas sei o nome da autora. Comprei o disco na Valentim de Carvalho do CCB e a autora era a Jhana. Devia ter uns 17 ou 18 anos quando o comprei e vivia muito a música com um amigo meu. Chegas a um ponto que queres descobrir coisas novas e mostra-las e eu ouvi uma faixa do disco na loja e pensei que aquilo era muito diferente e comprei. Depois passei pelo menos 10 anos a tentar dizer a mim próprio que aquele disco era bom e nunca me convenci disso e sempre que tentava ouvir o disco, pensava: “que merda é que fui comprar?” mas elogiava sempre o disco ao meu amigo. Depois disto que te estou a dizer, vou procurar o disco e com toda a atenção, se calhar vou gostar bastante. Porque sou uma pessoa diferente de quando tinha 18 anos e vou poder ver, graças a esse disco, como é que eu cresci.

 

Os MulherHomem esperam-vos no Stairway Club em Cascais no próximo dia 20 de Fevereiro com muito rock para dar. Enquanto não chega o dia 20, vão conhecendo um pouco da banda com o vídeo de “Todo o Ar”, um dos temas de O Inverno dos Outros,

 

E se ficaram com curiosidade por conhecer o resto do álbum, podem ouvir gratuitamente no bandcamp da banda (clicar na imagem em baixo).

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Mais informação em https://www.facebook.com/MULHERHOMEM/

 

Entrevista – Eliana Berto
Fotografia – Luis Sousa